Os desafios da educação para a sustentabilidade
Presidio Graduate School – San Francisco, CA
Sustentabilidade no MIT Sloan School of Management
Brazil Field Seminar
Iniciativas de sustentabilidade no campus de Harvard
Conheça as práticas em sustentabilidade da Universidade de San Diego
 
OPINIÃO
Os desafios da educação para a sustentabilidade
 
por admin em julho 18 , 2013 às 1:36 pm | Comente aqui.

Por Poliana Abreu

Nos últimos anos, tenho observado o papel fundamental que o setor de educação superior pode desempenhar para trazer mudanças mais conscientes para a sociedade. Isso engloba como as instituições são administradas, como elas se envolvem com suas comunidades locais, como engajam seus colaboradores e o que é ensinado dentro e fora da sala de aula. Em suma, as instituições educacionais encontram-se em posição privilegiada para influenciar a mudança para a sustentabilidade por meio da inovação em seus campi, nas comunidades, nas suas linhas de pesquisa e no currículo.

Mesmo com todos os desafios e outras prioridades nas agendas das instituições de ensino superior no Brasil e no exterior, tornam-se cada vez mais claros os motivos pelos quais a sustentabilidade tem sido considerada uma questão estratégica em importantes universidades e escolas de negócios no mundo.

Ao trabalhar pela implementação e desenvolvimento do tema no Grupo Ânima Educação e, posteriormente, na Fundação Dom Cabral, esses motivos tornaram-se mais evidentes para mim. Mas percebi que era necessário compreender a fundo o que motivava os demais colegas de profissão e outras escolas a enfrentar os desafios da sustentabilidade e não simplesmente fugir ou se adaptar a eles. Foi assim que comecei a percorrer algumas instituições para descobrir o que há de inovador e transformador no que se refere à sustentabilidade corporativa e inovação social. Atualmente morando em Boston (Estados Unidos), região que abriga grandes e renomadas universidades do mundo, tenho acompanhado os dilemas desse debate por meio de conversas, aulas e entrevistas com professores e alunos dos mais diversos backgrounds.

É evidente que a motivação para inserir a sustentabilidade na agenda das instituições de ensino superior depende da estratégia, dos desafios, restrições e habilidades de cada escola. Mas, de forma geral, o primeiro motivo levantado pela maioria das escolas com as quais conversei é se tornar mais relevante e desejável no médio e longo prazos, atendendo a uma demanda da sociedade e do mercado – já que, no mundo corporativo, os conceitos de organizações conscientes e sustentabilidade têm sido amplamente considerados. O que muitas vezes dificulta esse processo é uma estrutura educacional anterior que tenha, de fato, desenvolvido pessoas e profissionais capazes de promover transformações nas suas organizações, alinhadas com os grandes desafios locais e globais.

O segundo motivo é tornarem-se operacionalmente mais efetivas. Para isso, muitas escolas estão buscando financiamento para novos projetos “verdes” e inovadores, fazendo progressos em várias áreas, especialmente em energia, edificações, resíduos, reciclagem, compras conscientes e envolvimento da comunidade. E o terceiro motivo está alinhado, especialmente, à reinvenção da educação executiva e das escolas de negócios.

Para permanecerem relevantes num mundo cada vez mais dinâmico e conectado, algumas escolas já sentem que terão de repensar seus propósitos e valores, de forma a se alinhar com os novos desafios da sociedade. Sendo assim, começar a refletir sobre as questões de sustentabilidade pode ser um bom caminho para se iniciar o debate sobre o papel e o futuro das escolas de negócios.

Nesta caminhada em busca das instituições de ensino que estão fazendo a mudança para a sustentabilidade, tenho visto desde pequenas e novas escolas que já nasceram com esse DNA, como é o caso da Presidio School, em São Francisco (EUA) – que atrai inúmeros estudantes com interesse no tema -, até grandes e tradicionais instituições, como MIT, Harvard e Yale –, que, com estrutura e reputação, são capazes de ajustar ou inovar seus currículos para atrair não somente os estudantes já engajados com o tema mas também os mais céticos.

