Por Cristina Tavelin
Acabamos de deixar para trás a primeira década do terceiro milênio – o início mais do que simbólico de uma nova era. Conflitos entre Ocidente e Oriente, onda de privatizações, uma crise financeira mundial de dimensões graves, popularização da internet e um planeta conectado 24 horas por dia marcaram o começo de um mundo pós-moderno, premeditado por autores como George Orwell e Aldous Huxley – ainda nos anos 1930 e 40 -, entre outros nomes que tentaram imaginar como seria uma sociedade cada vez mais interligada pela tecnologia e baseada em novos valores.
Na última década, o sinal de alerta do meio ambiente foi definitivamente acionado – e legitimado, em 2007, pelo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que apontou a ação do homem como principal responsável pelo aquecimento global . A devastação incidente sobre o planeta há pelo menos três décadas se tornou evidente. E a atual relação entre pessoas e o seu habitat, insustentável. A forma como vivemos hoje reflete precisamente esse quadro.
“Posso ter mais vida no meu tempo ou mais tempo na minha vida. Quando tenho mais vida no meu tempo, consumo toda a minha cota em um curto período e depois pago a conta lá na frente – é o que estamos fazendo com o planeta e com a capacidade de autorregeneração da biosfera. Enquanto ela suportar, continuaremos festejando o crescimento da economia mundial”, avalia Homero Santos, professor da Fundação Dom Cabral, membro-fundador da Comissão de Estudos de Sustentabilidade para as Empresas do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e vice-presidente do Conselho Deliberativo do Núcleo de Estudos do Futuro (NEF) da PUC-SP.
Porém, segundo o especialista, um ponto positivo nesse contexto é a crescente percepção das pessoas de que “algo está acontecendo”, sentimento que traz embutida a necessidade de mudança.
Para Gary Gardner, pesquisador sênior do Worldwatch Institute – organização criada por Lester Brown e autora do renomado relatório State of the World –, há uma percepção maior sobre os desafios ambientais. Mas a ação sobre eles geralmente requer um processo de conscientização conduzido por muitos anos para resultar em transformações efetivas. Além disso, são grandes os dilemas a enfrentar: um deles está em ultrapassar as barreiras criadas para dificultar essa transição.
“Existem forças trabalhando para confundir o público e manter a consciência ambiental e as medidas para proteger o meio ambiente longe da expansão. A indústria de combustíveis fósseis nos Estados Unidos, por exemplo, é ativa na arte de semear dúvidas sobre a realidade das mudanças climáticas. Em vez de aceitar a necessidade do desenvolvimento de sociedades de baixo carbono e se adaptar, ela parecem querer preservar o status quo”, avalia Gardner.
Entre altos e baixos, o fato é que muita coisa mudou. Em conversa com especialistas nacionais, internacionais e dez empresas representando setores-chave da economia, Ideia Sustentável buscou traçar um panorama da evolução do conceito no Brasil e sua relação com as mudanças no mundo.
Da exceção à regra
A evolução da sustentabilidade no mundo dos negócios avançou significativamente nos últimos anos – e as empresas que integram a agenda verde em sua estratégia aos poucos deixam de ser uma exceção.
De acordo com o estudo Corporate Sustainability: a progress report (Sustentabilidade Corporativa: um relatório em progresso), da consultoria global KPMG, nos últimos três anos o conceito tomou impulso no setor privado: 62% das companhias consultadas já possuem uma estratégia relacionada ao tema – contra pouco mais de metade contabilizada em fevereiro de 2008 – e 11% estão em processo de desenvolvimento desses planos. Apenas 5% não planejam a integração da sustentabilidae neste momento, enquanto o restante das corporações afirma que adotará planos para internalizar a ideia em futuro breve. Ainda segundo a pesquisa, mais da metade dessas estratégias (56%) foi planejada nos últimos três anos.
A interação entre os setores também é uma questão que avança: o antigo e singelo ditado “uma andorinha só não faz verão” se aplica bem nesse caso, pois sem o diálogo e a busca de soluções conjuntas a união harmoniosa entre meio ambiente, economia e sociedade mostra-se meramente utópica.
“Nunca houve um trabalho conjunto da iniciativa privada e governos como agora, buscando soluções para problemas que o setor público não poderia resolver sozinho. Mas ainda há muito a se avançar. Não existem planos em que os dois setores se comprometam a realizar ações práticas. Ainda estamos na esfera da discussão”, constata Marise Barroso, presidente da Amanco.
