Brasil: uma sociedade sustentável

Em 28 de dezembro de 2011, a BM&FBOVESPA anunciou a recomendação de que, a partir de 2012, todas as empresas listadas na bolsa precisariam publicar um relatório de sustentabilidade ou explicar por que não o fazem.

Um relatório de sustentabilidade fornece aos acionistas e a outras partes interessadas informações sobre o desempenho e sobre as políticas ambientais, sociais e de governança da companhia (ESG).

Ao anunciar tal recomendação, a BM&FBOVESPA aderiu a Bolsa de Valores de  Johannesburgo, na África do Sul, mostrando liderança  ao promover a transparência sobre como operações de uma empresa afetam a sociedade.

Um dos líderes globais em relatórios de sustentabilidade é a Natura Cosméticos, a qual emitiu seu primeiro relatório integrado em 2003. O mesmo combina as informações do relatório financeiro de uma empresa com as informações contidas no relatório de sustentabilidade em um único documento, de preferência mostrando a relação entre desempenho financeiro e sustentabilidade.

Desde então, a empresa ganhou vários prêmios de relatórios corporativos. Um caso de estudo de Harvard Business School feito por Eccles, Serafeim e Heffernan (2011) examina como a Natura produz tal relatório e mostra os benefícios advindos do mesmo. Relatórios integrados são a base do diálogo e do compromisso entre a empresa e todos os seus stakeholders.

Também compõem um aspecto fundamental da abordagem de gestão integrada da empresa  para atingir resultados financeiros superiores, contribuindo para uma sociedade sustentável. Acreditamos que, se mais empresas no Brasil seguirem o exemplo da Natura, as perspectivas do país para o crescimento econômico sustentável ficará ainda mais favorável do que atualmente.

Razões para a sustentabilidade e relatório integrado

Há duas razões para este crescente interesse global em sustentabilidade e comunicação integrada. Em primeiro lugar, informações sobre o desempenho ESG de uma empresa  são cada vez mais importantes para os investidores, uma vez que fornece insights sobre os riscos e oportunidades.

A má gestão do desempenho ESG, como um grande derramamento de óleo, pode conduzir a ações reguladoras e de opinião pública negativas, as quais têm um efeito negativo sobre o preço das ações de uma empresa. Desta forma, a má gestão de questões de sustentabilidade cria uma desvantagem para os investidores.

Por outro lado, tornar o desempenho de sustentabilidade tão importante quanto o desempenho financeiro é realmente uma maneira de melhorar o desempenho financeiro, o que também representa vantagem para os investidores.  Em um estudo de dois conjuntos correspondentes  de empresas, 90 classificados como empresas altamente sustentáveis e 90 classificadas como empresas moderadamente sustentáveis, Eccles, Ioannou e Serafeim (2011) mostrou que o primeiro grupo superou o segundo, em um período de 18 anos, medidos tanto  em termos do valor das ações como no desempenho financeiro.

As empresas que se comprometem a melhorar ambos desempenhos (o de sustentabilidade e o financeiro), o fazem através de inovações em novos processos, produtos e modelos de negócios, os quais diminuem custos, aumentam receitas, fortalecem a marca e a gestão de risco.

O interesse em relatórios de sustentabilidade e no desenvolvimento de relatórios integrados vem crescendo. Em 2010, 5.162 empresas produziram um relatório de sustentabilidade, a maioria delas numa base voluntária, em comparação com apenas 26, em 1992. Excluindo-se cerca de 450 empresas no JSE, cerca de 200 empresas estão produzindo relatórios integrados de forma voluntária.

Em geral, o mundo parece estar movendo-se em direção a tornar a sustentabilidade e os relatórios integrados uma exigência das empresas abertas. Por exemplo, na França, a legislação Grenelle II exigirá que todas as empresas, públicas e privadas, de 500 ou mais empregados comecem a incluir informações ESG em seu relatório anual, juntamente com a garantia sobre estas informações.

Um documento das Nações Unidas preparado para a Cúpula da Terra na Rio+20, chamado “O Futuro que Queremos”, propõe que “Nós, Chefes de Estado e de Governo, tendo nos reunido no Rio de Janeiro, Brasil, de 20 a 22 junho de 2012, resolvemos trabalhar juntos por um futuro próspero, seguro e sustentável para o nosso povo e nosso planeta”.

