Este Dossiê Verde foi elaborado com base em insights do livro Conversas com Líderes Sustentáveis, de Ricardo Voltolini (Editora Senac-SP, junho de 2011). Propõe-se a discutir quem são os líderes de sustentabilidade, como agem, pensam e tomam decisões, e em que valores acreditam, utilizando como suporte de análise o relato dos individual cases de Fábio Barbosa (Santander), Guilherme Leal (Natura), Paulo Nigro (Tetra Pak), José Luciano Penido (Fibria), Franklin Feder (Alcoa), Luiz Ernesto Gemignani (Promon), José Luiz Alquéres (ex-Ligth), Héctor Núñez (ex-Walmart), Miguel Krigsner (O Boticário) e Kees Kruythoff (Unilever).
A primeira parte, denominada Cinco traços comuns, complementa ensaio publicado na edição passada de Ideia Sustentável (De que matéria são feitos os líderes em sustentabilidade?), aprofundando-o com mais dados e, principalmente, depoimentos dos presidentes entrevistados. As opiniões registradas servem, sobretudo, para ilustrar as ideias do texto e justificar as conclusões do autor a respeito das características comuns mais destacadas entre os executivos perfilados na obra.
Na segunda parte, apoiando-se também em passagem do livro, o presente Dossiê ressalta os 20 atributos de um líder em sustentabilidade, tomando como mote o Plano para Liderança em Sustentabilidade, lançado pelo Pacto Global das Nações Unidas, em agosto de 2010. Trata-se de um importante material para reflexões de executivos e gestores de empresas.
Na terceira e última parte, Ideia Sustentável aponta uma biblioteca básica para líderes em sustentabilidade. A recomendação bibliográfica, com clássicos e outros mais contemporâneos, reúne livros mencionados pelos presidentes entrevistados ou que serviram para a construção teórica de Conversas com Líderes Sustentáveis.
A íntegra deste material estará disponível no espaço destinado à Plataforma Liderança Sustentável, no portal Ideia Sustentável, projeto cujo objetivo é identificar, mobilizar, inspirar e conectar líderes em sustentabilidade em todo o Brasil.
Os cinco traços comuns das entrevistas feitas com os 10 presidentes
1- Crença firme nos valores que estruturam o conceito de sustentabilidade
Na visão da maioria dos presidentes retratados no livro, ter uma crença firme representa o atributo mais destacado de um líder em sustentabilidade. Não se trata apenas de acreditar, tendo como base o pragmatismo utilitário característico do mundo empresarial, no valor que a sustentabilidade acresce a um negócio, até porque, hoje, como nem clientes nem mercados o rejeitam, ele se tornou commodity. Consiste, sim, em crer profundamente nos valores que dão suporte à noção da sustentabilidade – como o respeito ao outro, aos ecossistemas e à diversidade, à ética altruísta, à justiça, o apreço ao diálogo e à transparência — e, mais do que isso, exercitá-los do dia a dia, valorizá-los em suas atitudes, utilizá-los como fator de orientação para as decisões, das mais simples às mais estratégicas.
A coerência entre o discurso e a ação constitui, na opinião dos líderes perfilados, condição básica para promover credibilidade, aglutinar indivíduos e obter o compromisso—ao mesmo tempo individual e coletivo – sem o qual não se consegue operar transformações em sistemas, modelos e estratégias. As histórias do livro trazem bons exemplos. Fábio Barbosa é um deles. Atual presidente do Conselho do Banco Santander, ele costuma lançar mão de uma metáfora – que já se tornou pérola de sua cartilha –para ressaltar o preceito da coerência. Refere-se às teclas on e off. Segundo o executivo, um líder precisa agir no trabalho como ele age em família e com os amigos. Não há como “ligar” ou “desligar” atitudes e valores éticos segundo as circunstâncias e situações específicas do trabalho e da vida. Do contrário, seus liderados terão todo o direito de duvidar da firmeza de propósito de sua pregação pela sustentabilidade. Os demais líderes abordam o mesmo tema, com palavras e exemplos distintos.
Valores são construídos ao longo de toda uma vida a partir de estímulos recebidos da educação em casa, na escola, na universidade e nos grupos sociais de referência. São tão decisivos, no caso dos líderes em sustentabilidade, que, mais do que influenciar, definem essencialmente suas escolhas de negócio. “Crença firme mobiliza as pessoas ao seu redor. Mas não basta dizer que se acredita em algo. É fundamental viver a crença no cotidiano, porque só a partir do comportamento coerente os colaboradores conseguem perceber exatamente o que você é e em que você acredita. A coerência no comportamento confere credibilidade à crença”, relatou Barbosa no capítulo A coerência emblemática.