Essas universidades, em vez de tratar os diferentes desafios da sustentabilidade de maneira isolada, estão criando novas oportunidades e mecanismos para integrar o debate com outras áreas de conhecimento. Um approach inicial que muitas escolas têm escolhido – e que para mim faz todo o sentido – é tratar sustentabilidade como um tema relacionado à gestão da mudança e inovação. Nas aulas de sustentabilidade da Boston University, por exemplo, a maior parte dos cases utilizados não é específica de sustentabilidade, e, sim, trata de questões como inovação, mudança e aprendizado organizacional – em última instância, o que permite que os projetos de sustentabilidade sejam viáveis.

Já no Brasil, não poderia deixar de citar o exemplo da Fundação Dom Cabral, que alinha geração de conhecimento, por meio do Núcleo Petrobrás de Sustentabilidade, com o direcionamento estratégico do tema, que é conduzido pelo Comitê de Sustentabilidade da instituição. Há dez anos, a FDC antecipava-se em atender às demandas de uma realidade empresarial que começava a se envolver, de forma mais participativa, com as questões relacionadas à gestão responsável. Nessa época, criou-se o Núcleo de Sustentabilidade, que, a meu ver, é um interessante modelo de geração de conhecimento no tema.

Muitas outras iniciativas interessantes, mas ainda pontuais, têm sido conduzidas por escolas brasileiras, como as 18 signatárias do PRME (Princípios para a Educação Empresarial Responsável), uma iniciativa da ONU para inspirar as escolas de negócios a adaptarem seus currículos, metodologias, pesquisas e estratégias institucionais em prol das questões de sustentabilidade. Essas escolas, ainda que muito tímidas para realizarem mudanças estruturais nessa área, já sinalizam o interesse em dar os primeiros passos nessa direção.

Esses exemplos nos fazem perceber que, ao contrário do que acontecia há alguns anos, quando não existiam modelos a serem seguidos nesse campo, atualmente há muitos exemplos de escolas que estão focando em uma gestão mais consciente e integrando os conteúdos relacionados à sustentabilidade em seus cursos e pesquisas. Mas ainda há muito a se fazer nessa área; a transformação está apenas começando.

Se analisarmos de forma geral as grandes universidades no mundo, é fácil perceber um significativo avanço nas disciplinas de cursos como Engenharia e Arquitetura, que já trabalham com certa profundidade as questões de ecodesign, design inclusivo e ecoeficiência. Mas o desafio de conseguir uma substancial alteração no conteúdo e adaptação nas disciplinas tradicionais de negócios (por exemplo, Estratégia, Marketing, Finanças, Recursos Humanos e Operações) ainda encontra-se nos primeiros estágios. O currículo tradicional e fragmentado tem sido muito questionado, pois muitas vezes fornece uma visão parcial e distorcida do mundo dos negócios. Por isso, o desafio é fazer com que o tema da sustentabilidade seja um pano de fundo – e não tratado como especialidade -, semelhante ao que domina o currículo padrão.

Essa mudança de mentalidade, e consequentemente de atitude, requer, antes de tudo, o desenvolvimento intencional dos envolvidos e não apenas um ajuste superficial de curto prazo. Por isso, o que realmente faz a diferença – e esta é a minha conclusão, ditada por valores pessoais – é o esforço colaborativo. Temas de fronteiras e interdisciplinares só serão capazes de sair do nível da abstração se houver um real comprometimento de todas as áreas da instituição. Isso não quer dizer mudar radicalmente as prioridades e as agendas das áreas envolvidas. Mas, sim, buscar a melhor versão que cada especialidade pode oferecer para entender e direcionar os grandes desafios econômicos, ambientais e sociais. E, à medida que cresce a contribuição e o envolvimento com esses desafios, a propensão é que pessoas e instituições ganhem ainda mais motivação para percorrer o caminho da sustentabilidade, alcançando novos desdobramentos, novos conteúdos e novos públicos.

Poliana Abreu é consultora em sustentabilidade corporativa, professora convidada da Fundação Dom Cabral (FDC) e especialista visitante em cursos da Universidade de Boston e do MIT Sloan School of Management. Seu desafio atual é descobrir o que há de inovador e transformador nas escolas de negócios no que se refere à sustentabilidade corporativa e inovação social.

Share and Enjoy:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Twitter



0 comentários



Postar um comentário
Nome *
   
E-mail *
   

 
 

Comentar
     


PARCEIROS
 



© 2014 Ideia Sustentável - Todos os direitos reservados.