ALERTA: Sustentabilidade precisa olhar para o futuro – novo artigo de Juliana Zellauy

Por: Juliana Zellauy

Quando tratamos de sustentabilidade, da perenidade de um sistema ou organização, parece óbvio que olhar para o futuro faça parte da estratégia. No entanto, é patente que a maioria das instituições atuais simplesmente não tem considerado o futuro em suas decisões.

Em geral as organizações tem observado e tratado dos assuntos do “aqui e agora”, nos melhores casos, utilizando como base para as suas decisões as práticas reconhecidas e já consolidadas de outras instituições. No entanto, a verdade é que, apesar deste olhar ser importante para balizar estratégias, ele também é insuficiente quando considerado isoladamente.

Sustentabilidade pressupõe um olhar para o futuro, logo, para tendências, identificação e gestão de riscos e oportunidades futuras. Assim, não basta olhar apenas para o passado ou para presente, mas, para garantir a sustentabilidade da organização no longo prazo, é preciso estar atento, acompanhar as possíveis alterações de cenário e preparar-se para as mudanças antes que elas possam causar impactos negativos na organização.

Desta forma, três iniciativas são essenciais quando se pretende garantir a perenidade organizacional: 1. Manter um olhar vigilante para as tendências locais e mundiais; 2. Desenvolver e manter uma gestão de riscos não apenas econômicos, mas sociais e ambientais. 3. Ter um processo claro e bem estabelecido para detecção e identificação de oportunidades e inovações.

Assim, o primeiro ponto fundamental que muitas instituições tem ignorado é a influência das Megatendências em sua atuação. As megatendências mundiais descritas inicialmente por John Naisbitt em 1982, apontam comportamentos, necessidades ou demandas que trazem consigo mudanças estruturais significativas que impactam a sociedade humana como um todo mas acarreta também em profundas alterações locais. Desde 1982 as megatendências são estudadas e atualizadas constantemente por especialistas do mundo todo, mas, em geral, as mais relevantes da atualidade e apontadas de maneira consistente por fontes diversas são:

– Eficiência energética e demanda cada vez maior por matriz diversificada e fontes renováveis: não apenas em construções residenciais e comerciais, mas no transporte, climatização, iluminação, é e será demandada uma eficiência cada vez mais intensa de tudo o que requer energia para o seu funcionamento, bem como a demanda pela descarbonização, diversificação da matriz e o uso de fontes renováveis de energia. De acordo com a pesquisa Deloitte´s 2017 Resources Study, 50% das empresas entrevistadas afirmaram que estão trabalhando para a aquisição de eletricidade de fontes renováveis, enquanto 37% dos consumidores residenciais identificaram como questões fundamentais “aumentar o uso de energia solar” e 25% “aumentar o uso de energia eólica”. Além disso, governos do mundo todo tem feito uma pressão significativa para tornar suas matrizes mais limpas.

– Mudanças Climáticas: exceto alguns setores que tem sentido mais diretamente o impacto das mudanças climáticas nos seus negócios, como os de Energia e Saneamento por exemplo, os demais tem dado pouca atenção aos enormes riscos e oportunidades geradas pelas mudanças climáticas, bem como realizado poucas ou nenhuma ação para mitigação ou adaptação a elas. Uso de softwares de modelagem de cenários e consequências climáticas, precificação de carbono para aprovação ou reprovação de projetos e planos de resposta a alterações extremas do clima, são algumas das práticas já encampadas por instituições de ponta, inclusive da iniciativa privada, globalmente.

– Mobilidade Urbana: puxada pelas tendências de aumento do consumo colaborativo/compartilhado, leis que desestimulam o uso dos carros, custos cada vez maiores para manter um veículo particular, aumento dos trabalhos home-office, compras online e entregas à domicílio, são elementos que contribuem para alterar profundamente a mobilidade urbana como a conhecemos hoje.

– Escassez de recursos: se por um lado temos a finitude de recursos naturais cruciais para a nossa sobrevivência, ao mesmo tempo o atual uso dos mesmos é muito superior ao que o planeta consegue repor. De acordo com dados da Global Footprint Foundation, em 2017 a Terra precisaria ser 70% maior do que é atualmente para suprir as necessidades das população atual. Considerar este fato na gestão de qualquer instituição é fundamental para a sua sobrevivência.

– Mudanças sociais e demográficas: tais como, crescimento e envelhecimento populacional, intensificação de movimentos migratórios devido à conflitos, fatores ambientais, políticos e/ou econômicos, intensificação da urbanização e aumento da classe média global, são tendências que trazem consigo mudanças estruturais, de comportamento, estilo de vida e consumo significativas.

