Educação. E eu com isso?

Por Eduardo Shimahara

Não é mais possível pensarmos em uma única crise. Estamos imersos em problemas que se entrelaçam, se potencializam e, portanto, aumentam em complexidade. Degradação dos ecossistemas, aquecimento global, distribuição de riquezas. A policrise descrita por Mark Swilling e Eve Annecke em Just Transitions (2012) parece maior do que qualquer pesadelo. Como foi possível chegarmos até aqui?

Quando falamos em globalização, imediatamente o que vem à minha mente não é necessariamente uma comunidade global em que sabedoria e bens de consumo são trocados. Mas, sim, uma única imagem daquilo que chamamos de “desenvolvimento” em sua versão ocidental, sendo copiada, replicada e desejada por todo o globo terrestre. Mas o que seria, afinal, desenvolvimento? Asfalto, concreto, estabilidade financeira e plano de saúde?

Estaríamos condenados aos fins de semana imersos em shoppings centers para saber qual a última bugiganga a ser comprada na vã tentativa de preencher o vazio que se acomoda em nossas almas?

Para Stephan Harding, em seu livro Animate Earth (2009), nosso mundo está em crise e, infelizmente, a forma de fazer ciência no Ocidente certamente contribuiu para os muitos problemas que enfrentamos. Poderíamos extrapolar esse pensamento, dizendo que o sistema de educação tradicional (que copia, herda ou se inspira na nossa forma de fazer ciência), unidisciplinar e fragmentador do conhecimento humano em pedaços que se mantêm isolados uns dos outros também é um dos grandes responsáveis pelo segmentado mundo em que vivemos.

Segundo Manfred Max-Neef, em seu artigo Fundamentos da Transdisciplinaridade (2004), a estrutura da grande maioria das universidades, apoiada em faculdades e departamentos, reforça a formação unidisciplinar, principalmente nos níveis de graduação. Nossa educação nos ensina, portanto, a pensar e agir de forma rasa, fragmentada e reducionista.

Se nosso mundo está em crise, não tenho a menor dúvida de que nossas escolas e universidades, principalmente no mundo ocidental, são diretamente responsáveis por produzir seres humanos incapazes de pensar de forma sistêmica. Quer um exemplo? Faça uma pesquisa em qualquer universidade que você conheça e estude o currículo de algum curso voltado às Ciências Ambientais. Bem, dificilmente você encontrará disciplinas ligadas a modelos de negócio, teoria da administração ou maximização de lucros.

Agora faça o inverso: busque disciplinas ligadas à biodiversidade dentro de cursos de Administração ou Negócios. Provavelmente o que você deve ter encontrado, na melhor das hipóteses, são disciplinas isoladas ou tentativas de transdisciplinaridade (comunicação e troca total entre as diversas disciplinas, sem hierarquia).

Aprendemos a nos dividir e segmentar. Essa é a educação que recebemos. E, aqui, estou abordando apenas a camada “profissionalizante” de um processo que, ao longo da vida, acaba aniquilando outras esferas, como espiritualidade, diversidade, criatividade, relacionamento e valores humanos.

Segundo Edgar Morin, “o pensamento que compartimentaliza, divide e isola permite aos especialistas e experts serem bastante eficientes nos seus compartimentos e cooperar de forma efetiva em áreas não complexas de conhecimento, especialmente aquelas que têm a ver com o funcionamento de máquinas artificiais” (1999).

Com base nesse pensamento, pode-se afirmar, com relação ao sistema de educação tradicional, que “funciona. Mas não para todos”.

Sem dúvida, existem pessoas felizes em se sentar numa carteira escolar por quatro ou cinco horas do dia, ouvir um professor (que sequer sabe seu nome) falando sem parar e depois ir para casa cheias de lição a ser feita, sem saber muito bem por quê. Educação é o tema da atualidade. Desde experts como Sir Ken Robinson – que afirma que as escolas estão construídas para destruir a criatividade – até fantásticos documentários que trazem à luz questões bastante polêmicas – como o argentino La Educación Prohibida, ou ainda os documentários Race to Nowhere e Waiting for “Superman”, nunca os sistemas atuais foram tão questionados. Ainda bem!

