Especial – Cidades paradas, empresas lentas

Por Fábio Congiu

“Trabalho é algo que se faz. Não o lugar aonde se vai”, afirmou o consultor americano Peter Valk, especialista em gestão de demanda de transportes, durante o Seminário Internacional de Mobilidade Corporativa e Cidades Sustentáveis, que reuniu especialistas para discutir os problemas de deslocamento nas grandes metrópoles, seus impactos sobre o desempenho corporativo e o papel das empresas na busca por soluções.

O seminário aconteceu na capital paulista, uma das mais modernas concentrações financeiras do mundo, que desperdiça mais de R$ 40 bilhões por ano com os congestionamentos, segundo o relatório State of the World’s Cities 2012–2013, da ONU. Problema que investimentos suntuosos em infraestrutura, como novas pontes e avenidas, não têm se mostrado suficientes para solucionar.

Um quarto da população nas capitais paulista e carioca já leva mais de uma hora para se deslocar de casa para o trabalho. “A mobilidade implica um ativo que não tem preço: o tempo”, destacou Mônica Salles, consultora de Responsabilidade Socioambiental da Caterpillar. Segundo estudo do Ipea, os custos das horas em que as pessoas deixam de produzir por estar no trânsito passaram de R$ 10,3 bi para R$ 30,2 bi, entre 2002 e 2012.

Um dos grandes vilões da mobilidade urbana, segundo especialistas, é o automóvel: não a frota, e sim, seu uso. Diante desse quadro, como as empresas podem contribuir com a mobilidade urbana? Quais iniciativas – tanto do setor privado quanto do público – se destacam na busca por cidades mais ágeis e inteligentes?

Alternativas possíveis

Se não quiserem continuar desperdiçando cifras consideráveis, as empresas precisam comprar a briga pela mobilidade, começando por apresentar soluções para os funcionários e reconhecer as mudanças de atitude. As vantagens são evidentes em vários aspectos, como redução de custos e despesas operacionais, retenção de funcionáriosmaior produtividade e menor absentismo.

Projeto-piloto realizado na região da Avenida Luiz Carlos Berrini, local de grande concentração empresarial de São Paulo, busca traçar um mapa da mobilidade na região junto às instituições locais. A pesquisa inicial sugeriu o melhor uso dos meios de transporte já disponíveis e horários alternativos para entrada e saída de empregados.

Os primeiros resultados destacam ainda que, se não fossem de carro para o trabalho, 83% das pessoas escolheriam as caronas. Há aquelas que optariam pelas bicicletas, mas só se houvesse vestiário na empresa (77%) ou acesso fácil à ciclovia da Marginal Pinheiros (37%). Já o transporte público seria utilizado por 70% das pessoas se tivesse mais qualidade; com jornadas flexíveis de trabalho, 28% afirmam que fariam uso dessa opção.

Alternativas de mobilidade corporativa não faltam. Home-office, carona, possibilidades para ciclistas e transporte público de qualidade são apenas algumas delas. A seguir, alguns exemplos de quem já tem conseguido colocar em prática alguns planos de mudança.

Empresas em movimento

Na Torre Santander, em São Paulo, circulam 7 mil pessoas por dia. Há quatro anos, o banco lançou uma política de bem-estar para proporcionar mais tempo e qualidade de vida aos funcionários. As metas aspiravam retirar 2 mil veículos das ruas da capital paulista diariamente e contribuir com a redução de 20% nas emissões de CO2, até 2015. As principais medidas: diminuir as necessidades de deslocamento, facilitar o uso das bicicletas e do uso do transporte coletivo, e evitar que todos os funcionários saíssem no horário de pico.

A Editora Abril ouviu seu público interno, formou comitês e realizou uma pesquisa para identificar o perfil de locomoção dos funcionários. Segundo os resultados, os colaboradores do Novo Edifício Abril gastam, em média, duas horas por dia de casa até o trabalho. Quem tem carro e não o utiliza para fazer o trajeto (22%) justifica-se pelo trânsito, estacionamento e custos envolvidos. Entre os que circulam sozinhos, 54% utilizariam carona se pudessem optar por outro meio de transporte.

Fora do Brasil, um caso interessante é o da Russell Investments, que se mudou de Tacoma para Seattle, nos Estados Unidos, aumentando o deslocamento das pessoas. Com a consultoria de Peter Valk, implementou uma série de medidas: vale transporte, home-office, estacionamento privilegiado para quem dava carona, entre outros. Antes da política, 70% dos funcionários dirigiam sozinhos. Após o programa, o percentual caiu para 25%.

Também em Seattle, a Microsoft precisou facilitar os deslocamentos de seus funcionários. A empresa organizou linhas de ônibus exclusivas para os colaboradores, integradas ao sistema de transporte público da cidade. “É preciso oferecer opções de transporte, apresentar motivos para mudar e reforçar o comportamento por meio de benefícios ou reconhecimentos a quem adere às iniciativas”, resumiu Valk.

O World Trade Center São Paulo tem se empenhado na causa da mobilidade disponibilizando salas ociosas para cursos e pós-graduações em parceria com Impacta, Mackenzie, FAAP e HSM. O WTC começou suas ações divulgando ao público interno o portal Caronetas, que possibilita encontrar colegas de trabalho que residem em regiões próximas para combinar alternativas de transporte – no caso, a carona.

O poder público e o poder do público

“A iniciativa privada está muito devagar. As empresas precisam escalonar horários para desafogar as ruas nos horários de pico. Até as calçadas estão lotadas!”, criticou o secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos de São Paulo, Jurandir Fernandes. Em São Paulo, uma das principais medidas da prefeitura é a ampliação das faixas exclusivas para ônibus. Segundo o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, a iniciativa já reduziu em 50% o tempo das viagens coletivas.

“Queremos acreditar numa cidade mais sustentável. A mobilidade urbana está em pauta, é prioridade e já estamos sentindo as mudanças”, avaliou Daniela Facchini, diretora de Operações e Projetos da EMBARQ Brasil, rede que auxilia governos e empresas no desenvolvimento e implantação de soluções sustentáveis para os problemas de transporte e mobilidade.

As bicicletas, tendência cada vez mais relevante nas metrópoles, são descritas como “mais do que uma opção de deslocamento sustentável e eficiente: um instrumento de humanização da cidade” por João Paulo Amaral, fundador do Bike Anjo, coletivo com cerca de 800 voluntários que atua em 160 cidades, promovendo workshops e oficinas para engajar pessoas e empresas na incorporação das bikes ao dia a dia.

Os representantes da sociedade civil acreditam em um diálogo cada vez mais intenso com as iniciativas privada e pública. A responsabilidade de construir um ambiente urbano mais sustentável é de todos. E as vantagens são, também, para todos.

Publicado em Especiais. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado.

*

3 respostas a "Especial – Cidades paradas, empresas lentas"

  1. Pingback: Começa a circular a nova revista Ideia Sustentável :: Ideia Sustentável

  2. Pingback: Cidades paradas, empresas lentas | Envolverde

  3. Pingback: Edição nº34 :: Ideia Sustentável