Por Cristina Tavelin
Se, na teoria, as cidades são definidas como áreas urbanizadas com grande densidade populacional e legislações específicas, na prática elas podem representar tanto um lar quanto um purgatório.
Com o aumento da população mundial e a maior demanda por espaço e recursos, os centros urbanos começam a perder o sentido de ambiente voltado ao bem-estar das pessoas e tornam-se, em muitos casos, um arquétipo do progresso devastador – tal qual o praticado por Fausto, personagem do escritor alemão Goethe, ao ordenar a demolição da casa de dois idosos para levar seu ideal de “modernização” adiante.
Retomar a conexão entre cidades, pessoas e meio ambiente a partir de uma nova ótica de progresso requer um esforço integrado e contínuo. Sobretudo diante dos imperativos do aquecimento global. “Hoje, a gestão conjunta é uma capacidade organizacional indispensável para enfrentar os desafios crescentes de escopo e urgência”, destacou Michael Bloomberg, prefeito de Nova Iorque, na abertura da última Cúpula C40 de Grandes Cidades, realizada em São Paulo. A rede C40 reúne prefeitos de diversas metrópoles visando à troca de experiências e soluções para o enfrentamento das mudanças climáticas.
Na prática, há dinheiro e tecnologia suficientes para realizar muitas das transformações necessárias. Vontade política, planejamento, parcerias e conscientização, no entanto, ocupam o mesmo grau de importância quando se trata de tirar as experiências do papel e colocá-las, literalmente, nas ruas. Sem isso, medidas simples, que poderiam beneficiar o meio ambiente e a população, continuam subestimadas – basta olhar para o tratamento de resíduos.
“Se pudéssemos fechar os aterros dos grandes centros, reciclar o lixo orgânico e produzir fertilizantes a partir dele, além de reaproveitar outros materiais e captar o metano como forma de energia, resolveríamos um problema de saúde pública, devolveríamos esses espaços às cidades e traríamos mais profissionais de volta ao mercado de trabalho”, destacou Bill Clinton durante o evento da C40, organização que o ex-presidente americano apoia por meio da Clinton Foundation.
De acordo com José Luíz Alquéres, ex-presidente da Light e atual presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), o movimento de cidades mais verdes começou vinculado à energia. Nos próximos anos – ele acredita -, o grande driver da sustentabilidade urbana será a questão dos resíduos, já que o planeta terá um aumento populacional significativo – pode passar dos 9 bilhões de habitantes, em 2050, dobrando a necessidade de extração de recursos. “Hoje, 50% da população vive nas cidades e consome 75% da energia – por isso olhamos, primeiramente, para o fornecimento das condições de vida: energia para luz, elevador, ar-condicionado, por exemplo. Mas e os resíduos disso tudo? Aí está a grande oportunidade do século XXI: o vasto campo de desenvolvimento tecnológico para a reciclagem”, avalia.
Planejamento no longo prazo
Os problemas atuais das metrópoles não surgem de uma hora para outra. Pelo contrário: na maioria dos casos, crescem junto com suas estruturas e, com o passar dos anos, vão se agravando. O trânsito é um bom exemplo. Para Sérgio Boanada, diretor de Cidades, Infraestrutura e Megaeventos da Siemens, é impossível resolver um dilema de tamanha complexidade em apenas um governo e sem planejamento prévio. “É preciso um plano de ação de 30, 40 anos. Se, no passado, identificássemos que a população de São Paulo cresceria em 90%, teria sido possível fazer a implementação dos diversos modais necessários para atender às atuais necessidades de mobilidade”, ressalta. Agora, a mudança requer um planejamento muito mais complexo, tanto para readaptação de áreas quanto para o desenvolvimento adequado de novos projetos urbanos.
