Michel Maffesoli

Por Cristina Tavelin

Considerado um dos fundadores da chamada Sociologia do Cotidiano, o pensador francês Michel Maffesoli afirmava, já em 1996, que “a conjunção do natural e do social corre o risco de ser um dos sinais distintivos da pós-modernidade”. Adepto da Ecosofia, o professor da Universidade de Paris-Sorbonne acredita que vivemos uma “ecologização do mundo social”, na qual a natureza não é mais conside­rada como um objeto a explorar, mas se inscreve, cada vez mais, num processo de parceria homem-ambiente.

Confira mais sobre as ideias de Maffesoli na entrevista a seguir.

Ideia Sustentável: Nas últimas décadas, temos visto uma relação do homem com a natureza marcada pelo excesso de produção e consumo, que impede o meio ambiente de se restabelecer, o que tem causado um desequilíbrio. Na sua visão, como seria possível transformar essa relação a partir de agora e restabelecer algum equilíbrio?

Michel Maffesoli: Meu sentimento é que vivemos uma mudança de paradigma. Insisto sobre a questão do imaginário, que denomino como um novo clima mental. Minha hipótese é que esse novo modelo vai, pouco a pouco, criar novas práticas sociais. Muito concretamente, basta ver como as novas gerações se relacionam com os gestos cotidianos; com a eletricidade, a água… Sem que isso seja teorizado, os jovens têm novas práticas. Da mesma maneira, cada vez mais, criam-se novas redes de solidariedade, de generosidade. Igualmente, surgem domínios coletivos sobre a poluição, o trabalho, por exemplo. Eu diria que trata-se da lenta sedimentação de uma série de coisas pequenas que vão, paulatinamente, criar esse novo paradigma pós-moderno, do qual o elemento essencial será, para mim, a Ecosofia. É necessário insistir que são coisas pequenas, que não se veem; os sociólogos não chegam a analisá-las, os políticos não compreendem, tampouco os jornalistas. Essa tem sido um pouco a reflexão dos jovens pesquisadores, ou seja, de certa maneira, a de tornar visível essa nova sociedade.

IS: À medida que temas como as mudanças climáticas vão fazendo parte do imaginário coletivo e causando pequenas transformações na mentalidade das pessoas, o senhor acredita que essa mudança também virá do consumo consciente? Isso já acontece ou ainda é algo para mais adiante, quando as pessoas tiverem internalizado a importância das suas atitudes para a mudança do clima?

Maffesoli: Eu penso que essa mudança no consumo das novas gerações já acontece. Mas não é um saber teórico, não há uma consciência disso: é uma prática. Digo que se trata de uma sensibilidade – por isso prefiro a palavra Ecosofia. Na Europa, é interessante como se dá a multiplicação, por exemplo, de lojas verdes, de produtos orgânicos, presentes até mesmo nos grandes supermercados. Nós vemos que são, ao mesmo tempo, produtos de consumo diário e de beleza. Há uma espécie de multiplicação transversalmente – por isso digo que já ocorre no presente; esse processo deve ser entendido em termos de ‘epidemiologia’, como uma contaminação.  Falo em ‘contaminação’ para provocar um pouco. E ela encontra, além disso, a ajuda do desenvolvimento tecnológico: a internet facilita a difusão, a multiplicação. É por isso que, para mim, esse é um processo ao mesmo tempo invisível e muito importante.

IS: Aqui no Brasil, temos um quadro em que as pessoas muitas vezes têm a vontade de mudar, mas não querem abrir mão das coisas que agora consomem e do estilo de vida que conquistaram. Nesse caso, o que pode ser feito para estimular a mudança de comportamento?

Maffesoli: Nada! Eu digo que não há nada a fazer porque não é necessário fazer algo. Haverá uma difusão natural. Conversando com um diretor da Natura, ele me explicou como difunde seus produtos. Não é nas lojas, mas porta a porta. E há uma difusão enorme. Eu diria que o consumo de produtos verdes, de modo geral, se dará da mesma maneira. É por isso que faço questão de dizer “contaminação”. Por isso falo de sensibilidade, de Ecosofia. Insisto na ideia de clima mental. Somos cativados por esse clima, somos prisioneiros dele. Minha hipótese é que há uma mudança, algo acerca da natureza, do natural, dos produtos naturais. Esse é o novo clima.

IS: Na sua opinião, as empresas vão “contaminar” umas às outras? E os governos? Deve haver uma regulação para uma mudança mais rápida ou basta esse clima de transmissão “viral”?

Maffesoli: Pelas experiências que tenho visto na França, cada vez mais os líderes de empresas são obrigados a dar conta dessa nova sensibilidade ecológica. Isso acontece não apenas para vender mas também para administrar. Mesmo que não tenham essa mentalidade, são obrigados porque o ar dos tempos engloba isso. É um dever! Cada vez mais, as grandes empresas têm, no comitê diretor, um responsável pelo que chamamos na França de “desenvolvimento durável” (ou sustentável). Eu diria que a mesma coisa acontece nos governos. Mesmo que eles sejam, pelo princípio de realidade, opostos ao que diz respeito à ecologia, são obrigados a integrar, pouco a pouco, essa preocupação.  É interessante ver que, atualmente, em todos os governos europeus há um ministro da Ecologia. É claro que nem sempre eles podem fazer grande coisa, mas eu diria que é um processo inevitável.

IS: A sustentabilidade tem a ver com o cuidado, que é uma coisa muito relacionada ao feminino. Coincidência ou não, vivemos uma época de aumento no número de mulheres no poder (como a presidenta Dilma, no Brasil) e também das candidaturas de ambientalistas (como Nicolas Hulot, na França). Acredita que haja uma relação disso com o tema da sustentabilidade? As pessoas têm essa percepção?

Maffesoli: Para a primeira consideração, sim, eu acredito que existe uma feminilização do mundo na política, o que eu chamo de invaginação do sentido. Há ainda um senso de feminilidade. Não se trata de poema nem estritamente da mulher, mas de uma certa contaminação dos homens pelos valores femininos. Eu insisto nessa ideia de invaginação do sentido, isto é, cada vez mais uma nova relação para com a natureza, com a Terra. A mulher carrega a vida; logo é uma nova relação para com a vida que está em jogo. Sobre a questão dos candidatos ambientalistas penso que ainda há uma maturidade a ser desenvolvida, porque as pessoas não os elegem no último momento. Por exemplo, na Alemanha, há muito fala-se sobre a possibilidade de eleição de um chanceler verde, ou seja, a discussão está mais adiantada do que na França. Minha resposta é que nada está completamente garantido, mas há um processo inevitável. Isso chama a atenção para o futuro: estamos num momento de mutação e tudo está por vir.

IS: A linguagem das mensagens sobre meio ambiente não tem sido muito chata e pesada? Como torná-la mais interessante, mais cool, para chamar a atenção das pessoas?

Maffesoli: Não se trata de um problema de ordem intelectual, mas de prática.  Tendemos sempre a pensar de uma forma logocêntrica. O que está acontecendo não é dessa ordem: é da ordem do local, do lugar, da prática. Pragmático! Estamos envolvidos nesse clima a todo o momento. Isso pode levar mais ou menos tempo – talvez haja até alguns recuos -, mas a tendência é inevitável.




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