O que saúde tem a ver com sustentabilidade?

Há alguns anos, o Observatório de Tendências em Sustentabilidade, iniciativa da Ideia Sustentável, elaborou um importante estudo sobre os desafios de saúde e sustentabilidade. E ao atuar recentemente no planejamento estratégico para um importante hospital brasileiro, tive a grata oportunidade de verificar quão atual esse estudo permanece, apesar de relativamente desconhecido do grande público.

Sua solidez se deve, obviamente, à metodologia e à consistência das fontes. Para elaborar os 7 Desafios de Saúde e Sustentabilidade, foram contatados 43 organizações internacionais, 27 organizações nacionais, 24 especialistas nacionais e 41 especialistas internacionais. Além disso, o estudo tomou como base cerca de 60 fontes — entre livros, pesquisas e conferências —, das quais recolhemos os dados que contextualizam cada um dos desafios.

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idoso passeando de mãos dadas com uma garotinha

Mas o que saúde tem a ver com sustentabilidade?

A resposta é: tudo! Embora a relação não se apresente tão óbvia à primeira vista.

Em reforço à minha afirmação, reproduzo aqui o que ouvi, em almoço realizado no Hospital Sírio-Libanês, de Gro Brundtland, ex-primeira ministra da Noruega e coordenadora do famoso relatório Nosso Futuro Comum (1987) – o primeiro documento da ONU a cunhar a expressão desenvolvimento sustentável:

“Se desenvolvimento sustentável é aquele que garante as melhores condições de vida das gerações futuras, ele simplesmente não acontecerá se nossos netos e bisnetos tiverem sua saúde prejudicada por efeitos da escassez de recursos e das mudanças climáticas.”

Não é nenhuma novidade que o atual modelo de desenvolvimento econômico, o chamado business as usual, emite mais gases de efeito estufa do que a Terra é capaz de absorver, degrada os ambientes naturais em ritmo acelerado, lança poluentes tóxicos no ar, desgasta a fertilidade do solo e reduz a qualidade e disponibilidade de água, entre outras graves externalidades que aumentam exponencialmente o risco de doenças e os prejuízos à qualidade de vida das pessoas.

Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que as mudanças climáticas impactam de 20 a 30 vezes mais os países em desenvolvimento do que os desenvolvidos. E esse dilema do aquecimento global é ainda mais preocupante se considerarmos que um quarto da população global – de 7 bilhões de pessoas – compõe-se de indivíduos muito pobres, exatamente aqueles que têm mais dificuldade de acesso a saneamento básico, água potável e saúde pública.

Por estes motivos, a ONU vem atuando junto aos governos e empresas para buscar alternativas que diminuam esse impacto. Tanto que lançou, em 2012, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, sendo um deles – o número 3 – focado especificamente em saúde e bem-estar.

A saúde das pessoas depende, portanto, da saúde do planeta. E mais:

  • – pressupõe não apenas a dimensão física, mas também a ambiental, a mental e a emocional;
  • – decorre de uma maior interação do homem com a natureza e seus elementos;
  • – envolve responsabilidades compartilhadas em uma cadeia de valor muito fragmentada;
  • – impõe o desafio de melhorar o acesso, de reduzir custos, de incluir pessoas;
  • – implica uma nova visão de valor compartilhado entre os diferentes players do sistema de saúde, e não — como afirma Ana Maria Malik, especialista da FGV  — uma “competição de soma zero, em que todos lutam para dividir o valor gerado, e não para aumentá-lo”.

Em um tempo marcado pela interdependência, as escolhas individuais, políticas públicas e decisões empresariais impactam não apenas a saúde do indivíduo, mas também das sociedades e do planeta.

Os desafios de saúde e sustentabilidade

A seguir, listo os sete desafios apontados pelo estudo da Ideia Sustentável.

  • Desafio 1 – Responsabilidade individual: da posição de objeto para a de sujeito, cada vez mais pessoas deverão assumir as rédeas de sua própria saúde—toda mudança no sentido da sustentabilidade começa dentro de cada indivíduo a partir de uma mudança de atitude.
  • Desafio 2 – Visão integral da saúde: substituir uma abordagem fragmentada do paciente por um olhar sistêmico que promova o bem estar do indivíduo, conecte-o à natureza e reduza o uso de serviço convencionais de saúde.
  • Desafio 3 – Meio ambiente como causa e cura de doenças: cuidar para que os fatores ambientais, que estão na origem de alguns problemas de saúde, contribuam para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
  • Desafio 4 – Saúde como estratégia de sustentabilidade das empresas: promover um estilo de vida saudável dos colaboradores como vantagem competitiva integrada ao planejamento do negócio.
  • Desafio 5 – Gestão de impactos: gerir os impactos socioambientais nos ciclos de produção dos serviços de saúde resultando em benefícios para a saúde das pessoas; em ganhos ecológicos em razão do uso correto de recursos e do adequado descarte de resíduos; e ganhos econômicos, devido à maior eficiência em processos, à economia de custos e ao aumento do interesse de investidores.
  • Desafio 6 – Tecnologias mais acessíveis: ampliar o acesso a ferramentas, processos e conhecimentos que fomentem a prevenção de doenças e agilizem diagnósticos e tratamentos, pode contribuir para um sistema de saúde economicamente viável, ambientalmente correto e socialmente justo.
  • Desafio 7 – Novos produtos e serviços: aumentar a oferta de inovações voltadas à saúde, com cada vez mais produtos e serviços focados em melhoria da qualidade de vida, vai gerar impactos positivos tanto para o bem estar de indivíduos quanto para o meio ambiente.

Para ter acesso ao estudo completo da Ideia Sustentável, acesse: ESTUDO NEXT –  7 desafios de saúde e sustentabilidade.

Palestra sobre saúde e sustentabilidade

Ricardo Voltolini é escritor, palestrante, CEO da Ideia Sustentável e idealizador da Plataforma Liderança com Valores. É autor de nove livros, entre os quais Conversas com Líderes Sustentáveis (SENAC-SP/2011) e Sustentabilidade como Fonte de Inovação (Ideia Sustentável/2016). 




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