Desfazendo o entrelaçamento do carbono

Por John Elkington

 

Ao voar recentemente para a Colômbia, li sobre a história de sua indústria de mineração. Ali, as ameaças ao setor possuem múltiplas formas. Algumas são explosivas: por exemplo, em outubro, a maior produtora de carvão daquele país, a Cerrejón (uma joint venture entre as gigantes da mineração Anglo American, BHP Billiton e Xstrata), sofreu um atentado a bomba em sua linha férrea, descarrilando parcialmente um trem que transportava carvão destinado à exportação.

O incidente, assumido pelas FARC, foi o último de uma série de ataques, objetivando a destruição de oleodutos e gasodutos. Para o comércio mundial de combustíveis fósseis, esses ataques representam pouco mais que alfinetadas. Dias antes, minha cidade natal, Londres, havia ouvido um discurso, esboçando uma ameaça existencial aos combustíveis fósseis em geral — e ao carvão em particular.

Em um acontecimento marcante, o diplomata e economista mexicano José Angel Gurría fez um pronunciamento como secretário-geral da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), mapeando um futuro que deve ter deixado a indústria mundial de carvão tremendo de medo. Sua mensagem: nós precisamos zerar as emissões de dióxido de carbono (a indústria do carvão contribui maciçamente com essas emissões) até a segunda metade do século.

Ele frisou que, “seria difícil imaginar um problema de gerenciamento de risco mais complexo que o decorrente das mudanças climáticas”. Mas também ressaltou o custo crescente dos desastres relacionados ao clima. Por exemplo, em 2011, uma única tempestade, o Furacão Sandy, custou cerca de 75 bilhões de dólares, isto é, 0,5% do PIB dos Estados Unidos. Levará algum tempo para que possamos estimar o custo dos danos causados em novembro, nas Filipinas, pelo tufão Haiyan; mas com mais de 10 mil possíveis mortos e centenas de milhares de desalojados, seu valor será, provavelmente, alto.

A ciência do clima mais recente sugere que tais catástrofes se tornem rotina. O presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) alertou que o mundo precisa agir sobre o aquecimento global, pois somente assim nossa herança às gerações futuras não será “um planeta nojento, estragado e poluído”.

Rajendra Pachauri fez um pronunciamento assim que o tufão Haiyan atingiu as Filipinas com violência. Apesar de afirmar que não é possível culpar o aumento das emissões de carbono por qualquer desastre isolado, ele ressaltou que a elevação da frequência de eventos meteorológicos extremos está totalmente de acordo com as previsões científicas.

Em tom mais positivo, Angel Gurría recordou, em seu discurso de Londres, que o mundo conseguiu, nos últimos anos, administrar muito bem uma outra crise, a financeira. Calcula-se que o custo, somente para a economia dos EUA, tenha sido de 22 trilhões de dólares. O desemprego nos países da OCDE atinge 49 milhões de pessoas, ou cerca de 8% da população ativa -, e é de 16%, em média, para aqueles com menos de 24 anos.

No entanto, “não havia entendimento dos riscos ou eles estavam sendo ignorados”. Ocorre que os riscos da mudança climática são muito maiores, observou Gurría, e agora as cartas podem resultar em um “desastre” planetário.Mas, dando sequência ao discurso, ele disse que se há alguns anos – ou até mesmo meses – antes da chegada da crise tivéssemos perguntado às pessoas que dirigiam o sistema financeiro até o momento do “desastre” se elas estavam confortáveis em comandar com aquele nível de risco, elas teria respondido não.

O ano de 2015 verá a próxima Conferência das Nações Unidas sobre o Clima em Paris e, por isso, os líderes políticos do mundo têm uma janela de oportunidade reduzida para entenderem aquela que corre o risco de ser a maior crise de todas.

O relatório mais recente do IPCC, publicado em 27 de setembro, salienta a ameaça existencial de peças essenciais de nossa economia global — pois o nível atual de aquecimento está fora de qualquer escala já vista em toda a história da civilização.

Então, como vamos enfrentar esse desafio? “Seja qual for o mix de políticas que inventemos”, reiterou Gurría, “ele deverá levar em conta a completa eliminação, na segunda metade do século, das emissões advindas da queima de combustíveis fósseis lançados à atmosfera”.

A nova estratégia da OCDE constitui-se, agora, em zerar as emissões globais. Embora isso possa parecer extremo, cada vez mais as evidências sugerem que nós, realmente, não temos opção.

