Cinema Sustentável – Criança, público estratégico

Por Sérgio Rizzo

Entre os muitos desafios que o cinema brasileiro precisa enfrentar nas próximas décadas para tornar a atividade sustentável no país, um deles revela o tamanho do atraso de nossas políticas culturais em relação às de outros países: a necessidade imperiosa de estabelecer uma oferta regular – e que seja também de qualidade, evidentemente – de filmes para crianças e adolescentes.

A produção infanto-juvenil brasileira viveu sempre de surtos. Os êxitos de bilheteria nesse segmento de público foram muito localizados, usando como isca figuras populares da TV. Os casos mais notáveis são Os Trapalhões e Xuxa Meneghel. O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (1977), o maior êxito do grupo liderado por Renato Aragão, teve 5,7 milhões de espectadores. Lua de Cristal (1990), o principal sucesso de Xuxa, fez 4,1 milhões de espectadores.

Esses números contrastam de maneira atordoante com o maior êxito infantil do cinema brasileiro em 2012: 31 Minutos – O Filme, com 56,6 mil espectadores. O desempenho foi estatisticamente desprezível em um nicho que respondeu por quatro das 10 maiores bilheterias da última temporada – A Era do Gelo 4, Madagascar 3: Os Procurados, Alvin e os Esquilos e Valente. Juntas, essas superproduções estrangeiras de animação venderam, no Brasil, 22,6 milhões de ingressos – ou cerca de 15,5% do total.

O volume é superior à soma de todos os filmes brasileiros lançados em 2012 (15,5 milhões de ingressos ou 10,6%). Vê-se que não é preciso invocar o futuro para destacar a importância do cinema infanto-juvenil. Na batalha disputada aqui e agora, o setor é um dos mais rentáveis da indústria audiovisual, com receitas adicionais (na forma de produtos de merchandising, repetidas exibições nas TVs paga e aberta, e vendas de DVDs e Blu-rays) que engordam substancialmente a bilheteria obtida nos cinemas.

Além disso, a produção cinematográfica para crianças contribui para a formação de público. Se alguém consome, na infância, exclusivamente filmes estrangeiros, é natural que, ao crescer, continue espectador cativo de filmes estrangeiros. Investimentos na produção infanto-juvenil são estratégicos.

Baseados nessa constatação um tanto elementar, diversos países europeus oferecem incentivos e linhas exclusivas de financiamento para o cinema voltado à infância. A indústria norte-americana já não precisa mais dessa ajuda para ocupar o mercado global. É autossustentável.

No Brasil, contudo, o cenário é desolador. Em fevereiro, por ocasião do lançamento de Tainá – A Origem“, ouvi diversos produtores e especialistas nessa área para uma reportagem do jornal Valor Econômico.  “A questão maior é a não continuidade.

Com isso, não se cria capacidade para abrir espaço no mercado para esse produto”, resumiu a distribuidora e exibidora Patricia Durães, que desenvolve diversos projetos voltados para crianças e escolas. “Temos uma deficiência muito grande em termos de estrutura, know-how e recursos”, lamentou o produtor Pedro Carlos Rovai.

Para ter pequena ideia da importância dada pelo Estado ao tema: o Grupo Técnico de Assessoramento de Elaboração da Política Pública de Audiovisual para a Infância, subordinado à Secretaria do Audiovisual (SAv) do Ministério da Cultura, simplesmente não se reuniu em 2012.

Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema e professor

www.sergiorizzo.com.br




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