Fritjof Capra

Por Juliana Lopes

Para o físico Fritjof Capra, Leonardo da Vinci, o gênio da Renascença, seria hoje um aliado imprenscindível na busca de soluções para o desenvolvimento sustentável. A sua síntese muito particular de arte, ciência e tecnologia – crê – ajudaria na compreensão dos mais importantes problemas socioambientais contemporâneos a partir de uma perspectiva interdisciplinar.

“O conhecimento vem sendo dominado por grandes corporações mais interessadas em retornos financeiros do que no bem-estar da humanidade. Sendo assim, precisamos urgentemente de uma ciência e tecnologia que respeitem a unidade de toda a vida, reconheçam a fundamental interdependência de todo fenômeno natural e nos reconectem com a Terra”, disse o físico.

Principal teórico do pensamento sistêmico, Capra defende a ideia de que todas as formas de vida – das células mais primitivas até os seres humanos – se configuram seguindo um único princípio básico: o de organização em redes. Ao exemplificar as relações de interdependência na complexa “teia da vida”, o físico tem propalado uma forma de interpretar o mundo radicalmente distinta do humanismo individualista, que coloca o homem no centro do universo.

Segundo ele, em vez de buscar o que extrair da natureza, as pessoas devem aprender a partir dela. “Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa alfabetização ecológica, da habilidade de entender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles”, ressalta.

Na visão de Capra, boa parte dos problemas atuais decorre do fato de a humanidade ter ignorado e interferido nos padrões e processos de relacionamento dos ecossistemas, que sustentam a vida.  Para o autor de best-sellers como o “Tao da física”, “Ponto de Mutação” e “Conexões ocultas”, é possível revisar os valores do capitalismo e conduzir a sociedade para o desenvolvimento sustentável.

“O mercado global funciona como uma network de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental de que o lucro deve preceder os direitos humanos, a democracia e a proteção ambiental. No entanto, esses mesmos fluxos financeiros e de informação podem ter outros valores agregados. O ponto crucial não é a tecnologia, mas a política”, destaca.

Em entrevista a Juliana Lopes, de Ideia Socioambiental, Capra apresenta um repertório de ideias tão vasto quanto a sua proposta para a sustentabilidade. Saiba o que o físico pensa a respeito das novas tecnologias de informação, da economia global e do Brasil, entre outros assuntos.

Ideia Socioambiental: Como indivíduos e organizações devem atuar em rede? Quais são os desafios e benefícios dessa mudança?

Fritjof Capra: Hoje, a criação de redes sociais se tornou algo fácil. Nos últimos anos, as redes se transformaram no maior foco de atenção dos negócios e da sociedade, de maneira geral, como uma cultura global emergente. A internet é uma rede de comunicação poderosa e muitas das novas companhias da web atuam como uma interface entre redes de consumidores e fornecedores. Redes similares existem entre organizações não governamentais. Com as novas tecnologias de comunicação e informação, as redes sociais se tornaram todas extensivas, dentro e além das organizações. Teóricos organizacionais falam hoje de “práticas de comunicação” para se referir às redes sociais informais ou auto-geradas existentes em toda organização. São comunidades de pessoas que interagem com e se ajudam umas às outras para construir relacionamentos, e dar maior significado pessoal às atividades do dia-a-dia.

Dentro de cada organização, existe um cluster de comunidades de práticas interconectadas. Cada vez mais pessoas estão engajadas nessas redes informais e quanto mais sofisticadas elas forem, mais condições a organização terá de aprender respondendo criativamente a novas circunstâncias.  A sobrevivência da organização reside na sua comunidade de práticas. O desafio para líderes empresariais não é criar redes dentro das organizações, mas conhecer e legitimar as redes informais já existentes.

IS: Como a sociedade deverá se adaptar à perspectiva sistêmica na velocidade exigida para reverter problemas complexos como o do aquecimento global?

FC: O grande desafio de nosso tempo é criar e manter comunidades sustentáveis, concebidas de maneira que suas formas de vida, negócios, economias, estruturas físicas e tecnologias não interfiram na habilidade inerente da natureza de sustentar a vida. O primeiro passo nessa direção é o que chamo de “alfabetização ecológica”, a habilidade de entender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles. Se compreendermos os padrões de relacionamento que tornam os ecossistemas capazes de sustentar a vida, também entenderemos as muitas formas, padrões e processos que nossa civilização ignorou e interferiu neles. Assim, perceberemos que essas interferências são as causas fundamentais dos atuais problemas no mundo.

Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa alfabetização ecológica que deve se tornar uma competência essencial para políticos, líderes empresariais e profissionais em todas as esferas. Ela também deve ser a parte mais importante da educação em todos os níveis – do ensino primário e secundário até ao ensino médio e superior, assim como na formação e treinamento contínuo de profissionais.

IS: Como o senhor avalia movimentos como o do biomimetismo, ascendente no mundo, especialmente no campo do design? Esse conceito ajuda as organizações a adaptarem seus modelos a uma perspectiva sistêmica?

FC: A alfabetização ecológica é o primeiro passo rumo à sustentabilidade. O segundo é o design ecológico. Precisamos aplicar nosso conhecimento ecológico para um redesign fundamental das nossas tecnologias e instituições sociais, preenchendo a distância entre o design humano e os sistemas ecológicos da natureza.

Design, em um sentido mais amplo, consiste em moldar o fluxo de energia e matéria para propostas humanas. Já pelo design ecológico, as propostas são cuidadosamente entrelaçadas com os grandes padrões e fluxos do mundo natural. Os princípios do design ecológico refletem os princípios de organização nos quais a natureza tem evoluído para sustentar a teia da vida. Praticar o design nesse contexto requer uma mudança fundamental em nossa atitude diante da natureza. Numa nova visão, ao invés de descobrir o que extrair da natureza, devemos identificar o que aprender a partir dela.

Nos últimos anos, tem havido um aumento dramático em práticas de design orientadas ecologicamente. O biomimetismo se refere a um tipo especial de tecnologia do ecodesign. Trata-se de um novo tipo de biotecnologia que não envolve a modificação genética de organismos vivos, mas utiliza as técnicas da engenharia genética para entender as sutilezas do design da natureza e aplicá-las como modelos para novas tecnologias humanas. O biomimetismo integra o conhecimento ecológico ao design de materiais e processos tecnológicos, aprendendo a partir de plantas, animais e microorganismos como manufaturar fibras, plásticos e químicos não-tóxicos, completamente biodegradáveis e sujeitos à contínua reciclagem.

IS: A economia global já funciona em rede, mas as interações decorrentes dela não têm trazido benefícios econômicos, ambientais e sociais de maneira equilibrada. É possível rever os valores que guiam o capitalismo e, fazendo isso, conduzir a sociedade para o desenvolvimento sustentável?

FC: A economia global está organizada amplamente em torno de redes de fluxos financeiros. Tecnologias de comunicação e informação sofisticadas permitem que o capital financeiro se mova rapidamente de uma opção para outra em uma implacável busca global por oportunidades de investimentos.

O impacto da nova economia nos seres humanos tem sido, na maioria das vezes, negativo. Há um acúmulo sem precedentes de riqueza no alto. Em contrapartida, as consequências sociais e ambientais apresentam-se desastrosas. Além disso, como temos visto com a atual crise econômica, esse modelo ameaça severamente o bem estar financeiro de pessoas em todo o mundo.

O problema central é que a economia global foi desenhada sem nenhuma dimensão ética. O então chamado “mercado global” funciona como uma network de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental de que o lucro deve preceder os direitos humanos, a democracia, a proteção ambiental ou qualquer outro valor humano. No entanto, a mesma network eletrônica de fluxos financeiros e de informação poderiam ter outros valores agregados. O ponto crucial não é a tecnologia, mas a política.

IS: A desmaterialização da economia pode contribuir nesse sentido?

FC: Acredito que sim. Ao que me parece, o desafio-chave é como adaptar-se de um sistema baseado na noção de crescimento ilimitado – o que é impossível em um planeta finito – para um outro que seja, ao mesmo tempo, sustentável e socialmente justo. O crescimento, é claro, representa uma característica central de toda vida. Uma sociedade ou economia, que não cresce, morre mais cedo ou mais tarde. O crescimento, contudo, não deve ser linear, nem ilimitado. Enquanto, certas partes dos organismos ou ecossistemas crescem outras declinam, lançando e reciclando seus componentes que se transformam em recursos para novo crescimento.

O tipo de crescimento balanceado e multifacetado que é bem conhecido pelos biólogos e ecologistas pode ser chamado de crescimento qualitativo. Em organismos vivos, ecossistemas e sociedades, o crescimento qualitativo consiste em um aumento de complexidade, sofisticação e maturidade que aprimora a qualidade de vida. Em outras palavras, crescimento qualitativo significa desmaterializar a economia em alguma extensão.