Na Cláusula 24 da presente proposta, a qual pretende ser adotada por todos os Estados-Membros, lê-se: “Apelamos para um quadro político global o qual exige que todas as empresas abertas e grandes empresas privadas tratem das questões de sustentabilidade e integrem as informações de sustentabilidade dentro do ciclo de informação.”

Com base nesta proposta e focado na Cláusula 24, um grupo liderado por Aviva Investors, autodenominado Coalizão dos Relatórios de Sustentabilidade Empresarial (CSRC), incentiva os governos a concordarem na Rio+20 para desenvolver uma Convenção sobre Relatórios de Sustentabilidade Corporativa “para desenvolver as regulamentações nacionais, códigos formais ou regras de listagem que incentivem a integração das questões de sustentabilidade material dentro do relatório anual de todas as empresas abertas e grandes empresas privadas” em uma base de “cumprir ou explicar por que não”.

O objetivo do CSRC é obter um grande número de investidores, empresas e países a fim de aprovar formalmente esta proposta de Convenção sobre Relatórios de Sustentabilidade Empresarial.

Materialidade

Trade-offs são inevitáveis ​​quando se trata de questões de sustentabilidade: por exemplo, abrir uma nova mina cria emprego e renda para a comunidade envolvente, mas  também implica, inevitavelmente, algum dano ao meio ambiente.

Ao avaliar tais trade-offs, os executivos devem considerar a importância relativa ou o que é, muitas vezes, chamado de materialidade dos diferentes  fatores de ESG que devem ser abordados. O principal desafio, contudo, é que não existe uma definição consensual de materialidade ou metodologias para determinar se um problema é ”material” ou não, inclusive para as métricas financeiras.

Para métricas financeiras, na prática, uma regra utilizada é a de que algo é material se afeta os lucros de uma empresa em mais ou menos cinco a dez por cento. Já, segundo as métricas do ESG, o consenso geral é de que, algo é material se isso afeta as decisões dos investidores e outras partes interessadas tomadas no contexto de outras informações relevantes.

Claramente diversas questões são geradas. Uma vez que as diferentes partes interessadas têm interesses diferentes, como os mesmos devem ser ponderados? Qual é o contexto de outras informações relevantes? Quão importante deveria ser o impacto potencial dos resultados financeiros na avaliação da materialidade?

Relatórios de sustentabilidade no Brasil

O interesse em relatórios de sustentabilidade, no Brasil, é elevado em comparação a outros países, embora ainda seja praticado por apenas uma minoria das empresas cotadas. Em 2010, 79 empresas brasileiras publicaram relatórios de sustentabilidade (60 Diretrizes G3 da GRI usando); em 2011, 75 empresas fizeram (63 usando Diretrizes G3). Em contraste, em 2011, 617 empresas dos Estados Unidos emitiram um relatório de sustentabilidade (208 usando as Diretrizes G3).

Mas o que é realmente importante reconhecer é o fato de que os relatórios de sustentabilidade se tornarão cada vez mais importantes para os investidores brasileiros. A mudança começou por volta de 2010, quando os investidores institucionais superaram os investidores individuais em termos de percentagem total de propriedade na Bovespa, fato que promove a ênfase sobre o impacto das questões de sustentabilidade no desempenho das empresas cotadas.

Ainda que a Natura seja a única empresa brasileira a qual conhecemos por emitir um relatório integrado, prevê-se uma maior atenção à forma como a questão ESG  pode afetar o desempenho financeiro de uma empresa, tanto em termos  benéficos como  maléficos, no curto e longo prazo.

Isso nos leva de volta para a questão da materialidade discutida acima. Para que o investidor incorpore dados de ESG em suas decisões de investimento, os mesmos precisam acreditar que possuirão um impacto material sobre desempenho financeiro da empresa e, assim, sobre o retorno sobre o investimento.

Análise de materialidade no Brasil

Dado que não existe opinião consensual de quais  questões de ESG são mais materiais para cada setor, uma metodologia utilizada pelas empresas é a de desenvolver uma matriz de materialidade em que a empresa faz essa avaliação por si própria.

Embora os detalhes de como isto é feito varie por  empresa, a abordagem geral é a mesma para todos e baseia-se em duas dimensões. A primeira dimensão da matriz é o quão importante é um tópico para a empresa; a segunda dimensão é o quão importante o tema é para a sociedade como um todo.

As questões classificadas como importantes em ambas as dimensões merecem  a atenção da gerência e dos investidores, já que o impacto das mesmas no desempenho financeiro é multiplicado de maneira positiva ou negativa pela reação da sociedade. Um bom desempenho pode aumentar a quota de mercado, fidelização de clientes e fortalecer a marca de uma empresa. O mau desempenho pode fazer o inverso, chegando até a ameaçar a habilidade da empresa de operar.