Qualquer um que se recorde de suas aulas de química, irá se lembrar que o dióxido de carbono é um gás de longa duração. Por exemplo, a partir de uma tonelada de gás emitido, em 2013, mais de 60% ainda estarão presentes na atmosfera pelos próximos 20 anos, e 45%, daqui a 100 anos, em 2113. Parte do dióxido de carbono que emitimos hoje permanecerá na atmosfera por milhares de anos.

Angel Gurría concorda que “zerar as emissões” pode parecer extremo. “Por que não reduzir as emissões apenas? Nossa interferência no ciclo de carbono natural vem ocorrendo há milhares de anos, desde que começamos a converter a terra em alimento e produção de fibras. Mas se quisermos alimentar mais 2 ou 3 bilhões de pessoas e limitar o aumento da temperatura, então não poderemos devorar todo o espaço atmosférico com carbono fóssil.

E isso é exatamente o que estamos fazendo. O dióxido de carbono é o gás de efeito estufa mais importante produzido pelas atividades humanas. Atualmente, emitimos mais de 30 bilhões de toneladas desse gás por ano. A eletricidade e a geração de calor contribuem com 41% desse valor e o transporte, com 22%.”

Ele conclui: “Nós podemos oferecer energia ao mundo sem interferirmos no ciclo do carbono. O fluxo solar que atinge o nosso planeta — e os fluxos secundários que ele cria nos ventos, ondas e chuvas — é estupendamente grande. Há, ainda, o potencial da biomassa e, claro, da energia nuclear, desde que os problemas de segurança relacionados à geração dessa forma de energia e de gestão de resíduos sejam devidamente tratados.”Obviamente, existem outras fontes de gases de efeito estufa. De acordo com Gurría: “Outras emissões antropogênicas vêm da agricultura e da maneira que usamos e alteramos a terra, juntamente com algumas emissões de processo da indústria.” Mas o ponto mais importante aqui é que as emissões relacionadas à energia compõem a maior parte “e elas são as únicas que poderiam, com base nas tecnologias existentes, ser totalmente eliminadas”.

Mas o fato desconfortável é o seguinte: mesmo após mais de 20 anos de crescente preocupação política e experimentação, o mundo ainda está muito longe do tipo de trajetória que nos levaria a zerar as emissões ainda neste século.

E a mudança climática não é, de forma alguma, o único grande problema ligado aos combustíveis fósseis. Na China, por exemplo, estima-se que 1,2 milhão de pessoas morrem prematuramente a cada ano por causa de sua exposição à poluição do ar nas ruas.

E muitas surpresas continuam brotando neste nosso novo século. Darei apenas um exemplo tirado do mundo da energia. Nos últimos anos, a expectativa de que a disponibilidade de combustíveis fósseis iria atingir um pico e cair foi rapidamente foi derrubada pelo boom da produção de gás natural nos Estados Unidos por meio do processo de fracturação hidráulica (fracking).

E o consenso é que essa técnica seja uma tendência que irá provavelmente se espalhar para outras partes do mundo. O gás natural produzido pela fracturação utiliza menos carbono que o carvão, um fato que já está ajudando os EUA a cortar suas emissões de carbono. Mas os combustíveis fósseis baratos podem, também, minar a economia de algumas tecnologias de energia renovável.

Enquanto isso, não menos que 1,2 mil novas centrais elétricas alimentadas a carvão estão em fase de planejamento em diferentes partes do mundo. No entanto, acontecimentos recentes nos EUA e na Europa sugerem que muitas dessas usinas serão fechadas ou nunca sequer construídas.

Nos EUA, a combinação de gás obtido por fracturação e as novas normas de emissão estão diminuindo o apetite por energia obtida pela queima de carvão. Na Europa, as empresas produtoras de energia, como a RWE, estão em crise, pois o crescimento da energia renovável na Alemanha prejudica qualquer favorecimento àquela obtida pela queima de carvão. A OCDE sabe que as indústrias históricas vão resistir às mudanças necessárias – e não apenas os produtores de combustíveis fósseis.

O projeto Asset Owners Disclosure estima que, atualmente, uma média de mais de 55% das carteiras dos fundos de pensão investem em ativos de alto carbono – ou em setores vulneráveis às futuras mudanças climáticas e aos regulamentos associados a isso.

Essa é uma das faces do “entrelaçamento do carbono” que Gurría destacou como um dos principais obstáculos ao progresso político. Como ele explicou, “por todos os lados, há governos que, em nome de seus cidadãos, aceitam muitos riscos para poderem trazer ao mercado seus combustíveis fósseis, objetivando o recebimento de suas parcelas dos rendimentos”.

