Meio Ambiente, mudanças climáticas e oportunidades

Qual é o lugar do meio ambiente na agenda brasileira?

A atenção do consumidor brasileiro ainda está predominantemente focada no tema da segurança pública. Apenas em dois momentos o brasileiro desviou seu foco da violência: no desemprego e na corrupção, em 2006; e com o desempenho da economia, em 2009. Entretanto, as principais mudanças no humor público estão associadas ao crescimento contínuo da preocupação com saúde e educação, temas que saltaram aos olhos do consumidor nos últimos anos. Por outro lado, há uma queda drástica do desemprego como problema, o que denota que a bandeira da oferta de oportunidades de trabalho, embora sempre relevante, adquire um apelo cada vez menor.

A preocupação com o problema da qualidade do meio ambiente está entre as cinco maiores, empatando com o desemprego e na frente de considerações habitualmente tradicionais e de conteúdo altamente inflamável, tais como a corrupção na vida pública e a instabilidade da economia. Fora a preocupação com a tragédia da insegurança cotidiana, a agenda dos brasileiros cada vez está mais parecida com a das sociedades estáveis e institucionalizadas rumo ao desenvolvimento, e mais diferente daquela dos países atribulados por crises da economia ou incertezas da política.

Como explicar os vaivéns da preocupação ambiental entre os brasileiros? Considerando apenas o quanto o tema é alavancado pelas outras inquietações do público, a prioridade para assuntos ambientais não responde ao ritmo de ansiedades com a economia ou o desemprego. A evolução das curvas dessas três preocupações, entre 2007 e 2010, revela uma relação moderada entre si.

Com qual curva a preocupação ambiental está mais fortemente associada? Com a da corrupção política e transparência pública: a variação de um ano para outro na colocação da corrupção como prioridade chega a explicar mais de 56% das oscilações da curva de preocupação ambiental. A mensagem é clara: a percepção do que emperra ou fortalece o desempenho ambiental do Brasil tem cada vez menos a ver com o funcionamento da economia e mais com a eficácia política e ética das suas instituições, da capacidade de fazer cumprir regras, de punir fraudes e inibir situações de corrupção que enfraqueçam uma atuação socioambientalmente responsável.

Temas ambientais no centro da mesa

Consumidores de todo o mundo não estão somente preocupados com os problemas ambientais – eles também os avaliam como prioridades do momento: meio ambiente, direitos humanos e mudanças climáticas ocupam o topo da lista da agenda global. Dentre os assuntos emergentes, dois problemas relativos à governança corporativa: violação dos direitos dos trabalhadores e o aumento do poder das multinacionais. Ainda, a elevação nos preços dos alimentos e da energia se projeta como um desafio persistente, ao passo que a preocupação com o estado da economia mundial passa a ser mera figurante diante das demais inquietações.

O nível de urgência por soluções no mercado brasileiro é mais generalizado do que no resto do mundo: apenas em relação ao aumento de poder das empresas multinacionais não há uma elevação da gravidade percebida, ou seja, quase todos os problemas são vistos como mais sérios do que eram em 2009.

A pauta ambiental em conversas cotidianas

O lugar de destaque ocupado pelas questões ambientais na agenda nacional é consistentemente reforçado pela admissão de que temas como danos ou cuidados com o meio ambiente, poluição e mudanças climáticas fazem parte do dia a dia dos consumidores e de suas conversas. As preocupações ambientais integram uma mesma constelação de problemas ocupada, também, pela falta de ética e a corrupção pública. Esse temário é o que mais mobiliza e engaja o cidadão brasileiro, estando muito presente nas suas discussões (visibilidade) e sendo considerado muito grave (intensidade). “O dado da Market Analysis confirma uma situação claramente perceptível nos últimos quatro anos, período que coincide com o anúncio feito pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) sobre a gravidade das mudanças climáticas e a responsabilização do homem pelo quadro. A questão ambiental deixou de ser tema de acadêmicos, iniciados e ONGs ambientalistas. Passou a  servir como mote para desfiles de moda, enredos de escola de samba, eventos esportivos, aulas nas escolas públicas, programas populares de TV.  Mais informação circulando nos diferentes tecidos da sociedade – inclusive e principalmente entre os não consumidores habituais de informação – não tem significado necessariamente maior conhecimento. No entanto, falar sobre o assunto é um passo que antecede o compreender melhor  e o agir melhor”, avalia o consultor Ricardo Voltolini, diretor de Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade.

Ao contrário do que ocorre em outras partes do mundo, não há maior ênfase nos abusos aos direitos humanos (sejam casos de mão de obra escrava ou infantil, ou de brutalidade policial).  O abuso dos direitos humanos, a violação da legislação trabalhista e a proliferação de doenças formam uma agenda secundária: atribui-se importância a esses problemas, mas eles permanecem desvinculados do cotidiano das pessoas.

O cenário econômico, por outro lado, retratado em temas como o aumento de poder das multinacionais e o estado da economia mundial, junto com as migrações transnacionais, possuem baixa capilaridade no cotidiano da população, além de não serem fontes de grandes preocupações.

A sirene ambiental soa mais alto mais no Brasil

Quando as diversas prioridades ambientais entram em foco, o público brasileiro se mostra cada vez mais apreensivo, mesmo em relação aos desafios mais distantes do seu dia a dia. O cenário sinaliza a adoção de um conceito amplo e diverso de “crise ambiental” na cabeça do consumidor.

A seriedade com a qual o brasileiro avalia os problemas ambientais é muito superior à verificada em outros países. Enquanto o cenário global é marcado por uma tomada de consciência na virada da década (1998-2000) e uma maior estabilização na opinião pública desde então, no Brasil há um alarme geral duas vezes maior do que em 1998.

Há um “despertar ambientalista” no País, desde 2003, e não é para menos: os níveis de poluição do ar e de acumulação de lixo não param de subir, aumentos do desmatamento, crises recorrentes no abastecimento de água potável, com períodos de estresse hídrico em alguns Estados brasileiros; secas cada vez mais severas, principalmente no Nordeste; ocorrência frequente de ciclones extratropicais e até mesmo de furacão (o Catarina, em 2004) na região Sul; recordes de temperaturas elevadas em todo o território nacional. Enfim, soou o alarme da qualidade do meio ambiente no Brasil.

Dentre os problemas, o destaque comparativo fica para a percepção de gravidade das mudanças climáticas: ao longo do último ano, em paralelo ao maior espaço conquistado pelos céticos do aquecimento global na mídia internacional e às contramarchas da COP15 e COP16, e denúncias de falsificação de dados pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), houve uma marcada queda da apreensão sobre o tema em nível global, enquanto entre os brasileiros a urgência não parou de se elevar.

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