O Green City Index Europe, estudo conduzido pela empresa americana de pesquisa Economist Intelligence Unit (EIU) a pedido da Siemens, comparou a performance ambiental das 30 maiores cidades europeias e constatou que 26 delas desenvolveram seus próprios planos ambientais. Além disso, metade possui metas firmes e viáveis para redução de CO2. Copenhague, na Dinamarca, ficou no topo do ranking – mas, para chegar a essa posição, a cidade escandinava percorreu um longo caminho nos últimos 20 anos.
Hoje, entre seus cases de sucesso, está um sistema de aquecimento abastecido em 97% pelo calor residual da produção de eletricidade, processo iniciado com a implementação de uma lei de fornecimento de energia, em 1979, exigindo a conexão de todas as residências à rede de abastecimento municipal. Uma parceria entre a Metropolitan Copenhagen Heating Transmission (CTR) e a empresa VEKS deu origem ao sistema que conecta quatro usinas de CHP (calor e potência elétrica combinados), quatro incineradores de resíduos e mais de 50 usinas termoelétricas em um consórcio, capturando o calor residual da produção de eletricidade e canalizando-o de volta para as residências por uma rede de tubulações de 1.300 km.
Nunca é tarde para iniciar um bom plano de ação. Há cerca de um ano e meio, Londres requisitou um estudo propositivo individual a partir dos dados do Green City Index e passou a tomar medidas em transportes, uso de água, sinalização e ônibus híbridos para se tornar uma cidade sustentável, mirando os Jogos Olímpicos de 2012. “Barcelona é exemplo emblemático de como projetar as Olimpíadas para levar melhoria às cidades, assim como Londres, que está renovando sua parte leste, degrada, construindo um centro de esportes e lazer em uma região de baixo valor comercial”, diz Cezar Taurion, executivo de novas tecnologias da IBM.
No Brasil, o Projeto 2014 prevê o uso de tecnologias para uma série de soluções e busca unir diversos setores da sociedade para transformar os megaeventos esportivos numa oportunidade de mudança. Porém, de acordo com Taurion, a maioria das cidades permanece inerte e nem 1% do financiamento disponibilizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para projetos sustentáveis foi requisitado pelos gestores. “Precisamos de uma ação rápida e coordenada entre as esferas para obtermos bons resultados de forma transparente e não corrermos o risco de acabar como nos Jogos Pan-Americanos de 2007, quando o orçamento estimado em 400 milhões chegou a 3,5 bilhão de reais”, alerta.
Ainda no sentido do planejamento, a última Conferência Internacional de Cidades Inovadoras (CICI 2011), trouxe a visão de futuro do projeto Curitiba 2030 – integrante do programa Cidades Inovadoras, lançando em 2010 pelo Sistema Federação das Indústrias do Paraná (FIEP). Cidades como Masdar (Emirados Árabes), Sidney (Austrália), Ottawa (Canadá) e Kuala Lampur (Malásia) foram apontadas como referência pela Fundação OPTI – Observatório de Prospectiva Tecnológica Industrial da Espanha, parceira técnico-científica da empreitada.
“Mesmo atuando em um projeto de longo prazo, sabemos que as ações precisam começar hoje. Inicialmente devemos ter consciência dos problemas e começar a articular os atores sociais para o desenho de soluções ou formas de mitigação dos impactos das mudanças climáticas. Desse modo, a primeira medida a ser tomada é uma responsabilização individual e coletiva diante dos desafios e soluções para a cidade”, destaca Rodrigo da Rocha Loures, presidente licenciado do Sistema FIEP.
Para mensurar emissões de gases de efeito estufa e obter uma base de dados para mitigá-los – um dos primeiros passos na construção de centros urbanos sustentáveis -, uma iniciativa entre o Serviço de Aprendizagem Industrial do Paraná (SENAI/PR) e a prefeitura de Curitiba mediu o impacto das atividades urbanas locais e de suas empresas por meio da Pegada Ecológica. O trabalho foi realizado com a orientação da Global Footprint Network, organização americana criadora da metodologia.





