Russel Mittermeier

Bandeira verde e amarela pela biodiversidade

Por Cristina Tavelin

Seria o Brasil a primeira superpotência verde do planeta?

Para Russel Mittermeier, possivelmente sim – diante da atuação do país sobre as convenções internacionais e, especialmente, a partir dos resultados esperados da Rio+20.

Presidente da Conservation International (CI) desde 1989, o primatologista e herpetologista (especialista em primatas e anfíbios) foi escolhido pela revista Time, em 1998, como um dos eco-heróis do planeta.

Em conferência no Instituto de Estudos Avançados da USP, o especialista destacou o fato de o Brasil ser responsável por 70% das áreas mundiais que passaram a ser protegidas nos últimos 8 anos, e a importância de lideranças em todos os setores sociais para o avanço de uma economia pautada pela valorização da biodiversidade.

Ideia Sustentável: Qual a importância da participação do setor privado na conservação da biodiversidade?

Russell Mitermeier: Obviamente o setor privado comanda vários aspectos da vida na sociedade atual. Quando nossa organização nasceu, há 22 anos, o identificamos como um parceiro necessário. Não se deve apenas brigar, ir contra as empresas, mas sim formar parcerias e transformar as estratégias de atuação dos negócios. O Center for Environmental Leadership in Business, criado pelo CI, trabalha exatamente essa questão. Grande parte de nosso conselho é composta por empresários, muitas vezes CEOs, líderes de empresas, e não os deixamos integrar esse grupo sem um compromisso de mudar o modelo clássico de negócios para outro mais verde. No Brasil, temos trabalhado fortemente com empresas como Vale, Walmart, Alcoa e Coca-Cola. A Monsanto, uma companhia com histórico ambiental polêmico, mudou sua missão para incluir aspectos como conservação e bem-estar humano. Há três anos estamos juntos e conseguimos fazer com que um dos municípios com maior índice de desmatamento no Brasil, Luiz Eduardo Magalhães (BA), adotasse uma política estabelecendo 5% de Áreas de Preservação Permanente na região.

IS: Poderia citar outros exemplos de empresas que têm trabalhado bem o  tema da biodiversidade?

RM: Os projetos que temos desenvolvido com a Vale realmente mostram uma valoração da biodiversidade e o comprometimento da empresa com a conservação em áreas de preservação. Quando se extrai a bauxita, várias camadas de solo são retiradas. A companhia está fazendo essa reposição e seu reflorestamento, e também retirando espécies ameaçadas desses locais, levando-as para outras áreas adequadas. Outro modelo de nível global é o Walmart, que assumiu compromissos realmente importantes em energia e transporte. E quando uma companhia desse porte faz algo positivo, muitas outras se veem obrigadas a seguir o mesmo exemplo, porque vendem seus produtos a eles. Robson Walton (presidente do conselho do Walmart) é um indivíduo altamente interessado pela biodiversidade, creio que já viajou mais de 12 países para ver de perto os programas incentivados pela empresa. É importante que as lideranças mostrem esse tipo de atitude, pois muitas vezes os líderes de nível apenas gerencial têm um poder de decisão limitado.

IS: Como o senhor avalia a aceitação e o entendimento da expressão “economia verde”?

RM: Países como o Brasil – que possuem um forte histórico de conservação ambiental – devem ajudar a definir esse termo. O próprio conceito de desenvolvimento sustentável ainda é algo muito vago. Com a economia verde, temos a oportunidade de utilizar o meio ambiente, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos como base para o desenvolvimento econômico. Nos Estados Unidos, os republicanos têm uma má impressão de qualquer coisa relacionada ao “verde”. Sempre haverá resistência. Em alguns lugares, acreditam que o movimento diz respeito a um neoimperialismo. Pelo grau de investimentos em áreas protegidas, por exemplo, é um milagre que muitos países consigam manter parte delas preservadas. Esse tema nunca foi prioritário para a comunidade global – investimos mais em um dia de guerra no Afeganistão do que em áreas protegidas no mundo todo no período de um ano. Agora é o momento de desenvolvermos novas estratégias para usarmos bem os recursos naturais. Sempre há um país que assume uma posição de liderança, e esta é a vez do Brasil. Se não começar a agir, outras nações também não vão se mover, especialmente as dos BRICS.

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