IS: Como as companhias deveriam rever seus esforços de inovação, pesquisa e desenvolvimento?

FC: O conceito de crescimento qualitativo será uma ferramenta crucial nessa tarefa. Ao invés de avaliar o estado da economia em termos de medidas quantitativas simplórias como o PIB, precisamos distinguir o “bom” crescimento do “ruim”. Do ponto de vista ecológico, essa distinção é óbvia.  O crescimento ruim está relacionado a processos de produção e serviços que são baseados em combustíveis fósseis, envolvendo substâncias tóxicas, que levam à escassez de recursos naturais e à degradação dos ecossistemas terrestres. O bom crescimento relaciona-se a processos de produção e serviços mais eficientes com energias renováveis, emissões zero, reciclagem contínua de recursos naturais e restauração dos ecossistemas terrestres. As companhias precisam reavaliar seus processos de produção e serviços para determinar quais deles são ecologicamente destrutivos e, por essa razão, devem ser substituídos. Ao mesmo tempo, as empresas precisam diversificar seus portifólios na direção de produtos e serviços verdes.

IS: Como os cidadãos, companhias, organizações e governos podem articular diálogos estratégias, considerando as conexões ocultas e as relações de interdependência do sistema, sem perder de vista os problemas locais?

FC: As redes informais ou comunidades de práticas, que existem dentro de toda organização são idealmente moldadas para lidar com problemas locais. O que precisamos aprender é reconhecer como os problemas locais e globais estão interconectados. De fato, está ficando cada vez mais evidente que nenhum dos problemas do nosso tempo podem ser entendidos de maneira isolada. Para resolvê-los, precisamos aprender como pensar sistematicamente, em termos de relacionamentos, padrões e contextos.

IS: Como a internet e as novas tecnologias de informação podem  integrar a sociedade em um esforço global para promover o desenvolvimento sustentável? Como os cidadãos, organizações e governos podem explorar essas possibilidades?

FC: Esse processo está em pleno movimento. Na virada deste século, uma coalização impressionante de ONGs disseminaram os valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. Esse “movimento pela justiça global”, como também é chamado, tem mobilizado uma série de encontros do Fórum Social Mundial, muitos deles no Brasil. Nesses encontros, as ONGs propõem um grupo completo de políticas de mercado alternativas, incluindo iniciativas concretas e radicais para reestruturar as instituições financeiras globais, que mudariam profundamente a natureza da globalização.

Esse engajamento exemplifica uma nova forma de movimento político típico da nossa Era da Informação. Por causa da habilidade em usar a Internet, em aliança, as ONGs são capazes de se interconectar para trocar informação e mobilizar seus membros com uma velocidade sem precedentes. Como resultado, essas organizações emergiram como atores políticos efetivos que são independentes das instituições tradicionais, nacionais ou internacionais, constituindo uma nova forma de sociedade civil global.

Para dotar o discurso político de uma perspectiva ecológica, a sociedade civil global depende de uma network de estudantes, institutos de pesquisa, think thanks e centros de aprendizado que operam em larga escala fora de nossas instituições acadêmicas líderes. Há dúzias dessas instituições de pesquisa e ensino em todas as partes do mundo. Em comum, elas apresentam a característica de alinhar sua atividade de pesquisa e ensino a uma estrutura compartilhada de valores essenciais.

IS: É possível estabelecer uma agenda ou compromisso global capaz de conduzir a sociedade na transição para o desenvolvimento sustentável? Quais seriam os assuntos e metas prioritários dessa agenda?

FC: Sim. Lester Brown tem desenvolvido uma agenda detalhada com o seu livro Plan B, que também está disponível no Brasil. A obra de Brown traça um caminho para salvar a civilização. Trata-se de uma alternativa ao modelo de business as usual (Plano A), que tem nos conduzido ao desastre.  A estratégia do Plan B é informada pela consciência da interdependência da maioria dos nossos problemas globais. Envolve uma série de ações simultâneas que são mutuamente apoiadas, espelhando a interdependência dos problemas que endereça.

Os componentes do Plan B são moldados pelo que é necessário hoje e não pelo que é considerado politicamente alcançável. Os principais objetivos são, nas palavras do autor, “reestruturar a economia, restaurar seus sistemas de apoio naturais, erradicar a pobreza, estabilizar a população e mudanças climáticas e, acima de tudo, restaurar a esperança.”

