Biodiversidade, serviços ecossistêmicos e as empresas no Brasil

Especial 20 anos de Ideia Sustentável: Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos

Por Claudio Pádua

 

O conceito sobre a importância dos recursos naturais disponíveis na Terra foi se alterando com o decorrer dos séculos. Da condição inerente de que o homem faz parte da biodiversidade e que depende dela para a sua sobrevivência, uniu-se o advento do capitalismo, quando a natureza passou, então, a ser incorporada de forma sistemática também no processo econômico.

Nesse sentido, a natureza tornou-se o valor primordial da economia, o primeiro bem passível de ser apropriado pelo homem. Ou seja, é a primeira fonte de capital, motivo pelo qual os recursos naturais são, inúmeras vezes, utilizados com o objetivo de gerar apenas riqueza.

Com a ampla utilização desses recursos, associada a outros fatores, como o crescimento exponencial da população humana e o consumo de bens e serviços, a biodiversidade sofre desfalques muitas vezes impossíveis de serem remediados. Essa relação só ficou mais clara para a sociedade mundial com a publicação do relatório Brundtland, Nosso Futuro Comum, em 1987, quando uma comissão estabelecida pelas Nações Unidas apontou para a incompatibilidade entre desenvolvimento sustentável e os padrões de produção e consumo vigentes, propondo a utilização de um novo modelo de desenvolvimento.

Como uma consequência dessa tomada de consciência, realizou-se a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), conhecida também como ECO-92, Rio-92, Cúpula ou Cimeira da Terra, em junho de 1992, no Rio de Janeiro. Mais de cem chefes de Estado reuniram-se para discussões ambientais que deram origem a documentos e duas convenções de enorme importância: a Convenção de Diversidade Biológica (CDB) e a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (CQNUMC).

A CDB estimula a proteção e conservação da biodiversidade, atentando para a repartição, de forma equitativa, dos benefícios oriundos da exploração dos próprios recursos genéticos. Já a Convenção do Clima tem como objetivo a estabilização da concentração de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera em níveis tais que evitem a interferência perigosa com o sistema climático.

Apesar desses esforços no campo das políticas públicas internacionais, o desenvolvimento econômico na maioria dos países continua seguindo padrões insustentáveis, que estimulam cada vez mais o alto consumo, contribuindo para o desequilíbrio e provável colapso social, econômico e natural.

Esse modelo tem sido amplamente questionado e coloca lideranças de todo o mundo frente ao grande desafio de encontrar meios de manter uma economia sadia, gerando cada vez menos impactos socioambientais. As políticas públicas e os diversos acordos entre países em prol do desenvolvimento sustentável, entretanto, não têm respondido a esse desafio.

Por outro lado, nos últimos anos, o que vimos foi um movimento empresarial crescente na adesão aos preceitos do desenvolvimento sustentável, para tentar atender às novas demandas pela sustentabilidade. Isso ficou ainda mais óbvio durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, em 2012.

Nessa cúpula, os representantes dos países davam uma demonstração inequívoca de falta de compromisso com a sustentabilidade, e a ONU não conseguia assegurar um processo de governança global sobre o assunto. Enquanto isso, o setor empresarial tomou o tema a sério em suas próprias mãos ao realizar o Fórum de Sustentabilidade Corporativa, com a presença de cerca de 1,5 mil empresários.

Algumas de nossas experiências com o setor mostram que essa tendência de mudanças pelo mundo empresarial tem crescido tanto no campo da biodiversidade como no das mudanças climáticas e nas interfaces entre os dois temas. Isso tem ficado claro no IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, bem como na Arvorar (nosso braço empresarial), devido a um crescente número de ações e projetos apresentados por inúmeras companhias, propondo mudanças sérias e profundas na forma como se relacionam com as questões climáticas, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos.

No campo das mudanças climáticas, empresas como a Natura Cosméticos, por exemplo, têm trabalhado conosco em programas de reflorestamento para mitigação de suas emissões de gases de efeito estufa. Já no setor da biodiversidade, dois projetos recentes destacam-se. O primeiro está sendo desenvolvido em parceria com a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e, o segundo, com a Danone do Brasil, para avaliar a cadeia de produção de uma de suas mais importantes marcas, o Danoninho.

A pergunta central, nesses projetos, é o que acontecerá com o futuro dos negócios em termos de serviços prestados pela biodiversidade (regulação climática e hídrica, diversidade de flora e fauna, fertilidade dos solos e ciclagem de nutrientes, belezas cênicas e outros) no caso de continuarem a utilizar as mesmas práticas agrícolas e pastoris atuais nos seus processos. Uma preocupação pertinente tanto para a conservação ambiental como para a sobrevivência dos negócios.

Para responder a essas perguntas, estamos realizando uma série de pesquisas que envolvem desde modelos de atuação desenvolvidos pelo World Resource Institute (WRI) até modernas tecnologias, como o Biomonitoring 3.0, que usa códigos de DNA para avaliar os serviços ecossistêmicos.

Por meio dessas técnicas, é possível medir a biodiversidade do solo e da água de forma rápida e massiva, e compará-la no tempo e no espaço. O objetivo é adequar esses levantamentos às atividades empresarias para buscar um equilíbrio sustentável na produção.

Além desses projetos, temos participado de comitês de sustentabilidade e conselhos de empresas de grande importância e projeção internacional, como é o caso de Biofílica, Fibria e Danone. Nesses comitês, que funcionam como assessoria aos conselhos empresariais, as decisões são sérias e detêm nível de poder equivalente às demais resoluções corporativas. Isso tem aumentado também o sucesso empresarial, com a redução de conflitos com as comunidades do entorno das operações e a melhoria na imagem institucional.

Essas e outras mudanças das quais temos participado, principalmente acompanhando as movimentações do mundo empresarial, nos levam a um otimismo (ainda que moderado) em relação ao futuro. Sustentabilidade precisa mais e mais estar no centro das atividades econômicas. Somente dessa forma conseguiremos dar o tão necessário salto do século XIX ao século XXI em várias regiões do país, passando a desenvolver uma economia de baixo carbono e de uso sustentável da biodiversidade.

Muitas empresas do Brasil e do exterior já compreenderam isso, mas é preciso que a grande maioria o faça. Somente assim poderemos verdadeiramente deixar um legado social e ambiental positivo na Terra; e a nossa espécie poderá ser merecedora da sua própria existência.

Claudio Valladares Pádua é reitor da ESCAS (Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade) e vice-presidente do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas.




Compartilhar:
Tags:

 

twitter

Parceiros