Cheque especial e sustentabilidade estratégica

Por Aileen Ionescu-Somers

A humanidade vive atualmente no “cheque especial”, segundo o Índice Planeta Vivo (Living Planet Index, LPI), um indicador do estado da biodiversidade biológica global. Esse ambicioso projeto, que existe desde 1997, é um esforço colaborativo entre a ONG ambiental WWF e a Sociedade Zoológica de Londres. O LPI nos mostra que, para proporcionar o estilo de vida de consumo americano atual a cada indivíduo no planeta que o aspira (e são muitos!), seriam necessários recursos de cerca de cinco planetas. Os europeus se saíram um pouco melhor, sendo necessários apenas três planetas para atender seu consumo. Infelizmente, só temos um. Apesar do recente pouso sobre Marte do robô Curiosity, a viabilização de vida em outro lugar da galáxia não passa de um sonho. Enquanto isso, o LPI nos avisa: estamos degradando nossos ecossistemas naturais a uma taxa sem precedentes na história humana.

Talvez você esteja se perguntando: como chegamos a esse ponto? Bem, como se pode imaginar, a resposta não é nada complicada. A demografia crescente – uma grande preocupação global – colocará 50% a mais de pessoas no mundo, até 2050, resultando em 9,2 bilhões até a estabilização populacional. Junte-se as consequências dos impactos das alterações climáticas e veremos que esses e outros fatores estão pressionando os recursos naturais como nunca.

Com o aumento da riqueza, as pessoas consomem mais calorias e, com isso, há um aumento do consumo de proteínas na forma de carne e laticínios. O LPI tem projetado vários cenários em que combina a previsão de se ter energia 95% renovável, até 2050 (algo extremamente otimista), com diferentes cenários de dietas médias globais.

Vejamos Itália e Malásia, por exemplo. A dieta da Malásia é composta de 12% de carne e de produtos lácteos, contra 21% dos mesmos alimentos na dieta italiana. Se optássemos por uma dieta italiana (um impacto já relativamente baixo), precisaríamos dos recursos de dois planetas. Se adotássemos a dieta típica da Malásia (impacto bastante baixo), seriam apenas 1,3. A conclusão dessa rápida análise é que não importa qual alimentação adotamos nem o quão bom é introduzir energia renovável: seremos muitos para um planeta poder sustentar.

No entanto, as diferenças entre a pegada ecológica das dietas da Itália e Malásia – se adotadas como modelo de consumo e multiplicadas em todo o mundo – são dramáticas. A comparação demonstra que a conversão de calorias de origem vegetal para as de base animal é ineficiente, não irá alimentar a população mundial no longo prazo e acabará por minar irreversivelmente os recursos naturais e a capacidade de alimentar futuras gerações.

Não há saída: a humanidade precisa não só tornar as terras existentes mais produtivas como também adotar uma dieta menos dependente da proteína animal. Em um mundo com recursos limitados, uma das principais escolhas que a sociedade terá de enfrentar será entre a quantidade de terras destinadas para a produção de carne e laticínios (incluindo pastagens ou terras para a produção de culturas de alimentos para animais) versus a alocação de terras para produtos à base de plantas para uma dieta mais vegetariana. Isso exigirá uma grande mudança de mentalidade e a introdução de novos sistemas de negócios, muito diferentes daqueles em que baseamos nossa dieta e atividades hoje.

Paralelamente – e aumentando ainda mais a complexidade do desafio –, há problemas significativos em relação à quantidade e à qualidade da água disponível para populações atuais e futuras, agravadas pela mudança climática. Já existem dificuldades em relação ao recurso na Ásia, principalmente na China e Índia. Muitas pessoas não sabem quanto a produção agrícola utiliza de recursos hídricos (75% da disponibilidade anual total). Novamente, há necessidade de uma mudança de paradigma. Devemos rever nossos acordos inflexíveis, ineficientes e desiguais da gestão da água em todo o mundo, especialmente porque muitos dos fornecedores mundiais de água doce estão localizados em bacias e aquíferos nas fronteiras internacionais. A gestão ineficiente e sua garantia futura são uma preocupação urgente e tangível, mas ainda passíveis de serem totalmente resolvidas. Porém, mais uma vez, é claríssima a necessidade de modelos de negócios e mentalidades novos e completamente diferentes.

Tendências globais semelhantes afetam o futuro dos transportes e da mobilidade, como a crescente urbanização, a mudança climática e novas políticas regulatórias, aumentando a escassez dos recursos e os preços dos combustíveis fósseis. E, não menos importante, há a mudança de valores e expectativas de clientes que contam com a mobilidade sustentável como parte de um estilo de vida urbano moderno.

É interessante observar que até mesmo corporações automobilísticas de luxo, como a BMW, têm estudado essas tendências para definir sua estratégia futura.

A empresa desenvolveu novos produtos para a sustentabilidade, que focam a evolução da eficiência dos motores de combustão e tecnologias inovadoras, tornando-a uma referência para todo o setor. No entanto, estuda-se a revolução, ou seja, mudanças sistêmicas. Elas incluem sistemas de transmissão alternativos e prestação de serviços de mobilidade; não apenas a promoção de modelos baseados na propriedade individual de veículos.

O que estamos observando é que as empresas líderes e os acionistas percebem que há uma iminência não só da inovação de produtos e processos mas também da inovação do sistema. A introdução de novos modelos de negócios e mudanças sistêmicas precisa se tornar parte do nosso DNA global, nacional, setorial e pessoal. E, quanto antes, melhor!

Aprendizado principal

Há fatores-chave e tendências que indicam a necessidade de uma discussão sistêmica dentro do debate mais amplo sobre a inovação estratégica para a sustentabilidade. Alguns deles:

– Visão e liderança: atualmente em falta, porém mais evidentes dentre e entre os governos, são necessárias para garantir um futuro sustentável.

– Inovação para a sustentabilidade: tem de ocorrer simultaneamente em diferentes níveis.

– Soluções sistêmicas: existem e estão sendo elaboradas, porém ainda não atingiram seu potencial.

– Integração plena da cadeia de valor: sistemas de circuito fechado e uma economia circular devem fazer parte da agenda e receber atenção, de modo que a “esquizofrenia corporativa” atual seja evitada: há empresas que criam valor em uma parte da cadeia ao mesmo tempo em que o destroem em outra. Por exemplo, companhias alimentícias que abordam a obtenção sustentável, mas não o desperdício de alimentos ou a obesidade.

– Subsídios perversos: por exemplo, do setor agrícola, e outros instrumentos econômicos contraproducentes precisam ser discutidos urgentemente.

– Novas tecnologias, mercados e formas de financiamento: vão contribuir para resolver os desafios, desde que as partes interessadas estejam plenamente a par e informadas da situação e evolução das megatendências e de como a sustentabilidade deve ser incorporada.

– Desfazer mentalidades e paradigmas existentes: importante para promover a inovação estratégica sistêmica.

– Falta de sistemas de incentivos dentro das empresas: deve ser discutida urgentemente.

– Integração entre modelos: será essencial para avançar a renovação sistêmica.

Embora a inovação incremental, de pequenos passos ainda seja extremamente importante – uma vez que passos gigantes estão atualmente em falta –, verdadeiras mudanças transformacionais só virão por meio de um novo paradigma econômico.

Dra. Aileen Ionescu-Somers é diretora do Corporate Sustainability Management Platform (CSM) no IMD (Institute for Management Development), uma iniciativa de aprendizagem para membros corporativos que integra o novo Global Center for Sustainability Leadership.




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