A evolução do conceito – parte 1

Essa tal de sutentabilidade…

Entrou definitivamente na agenda das empresas e  está na mesa dos lideres de negócio do País. Tornou-se um tema estratégico. Hoje há cada vez mais corporações preocupadas em conciliar resultados econômico-financeiros com proteção ambiental e justiça social. Há um número crescentemente maior de companhias interessadas em fazer negócios sem aquecer mais o planeta, esgotar recursos naturais escassos ou destruir ecossistemas nem produzir mais pobreza, exclusão e desigualdades. Afinal, já se sabe, a intervenção insustentável do homem na natureza está colocando em risco o equilíbrio que garante a vida na Terra.

Sair do discurso para a prática sustentável exigirá revisão de modelos de pensar, produzir e consumir. Demandará novos arranjos intersetoriais. Implicará empresas mais responsáveis, regulações mais rígidas, governos mais vigilantes, sociedades mais críticas, cidadãos mais conscientes e engajados. Os desafios são muitos, amplos e complexos. E informação de qualidade é o primeiro passo para compreendê-los e superá-los.

Pensando justamente nisso, a revista Líderes, em parceria com a consultoria Idéia Sustentável, publica a partir de hoje o primeiro de uma série de 12 fascículos denominada “Ensaios sobre Sustentabilidade”. Nas próximas edições, serão abordados, entre outros, os desafios da água, da energia, da diversidade e da biodiversidade, da governança e transparência, da promoção de justiça social e do consumo consciente. A de hoje traz um pouco da história da evolução dos conceitos de responsabilidade social empresarial e sustentabilidade nos últimos 10 anos, sob a ótica de alguns dos principais especialistas no tema. Uma edição para ler, refletir, destacar e colecionar.

Sustentabilidade ontem e hoje

Promover o desenvolvimento de comunidades, valorizar a diversidade entre os colaboradores, fomentar a inclusão de pessoas, reutilizar matérias-primas, adotar critérios sociais e ambientais para seleção de fornecedores implantar códigos de condutas, elaborar balanços sociais e, mais recentemente, diminuir emissões de gás carbônico. Há pouco mais de 10 anos, idéias como estas eram pouco comuns no mundo dos negócios e soavam até incompatíveis com a lógica do lucro e do sucesso econômico. Hoje, elas estão no centro da estratégia de muitas corporações. E começam a influenciar mudanças de práticas, relações e modelos empresariais.

Em uma década, os conceitos de responsabilidade social e sustentabilidade deixaram de ser elementos estranhos à cultura corporativa. A seu modo, eles têm contribuído para “reumanizar” as empresas, convocando os seus líderes ao exercício de questionar os vícios da cultura mecanicista difundida pela teoria científica da administração, repensar as verdades absolutas da ética capitalista e buscar, no trabalho, significados mais subjetivos que excedem o lucro.

A ascensão desses conceitos se deve, em grande medida, à iniciativa pioneira de organizações como a BSR (Business Social Responsibility) e o WBCSD (Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável). Ao perceberem que, sem a participação mais efetiva das empresas, responsáveis pela geração de riqueza, não seria possível corrigir os desvios da economia de mercado nem solucionar uma parte considerável dos complexos dilemas atuais da humanidade, elas tiveram papel fundamental na proposição de uma agenda para a atuação responsável  no âmbito social e ambiental.

A idéia deu certo, ganhou adeptos e se espalhou pelo mundo. No Brasil, inspirou a criação de organizações como o CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), que tem 11 anos, e o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, com 10 anos, ambas precursoras do debate e reflexão sobre o papel das empresas na sociedade. A primeira nasceu para empunhar a bandeira de que os negócios podem e devem ser sustentáveis. A segunda, com a missão de mobilizar, sensibilizar e apoiar as empresas a gerirem seus negócios de um modo socialmente responsável.

“Cebds e Ethos são repercussões de movimentos internacionais. Decorrem de uma tropicalização consciente, não apenas uma repetição do que se fazia lá fora. As duas correntes, que representaram uma ampliação de consciência do mundo empresarial, caminharam em paralelo por muito tempo e apenas recentemente se encontraram em torno do tema da sustentabilidade”, afirma Cláudio Boechat, professor e pesquisador da Fundação Dom Cabral.

Para ele, a responsabilidade social empresarial e a sustentabilidade se sucederam, como etapas de um mesmo processo, sem que necessariamente uma e outra tivessem esgotado os desafios de suas agendas iniciais. “Avanços foram observados no âmbito da proposta da responsabilidade social. Algumas questões andaram apenas em parte, outras foram abandonadas. Agora, a premência é cuidar das gerações vindouras, especialmente nas questões ambientais, o que nos leva, mais uma vez, a abrir mão de temas e nos dedicar a outros para os quais estávamos menos atentos”, reflete.