Paralelamente, como destaca Rosangela Coelho, diretora corporativa de Comunicação e Sustentabilidade da Embraco, a consciência de que uma organização não é um agente isolado – e as relações com seus públicos de interesse poderiam estar frágeis – cresceu significativamente na última década. “Globalmente, iniciou-se um grande debate sobre ética – tanto ligado ao tema financeiro quanto a outras questões – e isso trouxe à tona a necessidade de as empresas reverem seus sistemas de compliance (cumprimento da legislação em vigor), a forma como estavam gerindo seus negócios e adotarem códigos básicos de ética”.
Segundo o estudo da KPMG, a redução de custos também está se tornando uma importante razão para a implementação de práticas sustentáveis – regulamentações, questões de reputação e gestão do risco enquadram-se entre os principais fatores de estímulo às companhias para decidir por essas estratégias. A pesquisa mostra que 61% das entrevistadas concordam que os benefícios da inserção do conceito nos negócios supera seus custos. E muito do que parecia distante, há dez anos, hoje já representa uma realidade para as empresas.
O relatório State of Green Business 2011 (O Estado dos Negócios Verdes), produzido pelo GreenBiz Group, principal grupo de mídia especializado em sustentabilidade dos Estados Unidos, destacou algumas das principais metas e conquistas estabelecidas durante o último ano, um retrato do nível alcançado no trajeto para a economia verde. O objetivo de ser uma empresa com o status de “resíduo-zero”, por exemplo, esteve entre as metas e conquistas de diversas corporações globais que mantêm algumas unidades fabris – ou praticamente todas – de forma ambientalmente responsável.
A transparência em relação a produtos também avançou – o estudo aponta que a revelação de ingredientes tóxicos em bens de consumo cresceu, durante 2010, elevando a posição do tema na agenda de corporações, ativistas e reguladores. Substâncias nocivas à saúde começaram a “aparecer” em cada vez mais nichos – de alimentos e cosméticos a brinquedos.
Outra tendência revelada entre as organizações, também relativa à transparência, foi o hábito de relatar. Segundo o estudo da KPMG, pelo menos uma em cada três empresas (36%) emitiu ao menos um relatório público sobre seu desempenho em sustentabilidade, enquanto outras 19% o farão em breve. E o Brasil definitivamente se destacou nesse âmbito.
Estudo realizado pela Futerra, SustAinability e KPMG por encomenda da Global Reporting Initiative (GRI) – Reporting Change: Readers & Reporters Survey 2010 (Mudança em Relatórios: Pesquisa Leitores e Produtores 2010) – indica que, das 5.000 empresas participantes, cerca de 3.700 eram brasileiras, o que representa mais de 70% da amostra; além disso, as companhias nacionais também se saíram muito bem na recente premiação GRI Readers’ Choice Awards. Entre os principais desafios relacionados ao tema estão a busca por dados confiáveis e parâmetros relevantes, e a comunicação efetiva com os públicos de interesse já que, atualmente, a maior parte dos leitores afirma não utilizar os relatórios como um meio para se aproximar das corporações.
Segundo João Batista Menezes, diretor-adjunto de Sustentabilidade, Saúde, Segurança e Meio Ambiente da Alcoa, o setor de mineração, por exemplo, avançou bastante no quesito transparência, estabelecendo um diálogo para além do “tipicamente reativo”. “As empresas perceberam que devem trabalhar diariamente na obtenção da licença social de operação. Essa renovação cotidiana passa pela manutenção de canais de diálogo abertos, transparentes e permanentes com seus públicos de interesse. Sem essa premissa, torna-se inviável hoje um empreendimento de mineração sustentável“, avalia.
Joel Makower, presidente do GreenBiz Group, mantém otimismo e pessimismo caminhando lado a lado no balanço da primeira década do século XXI. “Por um lado, algumas das maiores empresas do mundo estão envolvidas profundamente com o tema, fazendo grandes mudanças na forma como operam. Ao mesmo tempo, estão lidando apenas com uma pequena fração de seus impactos e representam somente uma parcela do mercado global”.
Assim, para Makower, a pergunta permanece: toda essa atividade é suficiente para estancar a maré de mudanças ambientais negativas ou o que tem sido feito é muito pouco e tarde demais?






A menor parte dos seres humanos tem o poder de mudar algo,e essa menor porção é que só quer buscar a modernidade e a riqueza à qualquer custo,sendo assim,enquanto existir seres como os poderosos americanos,o mundo corre grande perigo!!!
Parabéns, Cristina, pelo excelente artigo, aliás uma verdadeira tese no tema. Vocês da Idéia sustentável são uma verdadeira vanguarda na batalha por um mundo mais viável e onde a Vida seja prioridade. Abraço forte, Homero