6º Estudo NEXT – Construção – Tendência 2: Inovação em materiais e processos

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Observando a máxima de que não se alcança um novo resultado pensando e agindo sempre da mesma forma, o setor da construção não vai avançar em sustentabilidade sem inovar em produtos e processos, o que implica adotar a Análise de Ciclo de Vida como premissa para a seleção de materiais desde a etapa de planejamento das obras.

Pensar (e construir) diferente

Uma forma de incorporar efetivamente a sustentabilidade na indústria da construção consiste na escolha e no uso correto dos materiais necessários para as obras. Em outras palavras, adicionar as dimensões socioambientais à econômico-financeira responsável, na etapa de seleção desses recursos pode ser um pontapé inicial para que o setor se engaje no tema, rumo à práticas cada vez mais significativas e à consolidação de uma cultura sustentável inclusive no processo de produção e inovação de equipamentos.

Definir corretamente os recursos que serão utilizados no canteiro de obras implica a Análise de Ciclo de Vida (ACV), fundamental para a mitigação dos impactos sociais e ambientais relacionados aos empreendimentos e o esclarecimento de consumidores e certificadores, tornando o mercado mais transparente.

Em paralelo, a gestão responsável da instalação e operação dos materiais e equipamentos selecionados leva a ganhos de eficiência, maior durabilidade e aumento do conforto e qualidade habitacional. O avanço da sustentabilidade na indústria da construção depende de se conscientizar empreendedores, fornecedores e clientes sobre esses potenciais ganhos ligados ao tema.

Em 2009, o Comitê Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) já apontava a necessidade de se fazer a seleção dos materiais com base na ACV, mas a adesão à esta demanda não se mostrou proporcional aos impactos do setor sobre o meio ambiente e a sociedade, até mesmo por ser ele muito diversificado – embora pareça ser um setor dominado pelas grandes, a maior fatia das obras pertence aos pequenos e médios negócios. Entre as recomendações do CBCS para a escolha de materiais sustentáveis, destacam-se:

1) Escolher fornecedores de matérias-primas que trabalhem formalmente, invistam em ecoeficiência e sejam socialmente responsáveis. Conhecer seus processos produtivos.

2) Atentar para empresas que atendam à legislação fiscal, verificar a validade do CNPJ e da licença ambiental da unidade fabril.

3) Acessar o relatório de responsabilidade socioambiental da empresa e dar preferência àquelas que apresentam programas de gestão de saúde e segurança ocupacional, com políticas e metas claras de melhoria da ecoeficiência em toda a sua linha de produtos e processos.

4) Optar por empresas que respeitem as normas técnicas.

5) Considerar todo o ciclo de vida do produto na escolha da opção mais ecoeficiente, da produção de matérias-primas ao destino final.

Incorporada à ISO 14040, de gestão ambiental, a ACV prevê quatro fases interligadas: definição de objetivo e escopo, análise de inventário, avaliação de impactos e interpretação de resultados. A partir disso, em seu documento Condutas de sustentabilidade no setor imobiliário residencial, o CBCS e o Secovi-SP (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo) relacionam a análise à indústria da construção, gerando um olhar integral sobre cada elo do ciclo de vida de um empreendimento, como mostra a figura a seguir.

Durante a etapa de concepção e planejamento, portanto, a ACV influencia diretamente na escolha dos materiais, identificando aqueles mais alinhados ao conceito da obra e à proposta de eficiência, os menos danosos à saúde dos futuros usuários e também os mais ecológicos. Já na etapa de projeto e comercialização, ela recomenda a compra dos materiais escolhidos na fase anterior, pois influi sobre o nível de informação entre compradores e vendedores, ampliando o poder de barganha entre ambos.

Na etapa de execução e comercialização, por sua vez, o uso de materiais sustentáveis indicados na ACV imprime à obra caráter ecológico, além de contribuir com o processo de certificação e agregar valor de mercado ao empreendimento. O mesmo ocorre na fase de uso, operação e manutenção, quando as instalações são concluídas, e os equipamentos, utilizados.

Aqui, vale ressaltar: treinar os usuários para o correto uso e gerenciamento dos recursos que compõem a obra é um passo imprescindível à otimização do projeto, na medida em que garante a totalidade de benefícios relacionados à eficiência, salubridade e boa qualidade do ar interno, entre outros.

No Brasil, uma equipe formada por profissionais da Escola Politécnica da USP (Poli-USP), da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e do CBCS adaptou a ferramenta de ACV ao contexto do país, na tentativa de simplificar e expandir sua utilização. Desse esforço, nasceu a ACV modular (ACV-m), voltada para a construção sustentável e a superação da carência de informações sobre os impactos ambientais dos produtos usados nos empreendimentos.

A ideia é aplicar a metodologia da ACV de modo reduzido, com um processo de levantamento de informações mais prático, composto por cinco temas básicos: energia, água, matérias-primas, resíduos e emissão de CO2.

Ao criar indicadores para materiais, produtos e componentes e registrar/difundir as vantagens da escolha pelos mais sustentáveis, a ACV-m amplia não apenas a consciência entre as empresas do setor, mas também a dos fornecedores, incentivando-os a aprimorar as opções existentes e criar novos produtos e soluções.

A 3M, por exemplo, dispõe de uma política específica para eles, um processo formal que estabelece critérios de avaliação e fundamenta sua estratégia de seleção e retenção de fornecedores de produtos e serviços. As companhias também podem atuar com uma estratégia de Gerenciamento do Ciclo de Vida, retirando o foco dos processos de fabricação e passando a considerar o ciclo completo das inovações, a fim de controlar seus efeitos no meio ambiente, na saúde, na segurança e no consumo de energia.

A inovação, contudo, não depende exclusivamente das empresas. Cabe aos governos também apresentar iniciativas e instrumentos políticos para auxiliar nos desafios da construção sustentável.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), os fatores econômicos e as forças de mercado são insuficientes para melhorar o desempenho ambiental dos materiais e processos, tendo as políticas públicas papel importante no estímulo à demanda por equipamentos sustentáveis, até mesmo para assegurar  a competitividade das novas tecnologias.

Um bom planejamento para fundamentar a gestão das obras reduz os riscos empresariais para as incorporadoras, construtoras e operadoras, pois a escolha e a implantação de materiais mais eficientes elevam a qualidade de vida dos usuários e reduzem os gastos do uso e da manutenção dos imóveis.

É preciso considerar ainda que os materiais têm vida útil e, após sua aplicação nos empreendimentos, podem vir a se transformar em resíduos. Uma construção sustentável dependerá da habilidade dos profissionais de selecionar os produtos mais adequados e os fornecedores com maior responsabilidade ambiental e social.

Nas entrevistas a seguir, Clarice Degani, assessora técnica da vice-presidência de Sustentabilidade do Secovi-SP, e David Green, gerente de Sustentabilidade da BASF Corporation, discutem a importância de se inovar em processos e produtos para a sustentabilidade do setor da construção.

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