– Aceleração do desenvolvimento tecnológico e aplicações cada vez mais integradas: verifica-se um aumento expressivo e consistente no número de patentes mundiais, que passou de cerca de 900 mil em 1985 para 1 milhão e 700 mil em 2005, conforme informações do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) disponíveis em Megatendências Mundiais 2030. Além disso, tem ocorrido a integração cada vez mais intensa de campos diversos como biologia, física, informática, medicina, telecomunicações, química, entre outros, gerando um desenvolvimento tecnológico inovador em áreas como a nano e a biotecnologia. Também aqui se verifica o uso cada vez mais acentuado da telemedicina, automação e robótica, internet das coisas e do ensino e do trabalho à distância.

– Crescimento da demanda global por alimentos: De acordo com dados da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) projeta-se um crescimento na demanda de alimentos de 35% até 2030, impulsionado pelo aumento populacional e o crescimento econômico. A tendência de escassez de água e a influência das mudanças climáticas são pontos importantes para abordar a questão apropriadamente.

– Aumento da pressão sobre os recursos hídricos: Em seu relatório de 2014 Water and Energy a United Nations Water estima um aumento de 50% na demanda água até 2030, causado pelo aumento populacional e da demanda por alimentos, crescimento econômico e mudanças no clima, podendo gerar tensão, conflitos diversos e migração se não tratada corretamente.

Ao mesmo tempo que trazem riscos, as megatendências carregam consigo inúmeras oportunidades de atuação, soluções e novos mercados. As organizações que estiverem atentas à estes movimentos e buscarem o atendimento destas questões urgentes enfrentadas pela humanidade largarão na frente e terão mais tempo não apenas para se adaptar, mas como para prosperar abundantemente neste novo mundo.

Em segundo lugar, fazer não apenas o mapeamento, mas o gerenciamento de riscos econômicos e socioambientais é uma ferramenta fundamental para melhorar a qualidade das tomadas de decisão, evitar surpresas indesejadas, melhorar o seu planejamento, performance e efetividade das ações, manter ou aprimorar a reputação organizacional, reduzir drasticamente potenciais custos, aumentar a eficiência, melhorar o relacionamento com os stakeholders e identificar oportunidades de atuação e de geração de diferencial competitivo.

Mais do que simplesmente mapear os riscos, o processo de gestão dos mesmos busca organizar e planejar os recursos humanos e materiais da empresa de forma a reduzir ao mínimo possível os impactos das ameaças para a organização. Para tanto, utiliza um conjunto de técnicas que minimizam os efeitos dos danos acidentais tratando os riscos que possam causar danos ao projeto, às pessoas, ao meio ambiente, à sociedade e à imagem institucional.

Neste sentido, empresas de referência em Sustentabilidade e Gestão de Riscos (GR), como a francesa e gigante do saneamento Suez Environment possui um sistema integrado de GR que inclui uma série de temas ligados a sustentabilidade como crescimento populacional, aspirações da sociedade e mudanças climáticas. Seu sistema integrado tem ainda como objetivo fornecer uma visão geral do portfolio de riscos usando métodos e ferramentas comuns a todas as subsidiárias e divisões funcionais, sendo categorizados (em estratégicos, financeiros ou operacionais), avaliados (em termos de importância e freqüência) e quantificados. Para colocar as informações na prática do seu dia-a-dia, a empresa estabelece ainda planos de ação periódicos nos vários níveis da empresa. Além disso, também seu programa de GR inclui a definição dos principais impactos de cada um deles e a verificação da situação atual do risco em relação ao ano anterior (se crescente, decrescente ou estável), bem como ações para seu gerenciamento e mitigação.

Finalmente, em relação à identificação de oportunidades e inovações, é preciso ter um processo claro e enraizado culturalmente para a identificação das mesmas, podendo ser realizado juntamente com a gestão de riscos, visto que riscos e oportunidades são muitas vezes faces opostas da mesma moeda. Além do seu mapeamento, as alternativas para colocar isso em prática vão desde a alocação de recursos específicos para este tipo de investimento, até departamentos consolidados, grupos de trabalho, definição de planos de ação e indicadores específicos, passando pela manutenção do diálogo com stakeholders diversos para a co-criação de soluções para desafios importantes, até o conceito de “intraempreendedores”, onde a organização estimula e investe nos funcionários e em suas potenciais startups para o desenvolvimento de soluções que tenham um impacto positivo para a a instituição e para a sociedade.

Assim, mapear e avaliar como as tendências mundiais e locais afetam ou afetarão a sua atuação, quais são os riscos e as oportunidades existentes e desenvolver medidas para mitigá-las ou aproveitá-las, mas, acima de tudo, ter a coragem para implementá-las, é essencial a toda organização que tem o foco não no fim do mês, mas no fim do mindset de “fim de mês”. Com isso, possibilita-se o alcance de algo muito mais significativo: ser mutável, mas também ser perene e alinhado com as necessidades atuais, de forma a deixar um legado verdadeiramente positivo para o mundo.




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