Cinema sustentável – Batalha animada

Por Sérgio Rizzo

Quem considerava que a falta de tradição brasileira na produção de longas-metragens de animação era um fator impeditivo para o desenvolvimento do país nessa área – estratégica no cenário audiovisual contemporâneo – precisou reconsiderar o julgamento, em 2013.

A principal responsável por essa mudança de paradigma foi uma produção quase inteiramente realizada em dois sobrados geminados de São Paulo, durante seis anos: Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi, o marido da diretora Laís Bodanzky – com quem realizou, como roteirista, filmes como Bicho de Sete Cabeças (2001), Chega de Saudade (2008) e As Melhores Coisas da Vida (2010).

Primeiro, o longa – concluído com um orçamento de R$ 4,5 milhões, ínfimo para os padrões internacionais – recebeu o prêmio de melhor filme no principal festival de animação do mundo, em Annecy (França).

Depois, foi pré-selecionado para disputar o Oscar-2014 – o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – em categoria dominada por superproduções norte-americanas que custaram ao menos 50 vezes mais e empregaram um know-how de quase um século. Não é pouca coisa. Quero também chamar a atenção, no entanto, para o fato de que um dos temas-chave do filme tem diretamente a ver com a sustentabilidade.

Dos quatro episódios que estruturam o longa, três recriam eventos históricos. Concebido a partir de elementos da mitologia indígena, o protagonista (dublado por Selton Mello) participa inicialmente de um combate entre índios das etnias tupinambá e tupiniquim, antes da chegada dos europeus.

Depois, saltos no tempo o levam à balaiada, em 1838, no Maranhão, e também ao final dos anos 1960, quando militantes de esquerda combatiam a ditadura militar. É no quarto episódio, ambientado no Rio de Janeiro de 2096, que Uma História de Amor e Fúria mais ousa e incomoda, ao empregar dados do presente para imaginar um futuro sombrio.

Que tal uma cidade sob o controle de milícias, dividida entre os que têm acesso à água potável e os “sem-água”, e um presidente evangélico? “Esse prognóstico é resultado de um diagnóstico”, explicou Bolognesi em entrevista que fiz com ele para a revista Cult. “O aquecimento global era chave de nossas pesquisas sobre o futuro. A água é o primeiro tema das discussões ambientais. Os recursos hidráulicos estão sendo contaminados. Tudo precisará ser filtrado. Essa me pareceu a grande questão no final do século 21.”

Por coincidência, o outro grande longa de animação brasileiro de 2013 – com lançamento nos cinemas previsto para o início de 2014 – faz eco ao mesmo tema: O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, o diretor de Garoto Cósmico (2007).

Em chave poética, o protagonista do filme (que não tem diálogos, apenas música) cai na estrada e nos ajuda, com seus olhos de criança, a ver de outra forma aquilo com que já nos acostumamos – uma sociedade industrial que ainda permanece voltada para o consumo desenfreado dos recursos do planeta e para a exploração do homem pelo homem.

Ao final, O Menino e o Mundo deixa, em forma de recado visual, uma delicada sugestão de caráter metafórico: devemos plantar na infância a árvore que nos fará sombra na velhice.

Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema e professor | www.sergiorizzo.com.br




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