Gestão de pessoas e sustentabilidade: o elo faltante?

Por Martin Bernard

Este artigo tenta trazer um panorama mais analítico de como a sustentabilidade está (ou não) impactando as políticas de RH nas empresas. A noção de sustentabilidade se refere aqui à perenidade da organização, ao seu papel frente aos desafios de nosso tempo e à necessidade de se conquistar resultados admiráveis.

Infelizmente, pela minha experiência, ainda são poucas as empresas que inseriram sistematicamente esse conceito dentro dos seus modelos de gestão de pessoas, e isso mesmo entre as mais engajadas. Acredito que, em parte, por falta de entendimento sobre o seu alcance e complexidade (a conhecida comparação com a gestão da qualidade não ajudou) da urgência das transformações necessárias. De alguma forma, o mesmo se repete com a governança corporativa ou a estratégia, para citar só alguns exemplos, e reflete o atual nível de (baixo) amadurecimento sobre o tema.

Mas, afinal, por que sustentabilidade implicaria uma evolução do pensar sobre pessoas em ambientes corporativos?

Um argumento lógico para isso é que, uma vez colocada a sustentabilidade na  governança corporativa, estratégia e modelo de negócio, é de se esperar que a empresa também integre o conceito às distintas dimensões do seu modelo de gestão, inclusive de pessoas. Se não for assim, como garantir que uma corporação passe a ter os perfis humanos de que ela precisa para imaginar e executar as transformações necessárias, como a cultura, para perenizá-las? Seria o equivalente a trocar a carta do restaurante sem mudar a cozinha e a horta.

De fato, existe ampla literatura sobre a necessidade de educar, desenvolver novas competências e perfis de liderança para a sustentabilidade, como levar o tema para as políticas de remuneração, promoção e de sucessão, dentre outras. Essa necessidade é reforçada pelo fato dos processos de transformação top-down, se imprescindíveis, não serem suficientes. Assim, as empresas que não conseguem disseminar as questões da sustentabilidade entre seus colaboradores ficam em situação de muita fragilidade na hora de encarar um processo de sucessão, por exemplo, do seu CEO “verde” ou diretor de Recursos Humanos, ou de venda. Para conseguir isso, grandes empresas precisam de abordagens complexas e sistemáticas.

Outro elemento fundamental, ao meu ver, é que, em paralelo com as questões do negócio, as discussões e decisões sobre a sustentabilidade sejam naturalmente (e precisam ser) éticas.

Afinal, são as escolhas humanas realizadas em todos os níveis da organização que contribuem para o real posicionamento dessa questão na sua governança, estratégia e modelo de negócio. Por meio delas se define se a empresa terá ou não uma atuação relevante, se essa atuação se limitará a utilizar a sustentabilidade como um vetor de competitividade ou se escolherá se posicionar em um nível superior de entendimento, buscando contribuir para os grandes desafios enfrentados por nossa sociedade, imaginando novas formas de empreender em prol de um futuro melhor.

Finalmente, e sem pretender esgotar o tema, sustentabilidade também remete à qualidade dos relacionamentos que queremos manter em nossa sociedade, tanto dentro quanto fora de nossas empresas. Relacionamentos humanos instrumentalizados em favor de objetivos apenas centrados na organização e seus acionistas (atingir metas, crescer e criar valor para os acionistas) não apenas refletem uma leitura desatualizada do mundo como também implicam em sérias e cada vez maiores limitações quanto ao engajamento das equipes, perdendo a chance de solicitar (e conseguir) o melhor de cada um, na direção de propósitos organizacionais maiores (e melhores).

Os exageros do racionalismo levaram a querer conhecer o caminho para poder escolher o rumo. O mundo atual requer exatamente o contrário: imaginar os rumos e buscar os caminhos que nos levarão até lá. E para isso precisamos acessar o potencial de todos e cada um de nós e aprender a conciliar pragmatismo com visão, resultados com imaginação. Afinal, o homem é o único ser vivo capaz de transformar seus sonhos em realidade. Precisamos sonhar já!

Martin Bernard é sócio-fundador da People 4 A Better World, consultoria-boutique de retained executive search e liderança baseada em São Paulo, membro da Comissão de Estudos de Sustentabilidade para as Empresas e da Comissão de Conduta do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), e associado da Abraps (Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade).

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