Ao contrário do início do movimento, quando havia quem achasse que se tratava de uma breve onda corporativa, hoje ninguém mais tem dúvida de que esses conceitos vieram para ficar.  “Essa não é uma moda passageira, que teve um pico e depois entrou em declínio. É algo que vem se intensificando e incorporando todos os segmentos da sociedade: legislação, organismos multilaterais, universidades, empresas, organizações do terceiro setor, associações e representantes da sociedade civil”, avalia Homero Santos, consultor da Fundação Dom Cabral e do UniEthos.

Movimento ambiental: da reação à ação

No princípio, sustentabilidade era meio ambiente. Nas décadas de 1960 e 1970, surgiram os primeiros organismos de proteção ambiental e, com eles, também as primeiras regulamentações, rigorosas no papel, mas nem tanto nos processos de fiscalização e cumprimento. Antes delas, as empresas não tinham obrigações em relação ao meio ambiente. Exemplo notório desse tempo foi o parque industrial de Cubatão, cuja poluição causada pelas indústrias instaladas no município levou, mais de uma vez, a decretação de estado de calamidade pública por representar séria ameaça à saúde de sua população.
Para atender às novas exigências legais, as corporações se viram, portanto, forçadas a adotar comportamentos mais responsáveis em questões como emissão de poluentes, desmatamento, descarte de produtos e lançamento de resíduos sólidos e líquidos. Os governos, as organizações não-governamentais e a sociedade organizada, mais atentos ao tema, passaram a cobrar atitudes ambientalmente adequadas.

Alguns eventos constituem marcos importantes na defesa do meio ambiente, como, por exemplo, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, Suécia (1972) e a divulgação do relatório Nosso Futuro Comum, elaborado, em 1987, pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas. Também conhecido como “Relatório Brundtland” – em homenagem à ex-primeira-ministra da Noruega Gro Brundtland, que coordenou os debates para sua eaboração – ele foi o primeiro documento público a mencionar o termo desenvolvimento sustentável.

Com a realização da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro (Eco 92), ficou claro que a velocidade com que os recursos naturais vinham sendo consumidos ameaçava a sobrevivência no Planeta. Ainda de modo reativo, as empresas intensificaram a revisão de seus processos produtivos para reduzir os impactos no meio ambiente.

Na maioria das companhias, a gestão ambiental surgiu como uma evolução dos sistemas de qualidade, implementados com a ISO 9001  para assegurar a melhoria contínua dos processos e produtos. As certificações seguintes (ISO 14001, OHSAS 18001) ampliaram essa visão, passando a incluir a preocupação com o meio ambiente, com a saúde e a segurança do funcionário e da comunidade.

Outro avanço obtido com as certificações foi a disseminação da ferramenta de análise do ciclo de vida do produto (ACV), que consiste na avaliação dos impactos ambientais, compreendendo etapas que vão desde a retirada de matérias-primas da natureza até a disposição do produto final. Além de serem uma exigência da ISO 14001, os resultados da ACV podem ser úteis para a tomada de decisão negocial, servindo como um critério para avaliação de projetos, produtos, processos e planejamento estratégico da empresa.

Para Heloisa Bedicks, secretária-geral do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), esses instrumentos de adesão voluntária funcionam melhor do que a regulamentação legal, na medida em que promovem o engajamento espontâneo, refletido, decidido por convicção e não por pressão “Se a pessoa está engajada em não poluir e em reciclar o lixo, ela faz isso não só no trabalho. Vai exigir também no edifício onde mora. E o universo em que as empresas atuam é muito grande. Se pensarmos na quantidade de colaboradores, clientes e fornecedores com os quais elas se relacionam, tem-se a mobilização de parcela significativa da sociedade na promoção de boas práticas ambientais e sociais”, ressalta Heloisa.

Da reação motivada pela obrigação de obedecer às leis seguiu-se a ação. E ela veio com a ascensão do conceito de ecoeficiência. Ao perceberem que, além de atender as normas ambientais, a mudança de processos na cadeia de valor resultava em diminuição de custos, as empresas enxergaram uma oportunidade de melhorar o desempenho dos negócios e, portanto, obter dividendos econômicos nesse esforço.

“As primeiras mudanças ocorreram no setor de controle de poluição e segurança do trabalho, áreas em que a legislação é mais incisiva. Elas se deram por meio de projetos e programas de ecoeficiência, nos quais tanto os ganhos econômicos quanto os ambientais são positivos. Vale destacar como exemplos a co-geração de energia (siderurgia), a utilização de biomassa e lixo na combustão (papel e celulose) e a reciclagem de papel e latas”, afirma a cientista econômica Dália Maimon, autora do livro Passaporte verde: gestão ambiental e competitividade.

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