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Os verdadeiros líderes não podem continuar enxugando gelo
 
OPINIÃO
Os verdadeiros líderes não podem continuar enxugando gelo
 
por admin em junho 28 , 2011 às 7:13 pm | Comentário (1)

Por Paulo Durval Branco

Há cerca de 12 anos venho somando esforços às iniciativas de líderes empresariais brasileiros que buscam sintonizar os seus negócios com os desafios do desenvolvimento sustentável. Atuando como consultor e educador, tenho vivido junto com esses indivíduos as alegrias e frustrações que marcam a busca de integrar a sustentabilidade à estratégia e à cultura das suas organizações. Mais do que celebrar as alegrias já vividas, gostaria de refletir aqui sobre caminhos que possam nos ajudar a reduzir as frustações. O que, aliás, é uma expectativa que tenho em relação à Plataforma Liderança Sustentável: apontar e encurtar caminhos para novos líderes a partir dos sucessos e dificuldades dos que já estão na estrada.

Nesse sentido, entendo que alguns elementos devem fazer parte dessa reflexão. São eles: o legado que já pode ser atribuído aos líderes pioneiros; as limitações a serem enfrentadas pelos que decidem ampliar e aprofundar as conquistas; e os esforços que precisamos empreender para prosseguir na destruição criativa em direção a uma sociedade sustentável.

Vamos ao legado. Nas palavras de James Kouzes e Barry Posner, autores reconhecidos pelos seus estudos sobre liderança, algumas práticas caracterizam as ações dos líderes quando estão no melhor do seu desempenho. Entre elas as que revelam sua capacidade de desafiar o estabelecido e de inspirar outras pessoas em torno de uma visão compartilhada. Quando penso nos líderes com quem tenho convivido, não tenho dúvida de que essas práticas fizeram a diferença. Assim foi quando o Instituto Ethos, fundado em 1998 por um grupo de líderes empresariais, ampliou os horizontes das organizações brasileiras para além das ações filantrópicas e assistencialistas, questionando e inspirando empresários e executivos acerca de um modelo de gestão que levasse em conta a gestão dos impactos sobre o conjunto dos stakeholders, em sintonia com os desafios da sociedade. Da mesma forma essas práticas apontadas por Kouzes e Posner estiveram presentes no início da década passada em empresas como a Natura e o Banco Real, cujos líderes souberam, como poucos, desafiar o status quo e mobilizar pessoas em torno de visões inspiradoras. Visões como a que propõe a Natura: produtos a serviço do “bem estar bem” (que proporcionam o bem-estar do indivíduo consigo mesmo, com os outros e com o ambiente que o cerca); ou como a que desencadeou a trajetória do Banco Real, hoje Banco Santander, que buscava responder ao que seria “um novo banco para uma nova sociedade”. A contribuição desses e de outros líderes que construíram os últimos dez anos do movimento da sustentabilidade corporativa no Brasil foi demostrar que é possível, sim, empreender e gerenciar negócios que buscam, dia após dia, construir relações de qualidade com seus stakeholders e gerar valor nas dimensões econômico-financeira, social e ambiental.

Mas será esse legado suficiente, frente aos desafios que se apresentam para as empresas e para o conjunto da sociedade? Estou convencido de que a resposta é não. E a minha convicção se deve ao fato de que, independente dos esforços dos líderes pioneiros e dos futuros líderes, os avanços em direção a um mundo ecologicamente equilibrado, socialmente justo e economicamente viável serão sempre marginais e pífios enquanto estivermos regidos pelo paradigma do crescimento. Um sistema econômico que supõe a possibilidade de crescimento constante em um planeta com recursos finitos nos aprisiona a uma espécie de castigo autoimposto: seguir enxugando gelo na esperança de evitar que o chão se molhe. Será esse um castigo eterno? O que cabe aos líderes realmente dispostos a desafiar padrões e a mobilizar outros protagonistas?

Como nos ensinam todos os indivíduos que ajudaram a sociedade a dar saltos qualitativos em sua trajetória, a resposta a essas perguntas não está em outro lugar senão em nós mesmos. Enquanto insistirmos em uma existência fragmentada, em que não nos reconhecemos como uma unidade física, mental, emocional e espiritual, seguiremos desconectados da teia da vida e, consequentemente, descuidados (no sentido da ética do cuidado proposta por Leonardo Boff) em relação aos outros e ao meio em que estamos inseridos. E no que isso implica para os líderes comprometidos com a transição para uma sociedade sustentável? Identifico ao menos três imperativos. São eles: realizar em si a interdependência que espera ver no mundo; abrir-se ao diálogo verdadeiro com outros protagonistas, independente de suas origens e formações, como forma de acessar e potencializar a inteligência coletiva que nos dará respostas para além dos modelos mentais que nos trouxeram à atual crise civilizatória; e equilibrar o “ser” e o “ter”, em sintonia com um consumo que considere a capacidade de suporte do planeta e a necessidade de maior justiça social.

Contar com iniciativas que aproximem e inspirem líderes para lidar com tais imperativos é no mínimo auspicioso. Seja então bem-vinda a Plataforma Liderança Sustentável!

Paulo Durval Branco é sócio-diretor da Ekobé (www.ekobe.com.br), consultoria em sustentabilidade corporativa, e professor da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade (Escas).

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1 comentário

Fernando Araujo

Concordo em gênero, número e grau com o Paulo. O desafio sustentável é uma causa Nobre, inquestionável. No entanto, vejo o desafio desse desenvolvimento interno para as empresas como algo que muitas vezes ainda é visto “competindo” com o objetivo base da empresa. Na correria do dia a dia, muitas vezes conseguir dedicar tempo, equipe e recursos ao desenvolvimento sustentável interno é complicado. Acredito muito que o Brasil dará um salto grande em termos de desenvolvimento quando seus líderes de fato puderem dedicar 100% de seu tempo ao desenvolvimento de sua empresa em todos os sentidos e não boa parte desse tempo tentando “driblar” o sistema tributário nacional para maximizar os resultados, ou mesmo criar algum (não estou falando de nada ilegal…). Nesse dia, sem dúvida alguma haverá muito tempo para todo tipo de iniciativa e recursos também para todo tipo de desenvolvimento. Enquanto esse dia não chega, vamos trabalhando forte para fazer o máximo com as ferramentas que temos, tanto agradar a todos. Não é um desafio essencialmente de $, ideais, objetivos, pessoas, mas de foco, na minha opinião.




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