Consumismo e Obsolescência

Por Vinicius Soares da Silveira

Sentimos necessidade exagerada de rótulos. De definir o que é velho e o que é novo. De enquadrar o bom e o ruim. E muitas vezes, na nossa sociedade ocidental, velho=ruim e novo=bom.

  • · O cinema não existe mais.
  • · O livro e o jornal de papel acabaram.
  • · Telefone fixo já era.

Pelo menos é isto que se ouviu por aí, em uma busca frenética por matar o velho para vender o novo. Explicando: disseram que o DVD e os filmes pela internet iriam acabar com o cinema; que livros digitais e sites de notícias iriam aposentar seus equivalentes impressos; que a telefonia celular acabaria com o telefone fixo. Mas todas estas tecnologias continuam entre nós.

O cinema se reinventou. A telefonia fixa agregou serviços de internet e TV. Os livros de papel continuam por aí. É certo que a tendência à diminuição de escala é evidente, mas estas tecnologias continuam tendo suas aplicações. De fato chegará a hora em que elas não serão mais reconhecidas, tamanha a transformação que sofrerão, mas este tipo de transição não costuma ocorrer de forma abrupta no tempo.

O ponto a ser questionado aqui é esta estranha necessidade de matar um conceito para criar outro, em vez de uma abordagem de transição e complementariedade, baseada em necessidades reais da sociedade, não em necessidades de geração de lucro na indústria.

Você se lembra do “tocador de MP3″, que quando passou a tocar vídeos MP4, passou a se chamar MP4? Depois disto vieram MP5, MP6, MP 1 milhão, cujos nomes não fazem o menor sentido técnico, mas pelo fato de serem um número maior, sugerem a obsolescência do modelo anterior. Quantas daquelas 8 funções que um MP11 teria a mais em relação ao MP3 de fato seriam utilizadas? Aliás, quais eram elas mesmo?

Os mais experientes vão se lembrar de história semelhante: a do vídeo-cassete. Quando foi lançado o vídeo-cassete de 8 cabeças, tornou-se um absurdo comprar um vídeo de “apenas” 4 cabeças. Mas pouca gente sabe para que serviam as tais cabeças-extra. Serviam, por exemplo, para dar qualidade superior quando o filme era exibido em câmera lenta. E quantas vezes um indivíduo que comprou um vídeo de 8 cabeças apertou o botão slow motion do seu controle remoto? Falando no controle, pra que tanto botão se a maioria absoluta dos usuários utilizava somente 6 – iniciar, parar, pausar, voltar, adiantar e gravar –, mas é claro, com seus nomes em inglês, que é mais chique!? Ou seja, para a maioria das pessoas, as 4 cabeças-extra serviam exatamente para nada; então, um vídeo de 4 cabeças estaria perfeito, se não fosse tão fora de moda…

O ritmo de consumo que estamos estabelecendo está exaurindo nosso planeta. Pensemos em quanta matéria-prima é necessária para produzir tantos objetos sem utilidade. O fone de ouvido que veio com seu celular velho e que você só lembrou-se dele no dia que foi jogar a caixa fora. Quanto metal, quanta água e quanto petróleo não foram direto para o lixo?

A máxima de Lavoisier – “Na natureza,  nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” – é clara no sentido de que nada termina e nada começa. Mas isto não vende. Isto não induz as pessoas a jogar o velho fora e gastar seu dinheiro com um produto novo.

E produtos de durabilidade prolongada não permitem novas vendas. Consumidores esclarecidos sobre o que estão comprando não despenderão dinheiro a mais por um recurso inútil ou pela substituição de algo que já lhes atende.

A contramão desta conversa toda está na ruptura do paradigma da posse. Esta ruptura se dá por meio de duas palavras-chave: Compartilhamento e Serviços.

Ao substituir a posse pelo uso, os recursos podem ser compartilhados e, desta forma, utilizados de modo mais dinâmico. Uma bicicleta alugada atende muito mais pessoas com a mesma matéria-prima do que se cada indivíduo optasse por comprar sua própria bicicleta. O mesmo princípio vale para a computação em nuvem (cloud computing), onde o uso de servidores compartilhados reduz a quantidade de servidores alocados dentro das empresas individualmente. Transporte coletivo eficiente é muito melhor do que um carro de 1,5 tonelada para transportar um único ser humano de 80 quilos.

Esta conversa poderia ir ainda mais longe se observássemos esta questão sob o viés antagônico do “ter” ou “ser”, onde o ter remete à posse de produtos e o “ser” remete ao usufruto de serviços.

Mas para não filosofar demais, fiquemos com um único ponto de reflexão: será que tudo que a indústria tenta nos convencer a jogar fora e comprar de novo é realmente necessário?

Nosso planeta (e o nosso bolso) certamente vão ficar felizes se começarmos a dizer mais “não”.

Vinícius Soares da Silveira é gerente de Produtos da Leucotron.

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