Crescimento sim, mas de qualidade. Eis a nova revolução chinesa. Por Juliana Lopes
Nas últimas três décadas, a China apresentou uma média de crescimento anual de 10%, tornando-se uma referência de modelo econômico, principalmente para as demais economias emergentes. No entanto, esse processo resultou no aumento da poluição e no esgotamento de determinados serviços ambientais, o que torna o desenvolvimento chinês insustentável no longo prazo. Quem faz o alerta é a ONU no último Relatório de Desenvolvimento Humano da China, encomendado pelo PNUD e coordenado pela universidade chinesa de Renmin.
A constatação já não surpreende os mais críticos, mas a novidade fica por conta do governo chinês que já vê na economia de baixo carbono o caminho mais óbvio a seguir. “A mudança gradual para um modelo de desenvolvimento de baixo carbono é a melhor opção para a China. Muitas pessoas, inclusive, nos mais altos níveis do Governo, pensam em termos ainda mais fortes que o país não tem outra escolha”, destaca a publicação.
O que interessa aos chineses agora não são os números, mas sim a qualidade do seu crescimento que deve ampliar a possibilidade de escolha de seus cidadãos, permitindo que desenvolvam a capacidade de viver mais e melhor. Para tanto, devem ter acesso ao conhecimento, desfrutar de um padrão digno de vida e participar da vida de sua comunidade e decisões que a afetam.
Entre 1991 e 2004, a proporção de pobres caiu de 65,2% para 10,4% da população. “Os chineses estão agora mais ricos, mais bem educados e mais saudáveis do que nunca”, observa o estudo. Ao mesmo tempo, a rápida expansão gerou desigualdades sociais e degradou o meio ambiente. “A emissão total de gases-estufa da China cresceu rapidamente com a industrialização e a urbanização ao longo das últimas décadas. De 1970 a 2007, o volume total subiu sete vezes. Em 2007, as emissões de CO2 da China ultrapassaram as dos Estados Unidos e são hoje as maiores do mundo”, ressalta o relatório.
Os chineses lançam 6 bilhões de toneladas de gases-estufa ao ano, contra 1 bilhão no início dos anos 70. As emissões per capita são menores que as dos países desenvolvidos — mas cresceram 381% nos últimos 40 anos, bem mais que as do planeta como um todo (17%), segundo dados da Agência Internacional de Energia citados no relatório. O problema pode se agravar, pois, ao longo das próximas duas décadas, 350 milhões de pessoas devem migrar das zonas rurais chinesas para áreas urbanas.
O relatório destaca ainda a grande disparidade entre as indústrias da China. De um lado, empresas modernas —especialmente as estatais— adotam tecnologia avançada, com baixo consumo de energia por unidade de produção. Mas, um grande número de pequenas e médias empresas ainda usam equipamentos ultrapassados e tecnologias que desperdiçam energia e produzem níveis elevados de emissões.
Um exemplo disso é a usina termelétrica de Zhejiang, considerada a maior e mais eficiente do mundo, com quatro geradores de mil megawatts e um nível de consumo de carvão de 282,6 gramas por quilowatt-hora. Ao mesmo tempo, um grande número de geradores ultrapassados opera no país abaixo de 200 mil quilowatts — para cada quilowatt-hora de eletricidade gerado esses aparelhos lançam entre 250 e 350 gramas a mais de CO2 na atmosfera do que os mais modelos mais avançados.
Economia made in China
Para acelerar a transição a um modelo de desenvolvimento de baixo carbono, a China repete a fórmula que a levou de um sistema regidamente planificado e centralizado a uma economia de mercado dinâmica. Com o mesmo rigor e monitoramento característicos, o governo agora introduz reformas que visam o combate ao aquecimento global e estímulo a tecnologias limpas. Sua estratégia é delineada no Programa Nacional de Mudanças Climáticas pelo qual se compromete a reduzir suas emissões de dióxido de carbono por unidade de PIB em 40% a 45% (comparado a 2005) até 2020. Além disso, a China também pretende aumentar em 15% a fatia de combustíveis renováveis na sua matriz energética por volta de 2020 e expandir a sua cobertura vegetal para 40 milhões de hectares, atingindo um volume de estoque florestal de cerca de 1,3 bilhão de metros cúbicos.
O governo também chegou a conclusão de que é indispensável criar um mercado de carbono a fim de colocar um preço nas emissões e assim alavancar uma economia de baixo carbono. As autoridades chinesas chegaram a essa conclusão na última reunião da Comissão de Reforma e Desenvolvimento Nacional (NDRC). Segundo o jornal China Daily, o encontro, presidido por Xie Zhenhua, diretor da NDRC, decidiu que o comércio doméstico de permissões deve entrar em vigor até 2015.
Uma das sugestões para o mercado seria por um limite absoluto de emissões de CO2 por setores industriais. Outra pede para que a meta de intensidade de carbono seja convertida em permissões para o esquema de comércio.
A primeira negociação voluntária foi realizada em agosto de 2009, quando uma companhia de seguro de automóveis de Xangai comprou mais de oito mil toneladas de créditos de carbono geradas por um projeto ambiental durante as Olimpíadas de Pequim.
A partir do sinal claro do governo em direcionar a economia a padrões sustentáveis, o setor empresarial sente mais confiante para aportar investimentos em tecnologias mais limpas e começa a colher seus primeiros resultados. As energias renováveis, por exemplo, já movimentam US$17 bilhões e empregam cerca de um milhão de trabalhadores.
Os primeiros passos foram dados, mas ainda não nos permitem apostar que a maior potência econômica da atualidade também se tornará modelo em termos de sustentabilidade. O desafio para tanto é gigantesco e requer, antes de mais nada, a revisão de toda a lógica made in China, centrada em baixo preço, massificação, precarização do emprego e minimização do controle de segurança e qualidade.
O intercâmbio com alguns valores da filosofia chinesa faria muito bem a economia. A começar pelo exercício de criar sistemas produtivos capazes de considerar não só entradas, mas também as saídas (resíduos, poluição, entre outras externalidades), numa perfeita representação de forças yin-yang. Esse modelo sim o mundo inteiro gostaria e deveria copiar.