Problemas que não são importantes para a sociedade devem ser monitorados para ver se as expectativas sociais estão mudando, tornando-os mais importantes. Questões que são importantes somente para a sociedade apresentam uma situação complicada para a empresa.

Embora atualmente não tenham um grande impacto sobre o desempenho financeiro, por si só, elas representam questões que são extremamente importantes – pelo menos para algum grupo de partes interessadas, o qual pode ser demandante acerca de suas demandas.

As empresas muitas vezes enfrentam difíceis  decisões de trade-off, já que respondendo a estas exigências pode-se ter um impacto negativo sobre o desempenho financeiro, pelo menos no curto prazo, embora o bom desempenho sobre estas questões possa encadear  efeitos positivos sobre a marca e a habilidade da empresa de seguir operando. Problemas que atualmente não são importantes para a empresa ou a sociedade devem ser monitorados em caso de mudanças na escala de importância.

Há duas grandes vantagens para produção de uma matriz de materialidade. A primeira é que ela fornece orientação para a empresa sobre como alocar seus recursos e na tomada de decisões sobre questões de sustentabilidade. Estes trade-offs não são simplesmente entre o desempenho financeiro e sustentabilidade; trade-offs podem existir entre as diferentes questões de sustentabilidade.

Questões classificadas como importantes pela empresa e a sociedade merecem a maior quantidade de recursos, incluindo a atenção da gerência. Questões classificadas como menos importantes, portanto, merecem o mínimo. Questões importantes para a empresa, mas não para a sociedade, merecem mais atenção do que aquelas em casos reversos, ainda que este último não deva ser ignorado.

Enquanto apenas 25% das empresas brasileiras produtoras de relatório de sustentabilidade têm produzido uma matriz de materialidade, esta é a maior fração comparada com qualquer outro país. A Alemanha tem o segundo maior, com apenas uma empresa de 10 produzindo uma matriz de materialidade.

Como produzir uma matriz de materialidade leva tempo e muito esforço, evidencia-se o grau de interesse em sustentabilidade no Brasil. A Tabela 1 resume a análise de materialidade feita por 16 empresas brasileiras, classificando o número total de questões identificadas como material para a empresa e sociedade.

Cinco empresas relatam mais de 15 questões como relevantes para a empresa e sociedade (Samarco Mineração, Celulose Irani, Petrobras, Copersucar e Brasil Foods SA). Outras quatro empresas identificam entre 10 e 15 questões relevantes (Fibria Celulose, Bunge, Energias do Brasil e Walmart Brasil). Finalmente, o maior grupo é formado pelas empresas que reconhecem menos de 10 questões como material para ambos (ver Tabela 1 – Análise de Materialidade por Empresa).

O grupo 1, na Tabela 1, levanta uma questão interessante e importante: por que o conjunto de questões consideradas importantes para a empresa e para a sociedade é tão grande? Por exemplo, Samarco Mineração identifica 36 questões nesta categoria, com apenas um problema extra como material para a empresa. Isto, por sua vez, levanta a questão dos critérios utilizados para classificar e priorizar tópicos. Alguém poderia argumentar que as 36 questões são simplesmente para receber atenção da administração.

Os dados são semelhantes para Celulose Irani. Uma matriz que não produz uma distribuição mais uniforme não será tão útil na tomada de decisões de alocação de recursos. Já a Petrobras identifica 29 questões como material para ambos, 15 como material para a sociedade e apenas 2 não  relevantes para uma das duas. Um padrão similar existe para a Copersucar.

A falta de uma distribuição através das células na matriz é também verdadeiro para a maioria das empresas do Grupo 2. Brasil Foods, a Anglo American, Grupo Orsa e Natura Cosméticos só identificam as questões de ESG como material para ambas categorias. Todos os outros têm distribuições mais dispersas, embora para a maioria delas os problemas sejam classificados como material para ambos. Bunge, Energias do Brasil e Walmart são exceções a esta regra. Todas as três empresas têm problemas nas três células tanto da matriz como na de material para ambos.

O padrão é o mesmo para o Grupo 3. Algumas das empresas só reconhecem questões importantes tanto para a empresa e a sociedade (Anglo American, Grupo Orsa, Natura), enquanto outras mostram uma distribuição mais uniforme das questões. Ambos Mapfre e Endesa Brasil possuem as matrizes mais equilibradas do grupo, identificando várias questões em cada categoria.

