Inovar para sobreviver

Por Cristina Tavelin

De tempos em tempos, fazer simplesmente as mesmas coisas deixa de ser suficiente para manter uma estrutura saudável em funcionamento – o mundo, as relações interpessoais ou os próprios agentes da ação se transformam. E, quando o entorno muda, a forma de pensar e fazer também precisa evoluir. Inovar.

No campo da sustentabilidade, inovação é essencial, já que o próprio conceito traz em si um olhar diferenciado em relação a antigos modelos de produção e consumo. Hoje, ações realmente inovadoras devem trazer benefícios nos níveis econômico, social e ambiental. “A onda pela qual passamos atualmente é similar à ascensão da internet nos anos 2000: pode-se estar no topo dela ou ficar para trás e esperar os outros tomarem a dianteira. Trata-se de uma escolha”, destaca Hitendra Patel, diretor do Centro de Excelência em Inovação e Liderança de Cambridge (EUA) e coautor do livro 101 Inovações Revolucionárias (ainda sem previsão de lançamento no Brasil).

Tornar produtos e serviços mais verdes é um início, mas uma empresa realmente sustentável precisa estabelecer um ciclo contínuo de inovação em sua base para lidar com os desafios do aquecimento global – nesse sentido, o conceito começa a ser percebido como um driver para a transformação das próprias organizações.

Para surfar nessa onda – e não apenas ser levado por ela -, alguns desafios têm de ser superados. O primeiro deles é cognitivo, afirma Renato Orsato, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e autor do livro Estratégias de Sustentabilidade: Quando Vale a Pena Ser Verde? (Ed. Qualitymark). “A percepção e interpretação das diferentes variáveis externas fazem a diferença entre um empresário de sucesso e outro mal-sucedido em qualquer setor. Hoje, não conhecer processos como análise do ciclo de vida e ecologia industrial dificulta a inovação”, avalia.

A perspectiva de inovar para a sustentabilidade está longe de ser algo somente ligado às novas tecnologias – sem repensar a própria estrutura muitas empresas deixarão de existir. Para Ricardo Corrêa Martins, diretor executivo da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), uma organização inovadora sustentável atende às múltiplas dimensões do conceito em bases sistemáticas (capacidade de identificar as ligações de fatos particulares do sistema com o todo), gerando resultados positivos para si mesma e para o seu entorno. “A empresa é um organismo vivo que interage com um ecossistema e do qual depende. É necessário não somente inovar em produtos e serviços, mas focar a sustentabilidade como um todo. Quando se fala no tema, há aquele mito de ‘inventar o iPad todo dia’, mas isso é uma falha na visão sistêmica (formada a partir do conhecimento do conceito e das características dos sistemas). Já possuímos tecnologia para resolver boa parte dos problemas socioambientais”, avalia.

Cultura para inovação

A famosa frase de Mahatma Gandhi – “Seja a mudança que você deseja ver no mundo” – tornou-se quase um mantra: bem mais fácil de ser repetida do que aplicada efetivamente. Sobretudo no âmbito das empresas, onde é preciso consenso para evoluir em qualquer tema. Quando as estruturas organizacionais estão baseadas em modelos antigos, muitas vezes não há espaço para o novo. Inovação pressupõe liberdade para experimentar, correr riscos e, possivelmente, perdas.

“As corporações gostam da inovação, mas não dos inovadores”, avalia Henna Kääriäinen, ex-aluna do Team Academy Finlândia, cofundadora e “treinadora” do programa no Brasil. Desenvolvido pela pós-graduação da Universidade de Ciências Aplicadas Jyväskylä, a iniciativa tem se consagrado no conceito de empreendedorismo em equipe e prega um novo modelo educacional – sem professores, salas de aula ou provas. Os times criam empresas reais e precisam bancá-las ao longo de quatro anos, até se graduarem. O esquema tem gerado bons resultados, inclusive financeiros. No ano passado, o grupo de empreendedores de 18 a 25 anos da Team Academy Finlândia faturou cerca de €1.5 milhões.

“Trazemos a vida real para dentro da ‘sala de aula’. Quando chega o ‘teste’ final, o empreendedor já tem uma empresa há quatro anos. Esse processo educacional não deveria ser desenvolvido após as horas de trabalho ou no lugar delas. E o empreendedorismo em grupo é muito importante porque não estamos falando somente em pessoas na administração de negócios, mas sim de indivíduos com expertise em diversas áreas, criando uma empresa em conjunto”, destaca Anita Seidler, orientadora do Team Mastery e outros programas de ensino para adultos do Team Academy, além de cofundadora do The Hub Madrid.

O The Hub é um espaço físico dedicado ao trabalho inovador com o objetivo de inspirar, conectar e “empoderar” a inovação social. Criado em Londres, em 2005, o projeto conta com 28 instalações e cerca de 5 mil integrantes. “O The Hub é o lugar, o network, e o Team Academy, o time para criar projetos reais e fazer a mudança acontecer. O que estamos fazendo agora é basicamente combinar essas estruturas e trabalhar nossos projetos em cima do triplle bottom line”, ressalta Anita.

Recentemente, o Grupo Santander Brasil, o Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), a Society of Organizational Learning (SOL), o The Hub e o Team Academy trouxeram a São Paulo três “treinadores” para estimular a reflexão e gerar novas ideias sobre os modelos educacionais no Brasil.

O programa finlandês e o Senac estabeleceram um acordo-piloto para os próximos três meses para dar continuidade à experiência com uma equipe formada por Henna, como treinadora, e mais dois empreendedores de equipe do Team Academy da Espanha e da Finlândia. Durante esse período, a eles irão aplicar as ideias do programa original junto a vários grupos do Senac (o de Empresa Júnior, por exemplo) e realizar workshops com empresas parceiras.

Novas propostas como essa têm sido utilizadas por diversas organizações para mudar a mentalidade dos colaboradores e ampliar sua pró-atividade em relação às sugestões inovadoras. Mas o processo requer empenho e paciência para conservar o conhecimento daqueles engajados em contribuir para a evolução organizacional. “Todo gestor comprometido a fazer essa mudança no curto prazo acaba falhando. Não se pode simplesmente mudar a cultura substituindo as pessoas; assim se perde conhecimento. À medida que a organização evolui, o indivíduo desinteressado pela sustentabilidade passa a ser um corpo estranho”, avalia Corrêa, da FNQ.

De acordo com o Innovation Barometer da GE, uma pesquisa independente realizada com mil líderes de negócios de 12 países e conduzida pela empresa StrategyOne, a maioria dos executivos brasileiros acredita que o desenvolvimento de talentos está entre os principais fatores para direcionar medidas inovadoras com sucesso. Além disso, a mais recente Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec/2008) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou que entre as 41,3 mil empresas inovadoras em produtos e processos, no período 2006-2008, 69% realizaram ao menos uma inovação organizacional.

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