Outras duas histórias contadas no livro reforçam essa tese. Uma é a de Paulo Nigro, atual presidente da Tetra Pak. Acostumado desde criança, por influência do pai, a valorizar o não desperdício – e a transformação de resíduos em riqueza -, esse princípio tornou-se sua bandeira pessoal à frente da companhia. Foi fundamental em um de seus desafios profissionais mais relevantes – o salvamento da operação da Tetra Pak no Canadá, afetada justamente por deslizes de natureza ambiental. E, com a crescente preocupação global relacionada à gestão de lixo, contribuiu decisivamente para moldar um estilo muito próprio de liderança, marcado pela causa da reciclagem de embalagens longa-vida, pelo apoio às cooperativas de catadores e pela inserção no encaminhamento de questões de natureza pública, como a recente aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos. “(..) Para ser um guia inspirador em sustentabilidade, deve-se deixar orientar por um conjunto de valores individuais importantes, e não negociáveis, entre os quais o profundo respeito ao ser humano. Só quem respeita o humano pode respeitar o planeta. Carrega consigo o desejo de que o empreendimento, a atividade econômica, melhore o bem-estar coletivo, e não o piore”, disse Nigro no capítulo intitulado O bom reciclador ao planeta retorna.
Se, como sugere Gary Hamel, da London Business School, o sucesso é sempre produto dos valores e da paixão por eles, no caso da sustentabilidade essa máxima se aplica com todo o rigor. Em uma das passagens do capítulo Liderança com Eros à flor da pele, Guilherme Leal, da Natura, afirmou: “Sem querer pintar o mundo de cor de rosa, acho que o êxito da Natura se deve, sim, à sua cultura e aos seus valores bem expressos no conceito ‘Bem Estar Bem’. Não me refiro apenas ao credo social, político e ambiental. Mas a uma visão de mundo perfeitamente integrada ao negócio, que inclui a interação dos seus produtos com o indivíduo, mediada por uma relação de comunicação profunda e verdadeira.”
2- Compreensão da noção de interdependência entre os sistemas econômico, ambiental e social
Compreender a noção de interdependência está na base de um modo diferente de pensar e fazer negócios, muito peculiar nas empresas lideradas pelos presidentes ouvidos. Um modo, vale dizer, menos autorreferente e, portanto, menos egocêntrico; sobretudo, mais aberto e respeitoso, segundo o qual o universo não gira em torno das empresas, os resultados financeiros não justificam tudo e os negócios não estão acima da natureza e da sociedade. Dependem, isso sim, do equilíbrio gerado pela combinação justa de lucro, proteção ambiental e justiça social para obterem legitimidade. E para prosperarem conforme uma nova noção de prosperidade.
De acordo com esse modelo, o melhor negócio é sempre o que entrega resultados para todas as partes e não apenas para a empresa. Os líderes entrevistados agem sob a orientação dessa consciência. Guiados pelo pensamento sistêmico – Peter Senge, não por acaso, apareceu muito nas entrevistas –, enxergam como um todo integrado o que para muitos ainda são apenas pedaços soltos: as esferas econômica, ambiental e social. Mais do que isso, entendem e respeitam a natural complexidade do tema, sua transversalidade e suas ligações profundas não apenas com o negócio em si, mas com toda a cadeia de valor. Acreditam que suas companhias geram valor para a sociedade produzindo e distribuindo bens e serviços mas também bem-estar social. Estão preocupados em assegurar o direito das próximas gerações ao ar limpo, solo fértil, água potável, clima estável e oportunidades iguais de educação e desenvolvimento. E isso não é retórica para fazer boa figura.
“Para nós sempre esteve claro que o espaço de uma empresa transcende os seus limites físicos. Na condição de ser social, ela integra a vida da sociedade, influi e é influenciada pelos públicos e comunidades com os quais interage. Logo, tem responsabilidades que excedem as fronteiras econômicas. Isso é ideológico. Nossa responsabilidade social se estende também para as relações estabelecidas com os colaboradores, os clientes e as comunidades com as quais dialogamos”, afirmou Luiz Ernesto Gemignani, presidente do Conselho da Promon, no capítulo denominado O formador de líderes jardineiros.





