Especial – Resíduos: Lixo extraordinário

Um reality show inglês leva 11 voluntários para um aterro sanitário e os desafia a viver apenas com o que as outras pessoas descartam. No Brasil, resíduos transformam-se em obras de arte, arrematadas por fortunas no mercado internacional, resgatando a dignidade de catadores de um aterro sanitário no Rio de Janeiro. Inusitadas, essas iniciativas demonstram que a primeira mudança necessária para a solução da problemática do lixo é de percepção.
Esse desafio já bate à porta das empresas, onde a discussão de resíduos, por muito tempo centrada no atendimento às leis e exigências das certificações, começa a orientar novas estratégias de negócio.

“Se trocarmos a palavra ‘resíduo’ por ‘recurso’, fica claro que temos uma enorme oportunidade. De repente, alguns materiais de descarte podem alimentar uma fábrica vizinha; o calor que antes se dissipava pode ser usado para diminuir o consumo de energia”, sugere Kristoffer Lundholm, conselheiro sênior do The Natural Step, organização não governamental responsável pela metodologia de mesmo nome, utilizada internacionalmente em processos de tomada de decisão.

Nesse cenário, ganha espaço a discussão de ciclo fechado de produção proposta por Michael Braungart e Willian McDonough, no livro Cradle-to-Cradle: Remaking the Way We Make Things (Berço a Berço: Refazendo a Maneira Como Fazemos Coisas), lançado em 2002. Eles entendem poluição e desperdício como falhas de projeto e, portanto, propõem que a sustentabilidade se torne uma preocupação presente desde a concepção de um produto ou processo.

Aos poucos, questões como toxicidade, reciclabilidade e biodegradabilidade dos materiais, impactos na disponibilidade dos recursos naturais, na saúde dos ecossistemas e das pessoas passaram a integrar a lista de considerações dos designers e projetistas.

Mas o modelo cradle-to-cradle ainda desafia as estratégias de negócio e políticas convencionais. “As companhias tendem a olhar o seu resíduo como aquele que está diante delas nas suas fábricas ou operações, mas não conseguem olhar para os seus fornecedores e clientes. O resíduo deles é a extensão da pegada ambiental da empresa. Encontrar formas de reutilizá-los ou eliminá-los pode transformar-se numa tremenda oportunidade”, ressalta Lundholm.

O lixo que vemos nas lixeiras representa apenas a ponta de um iceberg. Basta dizer que um produto contém, em média, 5% das matérias-primas utilizadas no seu processo de fabricação e entrega.
“As empresas terão de, individual e coletivamente, assumir a responsabilidade pelos resíduos que os seus produtos geram, inclusive depois de terem chegado ao fim da sua vida útil. Há uma oportunidade para começar a trabalhar essas questões, estrategicamente, antes de a legislação exigir”, adverte Lundholm.

Na Europa, por exemplo, já existe uma diretiva-quadro (2008/98/CE) que, entre outros aspectos, estabelece metas de recolhimento dos produtos no pós-consumo vinculadas à quantidade de itens introduzidos no mercado.

No Japão, consumidores, indústria, comércio e Poder Público têm seus papéis definidos em lei no que diz respeito à gestão de resíduos e respondem pelo seu descumprimento. Em 2001, entrou em vigor a Home Appliances Recycling Law, lei que atribui aos fabricantes a responsabilidade de desmontar e reciclar produtos como máquinas de lavar, televisão e ar-condicionado. Essa exigência se estendeu às fabricantes de automóveis, em 2004. Nesse caso, o consumidor arca com os custos de transporte e reciclagem do produto que jogar fora. A lei exige que os fabricantes, varejistas e importadores comuniquem essas taxas.

O Brasil iniciou um movimento semelhante com a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que responsabiliza as empresas pelo recolhimento de produtos ao final de sua vida útil.
Diógenes Del Bel, diretor da Associação Brasileira de Tratamento de Resíduos (ABETRE), lembra que a edição dessa lei não encerra o processo, mas abre uma nova agenda legislativa. “Há uma série de aspectos que precisa ser detalhada em decretos federais, resoluções do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), em normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas),  e todos os planos de gestão (nacional, estadual e municipal)”, reforça.

Outra medida complementar é o Plano de Produção e Consumo Sustentáveis (PPCS), aberto para consulta pública entre setembro e novembro de 2010. A elaboração do documento resulta do compromisso que o Brasil assumiu junto às Nações Unidas – em 2002 – ao aderir ao Processo de Marrakech. Ele trata da responsabilidade compartilhada e enfatiza a necessidade do engajamento dos consumidores.

“A união da Política Nacional dos Resíduos Sólidos com o PPCS pode estruturar uma vigorosa indústria da reciclagem no Brasil, gerando milhares de empregos, além de fortalecer os programas de inclusão dos catadores”, destaca a versão do documento encaminhada à apreciação pública. “Estamos diante de um desafio ambiental, moral, ético e econômico. Precisamos criar condições de engajamento de todos os públicos.