Usando uma taxonomia que desenvolvemos para analisar as questões de ESG, os 351 tópicos de conteúdo relatados nas 16 matrizes de materialidade foram consolidados em cinco categorias diferentes, classificando-os em termos de frequência de referências (Tabela 2).

A questão que aparece citada como mais relevante para ambas, empresas e sociedade, está relacionada com o meio ambiente. Duas razões principais explicam por que este tema aparece no topo da nossa lista. O primeiro é a longa história da consciência ambiental do Brasil. Tendo um dos mais ricos exemplos da biodiversidade no mundo, este país tem defendido seus próprios recursos naturais das constantes ameaças que poderiam afetar a sua vida selvagem.

Além disso, dentre as empresas que produziram a matriz de materialidade, 69% deles têm os recursos naturais como a base do seu modelo de negócio (que inclui materiais básicos, petróleo e gás, produção de alimentos e utilitários).

Para essas empresas, os efeitos potenciais que as questões ambientais possam ter sobre seus modelos de negócio são significativos. Ao mesmo tempo, devido à natureza de extração de algumas das suas atividades, o dano iminente para a paisagem natural do Brasil também pode ser muito significativo. As empresas que reconhecem estas relações entrelaçadas estão definitivamente em melhor posição para gerenciar os riscos potenciais e atuar em conformidade.

As questões sociais aparecem como a segunda categoria mais importante na relevância para a empresa e a sociedade. Desenvolvimento do capital humano é mencionado em todos os setores, ja que o desenvolvimento de talentos torna-se cada vez mais importante no contexto brasileiro. O forte crescimento econômico do país nos últimos anos tem colocado definitivamente uma ênfase na necessidade de atrair, desenvolver e reter o capital humano nas organizações.

Ao mesmo tempo, as questões relativas aos direitos humanos, tais como prevenção de trabalho infantil ou forçado, vêm sendo enfatizadas por empresas que privilegiam as comunidades locais em que operam. Isto também pode ser relacionado com a natureza das empresas, as quais produziram tais matrizes, como a extração de recursos naturais no interior do país, onde as questões de desenvolvimento humanos são mais predominantes.

A terceira categoria mais importante inclui as variáveis-chave que as empresas identificam como relevantes para o seu modelo de negócio. Relacionamento com clientes, fornecedores, qualidade do produto etc. definitivamente desempenham um papel significativo nas demonstrações financeiras de uma empresa; a característica interessante das matrizes brasileiras é que as empresas têm identificado estas questões igualmente relevantes para a sociedade também.

Isto não é realmente surpreendente. É frequente o caso em que elementos-chave do modelo de negócios da empresa, como sua estrutura de custos e estratégia de crescimento da receita, criem externalidades e sejam afetados por forças externas, podendo influenciar seu modelo de negócio. Por exemplo, o preço sobre o carbono  pode aumentar drasticamente a estrutura de custos de uma empresa concessionária de electricidade a base de carbono; e o maior cumprimento das leis trabalhistas pode afetar a capacidade de produção da empresa.

Embora se possa  interligar estas duas coisas, é geralmente o caso em que alguns dos custos determinantes e drivers de receita seguem em direção contrária em relação ao que importa para a sociedade, expondo, desta forma, as relações de trade-off enfrentadas pelas empresas. Uma análise mais detalhada se faz-e necessária para avaliar, principalmente, como as empresas vêm resolvendo estas questões.

Finalmente, há preocupações sobre a governança corporativa e a ética no trabalho. Embora estes tópicos tenham sido geralmente subestimados nas economias em desenvolvimento, uma certa tendência em direção à abertura e transparência está surgindo. Será interessante observar, nos próximos anos, como o setor privado agirá na prevenção da corrupção e outras questões relacionadas à governança corporativa e ética, principalmente após os vários incidentes de corrupção no setor público que afetaram o governo nacional.

Seguindo em frente …

Em comparação com a maioria dos outros países, o interesse e o compromisso com a sustentabilidade é elevado na comunidade empresarial brasileira. Dada esta posição particular, as empresas brasileiras podem definitivamente conduzir a tendência de desenvolvimento de fontes de informação relevantes para seus investidores e para a sociedade em geral.

