Entrevista Especial – Israel Klabin

IS: Como tem visto o papel das lideranças dentro das empresas?

IK: Não é função da empresa solucionar os problemas macro. Elas influem por meio das suas lideranças setoriais na formação de opinião, mas não como uma liderança absoluta na estruturação de soluções globais ambientais, da estrutura econômico-financeira do planeta e necessárias para reconceituar os modelos de governança. Essa demanda deve vir do consumidor ou de políticas públicas.

IS: Então, para o senhor, sem a pressão do consumidor ou de políticas públicas, as empresas não tomarão iniciativa?

IK: Olha, me desculpem, mas não acredito naquilo que o inglês chama de gooder: o “bonzinho” não interessa. É preciso ter uma motivação realista… Recorro, aqui, à minha cultura judaica, que é muito forte. Temos dois princípios básicos da administração social de nossos grupos étnicos: um se chama CeDaCa, que não significa filantropia, mas justiça; o outro, Miztvah, que não é esmola, mas mandamento. Então temos justiça e mandamento. E isso é implementável, sem legislação, nas comunidades judaicas que conheço no mundo inteiro, porque faz parte de uma cultura. Trata-se de humanismo. As empresas carecem da implementação desse humanismo. E, para isso, é necessário ética, liderança social, setorial, global e o sentido de missão. Estou sendo utópico, mas…

IS: O senhor acha, então, que as empresas ainda estão longe disso?

IK: Elas não têm por que ficar perto. Estão sendo levadas. Pessoas das empresas fazem isso, mas não como empresa, e, sim, como indivíduos. Acho importante extrapolar a doutrina que rege a ética individual para a ética empresarial, social e política.

IS: Qual a sua expectativa para a Rio+20? Que avanços espera?

IK: O foco central da Rio+20 deveria ser o problema das mudanças climáticas. Mas um senhor chinês, subsecretário da ONU (Sha Zukang) inventou duas coisas que não funcionaram no passado e não vão funcionar agora: a primeira é a “economia verde” – ninguém sabe o que é; a outra é o “combate à pobreza”. O nome é bonito para uma conferência, todo mundo gosta… mas não entrega mercadoria. De qualquer forma, creio que a ideia da Rio+20 é excelente e tenho esperanças de que, apesar da temática não ser prioritária nem, sobretudo, inteligente, ela poderá trazer algumas surpresas agradáveis.

IS: Como visionário, o que acha que pode acontecer?

IK: Gosto de ser visionário, mas só de brincadeira… (risos). Na verdade, sou muito realista, muito pé no chão; tudo o que estou falando acredito que vai acontecer, dentro de um tempo e um espaço. Não creio que será hoje nem amanhã, mas vai acontecer em algum momento. A crise tem de ter uma solução; sou otimista com relação à humanidade porque ela sempre evoluiu com as crises. Por um lado, estamos vivendo uma sobreposição de crises; por outro, a atual leva “vantagens” porque uma “guerra total”, que no passado resolvia os problemas, é totalmente inviável hoje. Há guerras parciais, tópicas e as grandes potências todas vêm perdendo uma após a outra, nessas batalhas tópicas. O Vietnã e o Iraque perderam; o Afeganistão está perdendo. Que brincadeira é essa? Enquanto isso, só os EUA têm um orçamento militar que é igual ao total do resto desse orçamento no planeta. Para quê?

O valor de um submarino atômico, por exemplo, seria suficiente para implantar todo o sistema de saneamento básico nas principais cidades africanas. Então essa série de crises é muito bem-vinda, porque, sem elas, não chegaremos a lugar nenhum. Viu como não sou tão visionário?

IS: Por causa – ou apesar de tudo isso – o senhor vê o Brasil com potencial de liderança no campo da sustentabilidade?

IK: Eu vejo o Brasil com condições excepcionais por uma razão: somos, pela sua própria natureza, um país global. Um lugar onde não temos conflitos internos, como em muitas nações. O Brasil não tem um problema de energia, porque a disponibilidade das renováveis e limpas é mais do que suficiente para uma visão de futuro enorme. Somos um país extremamente pacífico e colocado numa situação de liderança geográfica, topográfica, econômica, em um continente que está esperando uma missão ainda. E o que falta? O mínimo de razoabilidade no processo de governança. É complicado! O país se tornou, por meio da extrapolação de legislações imbecis, de difícil administração. A burocracia empedernida e voltada a interesses pessoais é muito grande. Governos são fadados à baixa eficiência pelos entraves dos processos decisórios. Enfim, isso tudo tem de ser superado, mas creio que há uma consciência pública boa no Brasil e a necessidade já está sendo demonstrada claramente. O país não quer corrupção nem esse modelo político ineficiente. O que o Brasil quer, como Estado, é bom. Então vamos esperar que  essas modificações estruturais, tanto na área de governo como na empresarial e intelectual, coadunem com a missão que o Brasil deve ter.

IS: Tomando emprestado o nome do seu livro, qual a maior “urgência do presente”?

IK: Mudanças climáticas. Essa é a urgência do presente. Por meio da multiplicidade de causas: econômica, de governança, enfim, todas essas das quais falamos aqui, até agora, levam a um produto final: a crise ambiental oriunda das mudanças climáticas. Urgência urgentíssima!

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4 respostas a "Entrevista Especial – Israel Klabin"

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  4. Concordo que a urgência do presente sejam as mudanças climáticas. Acredito que crescimento econômico, deveria estar totalmente aliado ao crescimento social e ambiental, pois, com uma economia melhor, mais desenvolvida, o resultado deveriam ser melhores condições e melhor qualidade de vida para as pessoas e não um crescimento econômico apenas pelo aumento de indústrias e consequentemente aumento da poluição e emissões de GEE’s, tão prejudiciais à sobrevivência das espécies.