A solução para isso passa, sem dúvida, pelo setor público, mas sobretudo pela aproximação das agendas corporativas com a social. Vamos arregaçar as mangas e fazer!” , enfatizou a ministra do Meio Ambiente,Izabella Teixeira, conclamando a participação dos empresários, em evento de apresentação do PPCS em São Paulo.

NO RADAR:

Prioridades elencadas pelo Plano de Produção e Consumo Sustentáveis (2011-2013)

-    Aumento da reciclagem
-    Educação para o consumo sustentável
-    Agenda ambiental na administração pública
-    Compras públicas sustentáveis
-    Construções sustentáveis
-    Varejo e consumo sustentáveis

Resíduo-zero

Mais educativa do que factível, a abordagem de resíduo-zero, utilizada em cada vez mais programas de empresas e governos, tem orientado estratégias ousadas para eliminar qualquer tipo de desperdício, diminuir a complexidade de processos e, logicamente, os custos da gestão de resíduos.

“Lixo zero é um conceito útil para orientar o pensamento e começarmos a ver tudo como um recurso. Mas não é uma definição da meta final de sustentabilidade. Talvez a ideia de ‘resíduos=alimento’ seja mais útil”, defende Lundholm.
Para Carlos Silva Filho, diretor-executivo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (ABRELPE), a sociedade ainda não tem capacidade de gerenciar a totalidade daquilo que descarta, seja no processo produtivo seja no pós-consumo. Em grande parte porque o mercado de reciclagem e recuperação de resíduos ainda está em formação. “Mesmo os países mais desenvolvidos não conseguiram implementar programas de lixo zero com pleno sucesso. No entanto, essa tem de ser a nossa busca e a meta a perseguir”, destaca Silva.

No Brasil, as dimensões do País, somadas ao fato de não haver ainda uma cadeia de reciclagem organizada, tampouco programas de coleta seletiva disseminados, tornam esse desafio ainda mais complexo. Para se ter uma ideia, apenas 443 municípios brasileiros (8% do total) operam programas de coleta seletiva. Atualmente, as 780 recicladoras nacionais absorvem mais material do que o País consegue coletar. O setor atua com 30% da capacidade ociosa por falta de matéria-prima.

Segundo a Plastivida Instituto Socioambiental dos Plásticos, em 2008 o Brasil importou 175,5 mil toneladas de resíduos plásticos, papéis, madeiras, vidros, alumínio, cobre, pilhas, baterias e outros componentes elétricos. Entre janeiro e junho de 2009, foram mais 47,7 mil toneladas. Só o setor têxtil, que utiliza sucata PET, trouxe de fora 14 mil toneladas desse resíduo (75% mais do que em 2007). Essas falhas abrem caminho para o comércio ilegal de lixo e geram perdas econômicas da ordem de US$ 12 bilhões.

Entre as empresas, a fabricante de carpetes InterfaceFlor foi uma das pioneiras a criar um programa de resíduo-zero, quando, em 1994, lançou o Mission Zero. Desde então, obteve uma economia de mais de US$107 milhões e o custo de resíduo por unidade diminuiu em 48%. Ao longo de 13 anos, reduziu 88% das emissões de gases de efeito estufa (em toneladas absolutas) e 80% do uso de água, em relação a 1996.

A companhia define resíduo como qualquer custo que não produz valor para seus consumidores, incluindo formas tradicionais como refugos e materiais encaminhados a aterros, bem como os recursos, tempo e energia gastos em algo que não fez certo na primeira vez.  Com sua Mission Zero pretende zerar seus impactos ambientais até o ano 2020, posição essa que desperta tanto reações de apoio quanto de desaprovação.

Maurício Waldman, mestre em Antropologia e doutorando em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), questiona a viabilidade desse tipo de programa. “Resíduo-zero é uma mitologia, uma peça de ficção. O termo é conceitualmente errado. Não existe dentro da lei da termodinâmica a possibilidade de interagir com o meio ambiente sem gerar resíduo, que faz parte da humanidade desde que ela existe”, pondera.

Autor do livro Lixo: Cenários e Desafios, publicado em 2010 pela editora Cortez, Waldman defende que a palavra-chave para a inovação na gestão de resíduos é repensar. “Repensar o modelo de geração, circulação e consumo de mercadorias e, principalmente, a expectativa que as pessoas têm dos objetos e quais são os valores que estão sendo construídos junto com eles. É impossível discutir a problemática do lixo sem falar de educação e consumo consciente”, ressalta. Waldman, porém, não ignora o desafio técnico. “As pessoas tendem a discutir esse assunto em função de questões psicológicas, mas – sinto muito – o lixo também é material. Temos de pensar modelos e tecnologias de gestão mais eficientes”, reforça.