Os governos da OCDE recebem algo em torno de 200 bilhões de dólares por ano em pagamentos de royalties, taxas e outras receitas. Então isso passa a ser como pedir que viciados faxinem uma indústria farmacêutica.

Duas questões difíceis foram levantadas por Angel Gurría: em primeiro lugar, será que os governos deveriam impor uma moratória sobre as novas centrais elétricas alimentadas a carvão? E, em segundo, será que deveriam obrigar que todas as novas centrais elétricas alimentadas a carvão fossem projetadas de modo a poderem ser guarnecidas com equipamentos (muito caros) de captura e armazenamento de carbono?

Essas propostas podem não ter o mesmo impacto explosivo que uma bomba das FARC para a indústria de mineração da Colômbia, mas, conforme o aquecimento global aumenta a tensão entre os políticos, o carvão parece cada vez mais uma indústria pré-histórica.

Tendo em vista a aproximação do prazo final e crucial de negociações para a Conferência das Partes (COP) da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima) de 2015, a ser realizada em Paris, a pergunta feita por Gurría também questiona “se podemos consolidar os progressos modestos feitos até agora e transformá-los em uma força que nos fará adotar um novo sistema de energia e zerar as emissões; ou se, em vez disso, iremos fazer um acordo escuso por meio do qual os países podem mostrar algumas ações, deixando o ‘entrelaçamento do carbono’ intocado”.

Se quisermos ter sucesso, ele disse, “todos os países devem ser capazes de explicar como suas políticas irão funcionar em uma trajetória que nos leve, na segunda metade deste século, a eliminar as emissões de combustíveis fósseis. Os governos precisam tomar a responsabilidade”.

Em seguida, ele acrescentou, “o objetivo final de zerar as emissões é alcançável, mas isso não será possível se mantivermos as políticas atuais. Tudo dependerá da forma com que cada país irá responder à seguinte pergunta: nosso governo está trabalhando com um mix de políticas que, ao longo do tempo, tenha credibilidade, dada a dimensão da transformação que devemos fazer?”

Assim, todos os países, inclusive o Brasil, devem responder a esta pergunta agora – e dar uma longa e dura olhada no espelho para ver se o que estão fazendo é suficiente. A OCDE recomenda que os países-membros avaliem seu progresso ao enfrentar quatro desafios políticos fundamentais:

O primeiro refere-se à necessidade de oferecer sinais fortes e consistentes sobre a precificação do carbono. Quando esses preços são impostos, as isenções e exclusões, combinadas com tarifas muito baixas, significam que o impacto foi, na melhor das hipóteses, marginal. Em alguns casos, também temos a sobreposição de políticas que podem criar ineficiências.

O segundo é a falta de ação sobre a reforma dos subsídios para o combustível fóssil. “Vocês podem achar que depois de 20 anos de debates sobre o clima, nós teríamos, pelo menos, ter feito mais progressos em relação à remoção dos subsídios aos combustíveis fósseis, os quais, na verdade, incentivam as emissões de carbono”, disse Gurría. “Esses não são apenas subsídios para os consumidores (que muitas vezes acabam beneficiando as famílias de renda mais elevada), mas também um apoio oficial para que as empresas de petróleo e gás explorem e abusem de novas reservas fosseis.”

O terceiro desafio refere-se à confusão entre as mensagens e as políticas intermitentes (stop-go) quando se trata do apoio do governo às energias renováveis, fatos “que abalam seriamente a confiança dos investidores”.

E, finalmente, há a “falha em lidar com a rigidez do mercado e dos regulamentos que favorecem a operação histórica dos combustíveis fósseis no setor da eletricidade e minam as opções (do lado da demanda) que poderiam empoderar os consumidores a escolher uma energia limpa. Caso queiramos realmente fazer o que dizemos em relação aos objetivos climáticos, devemos acrescentar a tudo isso a falta de credibilidade”.

Claramente, a situação já é muito mais do que uma questão política. Com efeito, a OCDE vê tudo isso como uma questão econômica crucial para o futuro – e não apenas para o mundo desenvolvido. O progresso das políticas será obtido quando convencermos todos os setores da sociedade que o caminho traçado possui credibilidade, é sustentável e pode nos dar os resultados que precisamos e queremos. Esta é uma batalha que será realizada por toda a América Latina, mesmo que países como o Brasil e a Colômbia decidam assumir a liderança. Ou não.

John Elkington é presidente executivo da Volans (www.volans.com) e cofundador e diretor não executivo da SustainAbility (www.sustainability.com) | www.johnelkington.com




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