Entrevista Especial – Otto Scharmer

Educação para a liderança coletiva

Por Poliana Abreu

Doutor em Economia e Negócios pela Universidade de Witten–Herdecke na Alemanha, professor da Sloan School of Management do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e fundador do Presencing Institute, um centro de pesquisas de inovação e empreendedorismo social e ambiental, sediado em Cambridge, nos Estados Unidos. Não sem motivo, Otto Scharmer é reconhecido internacionalmente como um dos mais diferenciados especialistas de liderança da atualidade, prestando consultorias e assessorando empresas e governos de várias partes do mundo.

Na área acadêmica, desenvolveu, em conjunto com Adam Kahane, Peter Senge e Joseph Jaworski, a aclamada Teoria U, cuja proposta é tornar-se uma tecnologia social que ajude a conectar indivíduos, empresas e toda a sociedade. E é justamente nessa linha que segue o mais recente projeto liderado por Scharmer, o GNH Lab (Gross National Happiness Lab), lançado recentemente no Brasil em parceria com a Natura, Ministério do Meio Ambiente, Governo de Minas Gerais e o Instituto Arapyau.

Em sua sala na escola de negócios do MIT, em Cambridge, Scharmer concedeu a seguinte entrevista exclusiva à Ideia Sustentável, na qual compartilha a sua visão de sustentabilidade e crença sobre o futuro da educação de novos líderes.

Ideia Sustentável – Qual o seu conceito particular de sustentabilidade? Em que medida ele se intersecciona com a Teoria U?

Otto Scharmer - O meu conceito é baseado na definição tradicional de sustentabilidade, que já é familiar para a maioria das pessoas e organizações. Porém, vai além em uma importante dimensão. Penso que o principal problema do tradicional conceito é que, basicamente, concentra-se em fazer “menos mal”. Mas o que precisamos, no sentido de transformar a maneira como fazemos negócios – que é insustentável -, é nos movermos da ideia de fazer menos mal para a de torná-la uma força de criação de bem-estar coletivo. Esta é a principal crítica ao conceito de sustentabilidade, incluindo o triple bottom line, que mensura muitos pontos, mas não informa o suficiente sobre o core business das empresas. Por exemplo, o Goldman Sachs está respondendo muito bem aos indicadores do triple bottom line (econômicos, ambientais e sociais), realizando uma série de iniciativas muito interessantes. No entanto, todos sabem que seu core business contribui para uma massiva onda de externalidades negativas, que atinge centenas de milhares de pessoas. Talvez algo esteja errado com o que eles estão mensurando.

Para simplificar, vejo que a crise global que estamos passando é consequência de três principais desníveis da atual comunidade empresarial e da sociedade em geral. O primeiro é a questão ecológica, que se refere à relação entre nós mesmos e a natureza; o segundo desnível está relacionado à questão social e econômica, que nos separa do outro, o que pode ser exemplificado pela pobreza e desigualdade. E o terceiro desnível com o qual estamos lidando é entre a relação cultural e espiritual, entre o meu eu atual e o meu eu emergente.

Ou seja, a separação entre o que faço no meu ambiente profissional e o meu propósito de vida. São esses tipos de desníveis que manifestam sintomas como exaustão, depressão e até suicídio. Nesse contexto, o que estou sugerindo é reinventar o conceito da sustentabilidade, levando em consideração essas três dimensões.

Para mim, a criação de valor e reinvenção da economia para transformar instituições e sociedade em algo sustentável significam essencialmente aprender a conectar esses três níveis.

IS – O modelo convencional de ensino de líderes nas escolas de negócios está sob forte discussão. Que mudanças precisam ser feitas para preparar líderes afinados com as demandas deste século 21, especialmente as que se referem à sustentabilidade?