PARA SABER MAIS: Mission Zero

O programa para eliminação de resíduos e impactos ambientais, lançado pela InterfaceFlor em 1994,  transformou-se em um movimento e conta com a adesão de uma série de organizações com ou sem fins lucrativos. Suas áreas-chave são:

1.    Eliminação de resíduos
2.    Emissões benéficas
3.    Energia renovável
4.    Ciclos fechados
5.    Uso eficiente dos recursos no transporte
6.    Sensibilização dos stakeholders
7.    Redesenho do comércio

Desmaterialização

A promessa de uma economia desmaterializada já está presente há pelo menos três décadas em nossa sociedade, principalmente a partir da disseminação das tecnologias da comunicação e informação. O fato é que, mesmo em meio a essa proposta, triunfou a lógica do descartável, que nos levou a superar em 20% a capacidade da Terra de repor recursos naturais.

Waldman lembra que desde a década de 1980 se aposta na virtualização da informação, cuja promessa é acabar, por exemplo, com a necessidade de papel, mas ainda estamos bem longe desse modelo. “Temos um exército de impressoras no mundo inteiro. Nunca se consumiu tanto papel. Nunca se gerou tanto lixo eletrônico. O consumo de energia aumentou. Tudo isso dentro de um esquema de desmaterialização da economia”, critica Waldman.

Jonathan Kooley, pesquisador do Lawrence Berkeley Lab e professor na Universidade de Stanford, é mais otimista e destaca que a partir da substituição de produtos físicos por informação pode-se reduzir os impactos ambientais com a redução das emissões associadas ao transporte e à fabricação do produto. “Um exemplo pode ser baixar músicas da internet em vez de comprar um CD, o que resulta na redução de emissões tanto na fabricação quanto no transporte.

Outra possibilidade é o uso da tecnologia de telepresença para se comunicar com alguém do outro lado do mundo – nesse caso estamos evitando emissões geradas para se deslocar, por exemplo, de avião, até a casa de um colega”, afirma.
Segundo ele, companhias de tecnologias, transporte e mídia são as que lidam com desafios e oportunidades mais óbvios de desmaterialização. Por isso, responderão mais rápido a essa tendência.

Porém, os setores mais convencionais ainda ignoram essa propensão dos seus riscos. Mais do que de avanços tecnológicos, muitas dessas mudanças dependem da transformação do conjunto de crenças da sociedade. Mas Jonathan aponta caminhos por onde começar. “Descobrindo formas de minimizar o uso de energia em transporte e substituir átomos por bits. Movendo toda a distribuição de documentos para o meio eletrônico, por exemplo, e criando centros regionais de teletrabalho. Continuamos tendo um longo caminho a percorrer nessas duas áreas”, conclui.

Publicado em Especiais. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado.

*

8 respostas a "Especial – Resíduos: Lixo extraordinário"

  1. Pingback: e o prêmio de babaca de 1899 vai para a mãe do bentinho, cuja promessa do filho ser padre tirava o dela da reta e só fodia a vida dos outros | The America News

  2. edson disse:

    essa matéria é espetacular!! também quero aproveitar o espaço e mostrar um pouco do que estou fazendo para ajudar o meio ambiente com isso trazendo uma arte limpa e única. ainda sem incentivos mas, tenho muita força de vontade e determinação. tenho fé em Deus que logo conseguirei apoio para divulgar mais o meu trabalho. desde já agradeço.

  3. Gostei demais da matéria, acredito que essas práticas de reutilização seria um alternativa bem realista para a não construção da Usina de Belo Monte. Parabéns pela brilhante exploração do tema.

  4. ISRAEL MENDONÇA disse:

    É PRECISO MUDAR A MENTALIDADE DAS PESSOS COM RESPEITO A RECICLAGEM. ESTA PRATICA TEM QUE COMEÇAR DE CASA TEM QUE PARTIR DO CIDADÃO COMUM AOS GOVERNANTES

  5. ISRAEL MENDONÇA disse:

    MUITO INTERESSANTE A IDEIA DE ALUGAR INVEZ DE VENDELO PARA QUE SE POSSA TER CONTROLE DO SEU PRODUTRO SÓ ASSIM PODERA DESCARTALO NA HORA CERTA E LUGAR APROPRIADO

  6. ISRAEL MENDONÇA disse:

    ATUALMENTE TRABALHO EM UMA MULTINACIONAL QUE FAZ TRABALHO DE COLETA SELETICA E TRATAMENTO HIDRICO A CHAMADA AGUA DE REUZO ELA TRATA 100% SUA AGUA

  7. SAMUEL OLIVEIRA DA SILVA disse:

    gostei muito do conteudo, mais fica uma pergunta porque nosso lixos ou luxos é tão rico e os politico pouco tem feito por esse tema?

  8. Pingback: Edição nº22 :: Ideia Sustentável