A revolução recente do ecodesign oferece a justificativa para o otimismo e esperança de Lester Brown. Todas as propostas do Plan B baseiam-se em tecnologias existentes e são ilustradas com exemplos de sucesso de países ao redor do mundo. Essas experiências evidenciam que temos o conhecimento, as tecnologias e os recursos financeiros para salvar a civilização e construir um futuro sustentável. Tudo o que precisamos agora é vontade política e liderança.

IS: Considerando a conjuntura atual, há algum agente (empresas, governos, ONGs etc.) que tem mais condições de liderar o movimento rumo ao desenvolvimento sustentável?

FC: No mundo atual, há três principais centros de poder: os governos, as empresas e a sociedade civil. O governo envolve instituições nacionais; as empresas e sociedade civil se tornaram globais. Acredito que a maioria de nossos problemas globais só poderão ser resolvidos se houver cooperação entre esses três setores. Cada um deles tem algo especial para contribuir. O governo pode guiar a população pela legislação. Líderes políticos carismáticos também podem desempenhar papéis importantes educando e persuadindo o público. Os negócios têm competências especiais de comunicação e na resolução de problemas. Já a sociedade civil adota os valores que precisaremos para um futuro sustentável.

No meu entendimento, o Brasil é o único país de peso, onde a colaboração tem sido facilitada e institucionalizada pelo seu presidente. Quando Lula tomou posse em 2003, criou canais administrativos especiais pelos quais membros da sociedade civil têm acesso direto ao governo. Ele também indicou líderes da sociedade civil para várias posições nos ministérios. Somando-se a isso, vejo que, no Brasil, tornou-se uma tradição executivos do mundo dos negócios fazerem trabalhos voluntários em ONGs, ajudando seus membros, por exemplo, com tarefas de contabilidade e gestão. A organização desses novos canais de comunicação e cooperação no Brasil pode servir de modelo e inspiração para o resto do mundo.

IS: Em seu mais recente livro, o senhor analisa os estudos de Leonardo da Vinci. Que contribuições esse grande cientista do Renascentismo pode trazer para a discussão da sustentabilidade no século XXI?

FC: Leonardo da Vinci, o grande mestre da pintura e gênio do Renascentismo, desenvolveu e praticou uma síntese única de arte, ciência e tecnologia. Descobri que seu legado é muito relevante para o nosso tempo.  Nossas ciências e tecnologias têm se tornado cada vez mais estreitas em seu foco, o que impossibilita a compreensão dos nossos multifacetados problemas a partir de uma perspectiva interdisciplinar. Além disso, o conhecimento vem sendo dominado por grandes corporações mais interessadas em retornos financeiros do que no bem-estar da humanidade. Sendo assim, Precisamos exatamente o tipo de síntese que Leonardo da Vinci delineou há 500 anos.de uma ciência e tecnologia que respeitem a unidade de toda a vida, reconheçam a fundamental interdependência de todo fenômeno natural e nos reconectem com a Terra.

IS: O que é essencial na educação de crianças e na de adultos para construção de uma sociedade sustentável? Esses públicos exigem estratégias diferentes de sensibilização e aprendizado?

FC: Ao longo dos últimos 20 anos, eu e meus colegas do Center for Ecoliteracy, em Berkeley, desenvolvemos uma pedagogia especial, que chamamos “educação para uma vida sustentável” com o objetivo de promover a alfabetização ecológica e o pensamento sistêmico na educação primária e secundária.

Crianças, assim como adultos, passam por certas fases de desenvolvimento. Tanto a linguagem utilizada quanto as estratégias pedagógicas devem ser apropriadas a essas fases. Em nosso trabalho no Center for Ecoliteracy, descobrimos que os princípios da ecologia precisam ser ensinados de forma completamente diferente na educação primária (entre 6 a10 anos), secundária (entre 11 a13 anos) e no ensino médio  (dos 14 aos 17 anos). E promover a alfabetização ecológica no ensino superior e na educação contínua de profissionais também exige estratégias e metodologias diferentes.

Leia também:

1) Entrevista com Lester Brown: Ele tem um plano B

2) Entrevista com Ricardo Abramovay: A era da inovação e do limite

3) Entrevista com Israel Klabin: A estrada depois da curva

4) Entrevista com Ricardo Young: Novas empresas para um novo capitalismo




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