OS – As escolas de negócios ao redor do mundo são criticadas, e geralmente culpadas, pelo fracasso de duas situações: como os líderes aprendem e como se dá o seu desempenho. A crise das três dimensões que citei na resposta anterior é, essencialmente, de liderança. O que chamo de crise ou fracasso da liderança pode ser exemplificado pela seguinte frase, que serve para a maior parte dos sistemas atualmente: “Nós, coletivamente, criamos resultados que ninguém deseja.” Por exemplo, coletivamente operamos uma economia que usa 1,5 planetas Terra, o que representa uma massiva destruição. Nós, coletivamente, obtemos resultados em que 2,5 bilhões de seres humanos vivem abaixo da linha da pobreza, e assim por diante. Num contexto como esse, a maior parte das pessoas se sente enfraquecida e incapaz de modificar essa situação. Por que se sentem incapazes? Porque falta liderança.

A crise da liderança, atualmente, não significa que não temos líderes individuais bem intencionados, mas que convivemos com uma crise de liderança coletiva. Nós, coletivamente, não conseguimos abordar os desafios principais que enfrentamos como uma comunidade de agentes de mudanças. E as raízes dessa crise de liderança coletiva são duas: a primeira é o que chamo de “ponto cego da liderança”, representado pelo paradigma do pensamento econômico. Ou seja, os líderes atuais não têm sido capazes de perceber a grande transformação da sociedade, que é a transformação do capitalismo. Em minha opinião, há uma grande mudança acontecendo na sociedade e pouco se fala sobre isso, contribuindo para que os líderes sejam menos informados e menos efetivos nas suas ações, porque não entendem profundamente o que está acontecendo.

A segunda raiz é o paradigma da liderança.  A maior parte dos treinamentos e conceitos que conhecemos sobre esse tema, hoje, está focada no indivíduo, e particularmente no líder que está no topo, geralmente o CEO. O que precisamos é, basicamente, de mecanismos para desenvolver capacidade de liderança não apenas no nível de indivíduos pré-selecionados, mas em todo o sistema. E isso não se ensina nas salas de aulas tradicionais. Devemos desenvolver habilidades para a liderança coletiva, mas nosso sistema educacional não está preparado para essa mudança. Por isso, as escolas de negócios terão de se reinventar. Imagino que o caminho seja mover-se da sala de aula para o mundo real, por meio de jornadas de aprendizagem e conexão com os grandes hubs de inovação.

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6 respostas a "Entrevista Especial – Otto Scharmer"

  1. Muito interessante a entrevista! O fato de precisarmos de 1.5 planetas de acordo com a nossa pegada ecológica nos ajuda a entender a gravidade do problema e da importância dos Líderes de cada setor para reduzir estes impactos.

  2. Geraldo Lino disse:

    A consciência das lideranças de grandes corporações internacionais que estejam evoluindo da ideia do triple bottom line para a Teoria U parecem estar muito longe de suas ações no Brasil, onde impera a necessidade do crescimento e do lucro, onde o bem-estar social se confunde com a capacidade da sociedade de ter dinheiro para continuar consumindo, mantendo o mercado ativo. Estamos perdendo um tempo precioso. Poderíamos pegar um atalho e vivenciar novos paradigmas antes de estagnar nosso capitalismo emergente.

  3. Daniela Reis disse:

    Parabéns, Ideia Sustentável, por estar à frente e trazer entrevistas como esta, apoiando no processo de transição de paradigmas.

  4. Maria Cristina Randazzo disse:

    Gostei muito da entrevista e da reflexão dos impactos relacionados. Obrigada pelo conteúdo apresentado. Sucesso a todos nesse caminho!

  5. Pingback: Mudar o mundo a partir das cidades – Parte 1 de 5 | Uma Ideia de Cidade

  6. Carlos Camacho disse:

    Finalmente temos uma nova luz na forma de encarar o papel da liderança que sustenta as pessoas, as famílias, as empresas, a sociedade como um todo. Tenho pensado muito na forma como treinamos nossas crianças, nossos jovens e nossos lideres e buscado algo que faça sentido diante do mundo em transição. A teoria U parece uma forma de mudar o que já não funciona mais.