Devido ao pioneirismo brasileiro, muito poucas diretrizes foram definidas e aprovadas para uso em relatórios corporativos. As matrizes de materialidade podem fornecer informações extremamente úteis, desde que o processo por trás de sua construção reflita a realidade do negócio e as circunstâncias específicas que a empresa enfrenta.

A primeira coisa que se deve  ter em mente é a definição de questões relevantes a serem incorporadas  na matriz de cada empresa. Uma primeira tentativa para definir materialidade pode ser encontrada nos conceitos explicados por Lydenberg, Rogers, e Wood (2010). Os autores sugeriram cinco elementos principais para determinar a relevância de um problema ESG para um determinado setor:

1. Impactos financeiros e de riscos: questões que possam ter um impacto financeiro ou que possam representar um risco para o setor no curto (segurança do produto, por exemplo), no médio ou longo prazo;

2. Legal / regulador / condutores da política: questões setoriais que estão sendo moldadas por mercados emergentes ou políticas do governo e regulação em evolução (por exemplo, a regulamentação das emissões de carbono);

3. Normas elaboradas por colegas: as questões de sustentabilidade que as empresas do setor tendem a relatar e reconhecer como fatores importantes na sua linha de negócios (por exemplo, a segurança no setor aéreo);

4. Preocupações das partes interessadas e as tendências da sociedade: questões que são de grande importância para as partes interessadas, incluindo as comunidades, organizações não governamentais e o público em geral, e/ou reflitam as tendências sociais e de consumo (por exemplo, envio de consumidor contra ingredientes geneticamente modificados);

5. Oportunidade de inovação: áreas onde existe o potencial para explorar soluções inovadoras que beneficiem o meio ambiente, clientes e outros interessados, demonstrem a liderança do setor e criem vantagem competitiva.

Em segundo lugar, em particular com base nos exemplos brasileiros que se reuniram, é a questão de especificidade. Os conceitos descritos na matriz devem ser declarados de tal maneira que quem lê o  relatório possa inferir qual é o real significado por trás dele. Por exemplo, ninguém negaria a importância de “Direitos Humanos” para a empresa e a sociedade. Mas o que isso significa exatamente? Quais são os riscos específicos que as violações dos direitos humanos poderiam trazer para o modelo de negócios dessa empresa em particular? A matriz de materialidade deve ser mais do que uma mera aspiração de boas intenções; precisa refletir os compromissos subjacentes que cada empresa tem de lidar em suas operações diárias.

Em terceiro lugar, equilibrar as questões ao longo dos diferentes quadrantes da matriz. Enquanto isso poderia ser visto como uma simples exigência para preencher  os espaços, na realidade, reflete o processo por trás de risco e avaliação de oportunidades numa empresa. Toda organização e sociedade enfrenta ameaças potenciais. A ideia por trás deste exercício é sua classificação e priorização, a fim de identificar quais são extremamente relevantes, e desta forma,  avaliar o que se tem feito para reduzir os riscos e aproveitar as oportunidades. Assim como também ajuda a gestão para melhor alocar os recursos na definição de prioridades estratégicas.

Finalmente, deve-se ter em mente a forma como os investidores vão olhar para a matriz de materialidade em termos de uma perspectiva comparativa e longitudinal:

Comparativo: os investidores expostos a várias outras matrizes em uma determinada geografia/setor terão um claro entendimento de certas questões que atravessam todas as empresas. Se uma empresa não consegue relatar um problema que é relevante, os investidores podem, potencialmente, percebê-lo como mal-gerido ou poderão ter a percepção de más práticas na gestão de risco. Não é apenas sobre o que a empresa informa nos relatórios e sua matriz, é também sobre o que não faz.

Longitudinal: como as empresas vão construir suas matrizes ao longo do tempo, os investidores vão comparar seus relatórios anuais para avaliar quais questões são novas para a empresa? Quais questões desapareceram? O que a empresa tem feito, de forma pró-ativa,  para mitigar esses riscos? Quão eficaz foram tais medidas?

A recente decisão da BM&FBOVESPA de exigir que todas as empresas cotadas passem a produzir um relatório de sustentabilidade de forma a “cumprir ou explicar por que não” aumentará o nível de interesse e compromisso. Sendo assim,  é com otimismo que acreditamos que o Brasil será um líder em práticas de gestão sustentáveis ​​e, como resultado, uma potência global do século 21.

Sobre os autores

Jorge Amar: HBS 2012 Baker Scholar

Robert G. Eccles: Professor of Management Practice, Harvard Business School

George Serafeim: Assistant Professor, Harvard Business School

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