Artigos – Os desafios atuais da Responsabilidade Social Empresarial no Brasil

Os desafios atuais da Responsabilidade Social Empresarial no Brasil


Responsabilidade social empresarial (RSE) é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os seus públicos e pelo estabelecimento de metas empresariais compatíveis com o desenvolvimento sustentável (DS) da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais.

A razão primeira para compreender esse conceito, definido pelo Instituto Ethos, é a descaracterização da idéia de responsabilidade social empresarial como filantropia ou ação social. O verdadeiro significado estende a responsabilidade da empresa aos atores que se situam ao longo de toda a cadeia de valor e associa a responsabilidade social empresarial a conceitos como ética, governança corporativa, cidadania empresarial e gestão estratégica, além de ecologia. Engloba um conjunto multidisciplinar que favorece o alcance do ideal do DS – aquele “que busca atender as necessidades da geração presente sem comprometer a capacidade das futuras de atender as suas”, como definiu o relatório da Conferência Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento, Nosso futuro comum, em 1987.

O desafio de ter uma visão mais ampla de si própria, de seus diversos públicos e da sociedade tem sido enfrentado por muitas empresas brasileiras, que hoje já conseguem medir o grau de responsabilidade que aplicam em relação a seu público interno, à comunidade e à sociedade de modo geral. Os Indicadores de RSE e o modelo de Balanço Social do Ethos, além de ferramentas desenvolvidas por instituições como Ibase, GRI e ISO, revelaram-se importantes para orientar as organizações de qualquer porte à aplicação das práticas de responsabilidade social.

As empresas são poderosos agentes de transformação e que ao adotarem um comportamento socialmente responsável podem construir, com o Estado e a sociedade civil, um país e um mundo melhores, abrir perspectivas de maior sucesso empresarial, tornar-se mais eficientes e capazes de influenciar políticas públicas que favoreçam cidadãos e comunidades.

Não são poucos os desafios para que se chegue a um patamar razoável de satisfação. A RSE implica que a melhora da performance da empresa depende não apenas dos serviços prestados, dos produtos vendidos e do lucro auferido, mas também do impacto sobre o bem-estar humano. E se acreditamos que num futuro não muito distante as organizações bem-sucedidas serão aquelas comprometidas com a sustentabilidade em todos os seus aspectos, não podemos ignorar a realidade do país na qual se inserem, onde grandes oportunidades convivem com profundas desigualdades.

Cerca de um terço da população brasileira convive com a insegurança alimentar no país que, em 2004, foi o maior exportador mundial de carne e soja e teve produção recorde de grãos. A concentração de renda mantém na pobreza mais de 50 milhões de pessoas.

É urgente que o crescimento supere a profunda desigualdade social e, para isso, a atuação das organizações é fundamental. No Brasil, hoje, o grande número de empresas que aplicam regularmente os Indicadores Ethos de Responsabilidade Social (cerca de 400) e publicam Balanços Sociais (cerca de 200), além das que já utilizam as diretrizes do Global Reporting Initiative (GRI), reflete seu compromisso crescente com essa demanda da sociedade.

Iniciativas de organizações internacionais, como o Banco Mundial, Global Compact e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), e locais, como a criação de indicadores de responsabilidade social da Bovespa e a incorporação de parâmetros de RSE pelos bancos em suas análises de investimentos fomentam o desenvolvimento de estruturas de governança corporativa. A discussão e a prática dos oito Objetivos do Milênio começam a entrar na pauta de muitas organizações.

Mas é preciso mais. A responsabilidade social é uma nova cultura de gestão empresarial que emerge no contexto dos desafios impostos pelo desenvolvimento sustentável. Desenvolver a regulação de iniciativas que estimulem empresas que têm adotado estratégias de RSE é um dos aspectos importantes na esfera governamental. Outros são possibilitar que ações para o desenvolvimento sustentável possam inspirar políticas públicas; possibilitar ações de redirecionamento fiscal em projetos de inclusão social e sustentabilidade; disseminar políticas sociais; criar mecanismos de monitoramento de RSE e desenvolvimento sustentável em conjunto com a sociedade civil; criar o Fórum Nacional de Responsabilidade Social e Desenvolvimento Sustentável; estimular a criação de um conselho e órgãos técnicos que dêem suporte científico às iniciativas de RSE e desenvolvimento sustentável; disseminar nas universidades programas de capacitação em gestão socialmente responsável; reforçar os acordos e as decisões das conferências multilaterais, esforçando-se para implementá-los.

A mobilização da sociedade brasileira em ações como a construção de 10 mil cisternas no sertão nordestino pela Febrabam e ASA mostra como a RSE pode produzir políticas públicas e acelerar a caminhada rumo às Metas do Milênio.

Expandir a RSE como ferramenta concreta para uma referência de um modelo econômico sustentável significa avançar nos métodos, instrumentos, indicadores e processos de capacitação que possibilitem a internalização de nova cultura gerencial revestida de máxima transparência e orientada por sólidos princípios éticos.

Nesse contexto nasceu o UniEthos, como uma inovação do Instituto Ethos em resposta ao crescimento do movimento de RS e às novas demandas que ele tem gerado. Voltado para a capacitação, pesquisa e produção de conhecimento, o UniEthos atua de forma complementar ao Instituto Ethos, com ações e programas próprios e uma intersecção de interesses da gestão e disseminação de conhecimento relativo à responsabilidade social empresarial.

*Ricardo Young é Presidente Executivo do UniEthos e do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos.




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