Sim, acredito que há pessoas que gostam do sistema atual. Mas eu – um brasileiro de 41 anos de idade que teve acesso a excelentes escolas e universidades – posso dizer que meus anos no sistema de ensino tiveram raríssimos momentos de prazer. Muitos deles ligados às amizades que pude construir; pouquíssimos referentes ao aprendizado em si.

Mais do que uma crítica, no entanto, eu gostaria de trazer esperança. Viajando pelo mundo desde março de 2012, junto a outros colegas que decidiram se aventurar num trabalho coletivo de produção de um livro (a ser distribuído gratuitamente para download em Creative Commons), posso dizer que existem centenas – senão milhares – de alternativas. Particularmente, não gosto da palavra “alternativa” porque muitas vezes parece algo menos bom ou menos pior. Trago aqui dois exemplos nos quais educação, transdisciplinaridade, valores humanos e sustentabilidade são questões absolutamente inseparáveis.

Uma fantástica construção de bambu no interior da Ilha de Bali, na Indonésia, poderia ser um cenário de conto de fadas, mas é uma escola. A Green School, fundada por John Hardy, é uma instituição internacional que oferece desde o Jardim de Infância até o Ensino Médio completo. Ali, 80% da energia elétrica utilizada vêm do Sol, e planos audaciosos para elevar esse número para 100% envolvem os pais dos alunos que fazem parte de grupos de trabalho para tornar a escola ainda melhor. Praticamente toda a comida vem do campus, onde hortas são plantadas (com ajuda dos alunos). A palavra sustentabilidade não está escrita em nenhum lugar.

Porém, mais do que uma palavra, sustentabilidade, na Green School, é algo que se respira no dia a dia, nas pequenas e grandes ações.

Cada uma das classes passa por quatro camadas de aprendizado: intelectual, emotiva/social, cinestésica e espiritual. Disciplinas se conectam umas às outras, e professores discutem como interligar os diferentes temas. É uma abordagem mais integral e muito, muito menos fragmentada.

Outro exemplo vem da África do Sul, desta vez, em nível de mestrado. Logo no primeiro dia de aula, os alunos são confrontados com questões simples a serem discutidas em grupo, como citar o nome de árvores nativas de seus países ou descrever de onde vem a eletricidade que utilizam.

O Sustainability Institute, sonho de um casal de sul-africanos, fica dentro de uma ecovila. Nela, a água dos esgotos passa por um processo biológico de purificação para então ser reutilizada nas descargas. O biogás resultante da decomposição é usado para alimentar os fogões de algumas residências. Os atuais fundadores e coordenadores de um dos cursos mais ousados do mundo vivem ali. Liderar pelo exemplo, o famoso walk the talk, é a máxima do curso.

A diferença desse mestrado? Bem, são muitas. A começar pelo fato de que o desafio é aliar excelência acadêmica com mão na massa. Em cada um dos oito módulos que compõem cada uma das linhas de pesquisa, são comuns as visitas de campo, contemplação, meditação, trabalho em grupo e até mesmo aulas de arte. Um coordenador está presente 100% do tempo (e conhece todos os alunos por nome e sua história pessoal) e faz as ligações entre um módulo e outro, criando um ambiente de aprendizado onde nada está desconectado.

Esses são apenas dois exemplos, de centenas de outros espalhados pelo mundo e inclusive no Brasil, em que fantásticas iniciativas, como o Projeto Âncora, em Cotia, a Escola Politeia, na cidade de São Paulo, e o CPCD, de Tião Rocha, em Minas Gerais, apontam para um horizonte com mais esperança com relação à educação para a sustentabilidade. A esse respeito, aliás, no dia 10/10/10, às 10h da manhã, tive o prazer de ouvir uma frase do educador português José Pacheco, um dos fundadores da mítica Escola da Ponte: “Não existe educar para a sustentabilidade. Só existe educar na sustentabilidade.” Fez todo o sentido.

Eduardo Shimahara formou-se engenheiro mecânico e trabalhou por quase 10 anos no mercado automobilístico no Brasil e na França. Especialista em jogos cooperativos, apaixonou-se pelo tema da educação e tornou-se diretor de Sustentabilidade e Inovacao do Grupo Ânima, de onde saiu, em 2012, para cofundar o coletivo www.educ-acao.com.  Atualmente é aluno de Mestrado em Desenvolvimento Sustentável no Sustainability Institute, na África do Sul.




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