Inteligência urbana

Por Cristina Tavelin

Mais da metade da população mundial vive hoje nos centros urbanos. E a tendência é que esse número cresça cada vez mais nos próximos anos – ditando também o ritmo do avanço dos problemas decorrentes do urbanismo desenfreado, que assola as metrópoles. As empresas podem olhar a questão por dois vieses: o da oportunidade e o da necessidade. O primeiro está em juntar-se aos governos, buscar soluções inovadoras e fechar negócios importantes para a renovação da infraestrutura e planejamento dos centros urbanos. O segundo reside no fato de que, se não houver esse impulso de mudança, o setor privado ficará refém dos problemas e terá mais despesas para atuar em ambientes complexos. “As empresas podem ser grandes aliadas para um bom planejamento porque, principalmente nas áreas relacionadas a serviços urbanos e infraestrutura, precisam de um layout apropriado para atuar”, enfatiza Joan Clos, subsecretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e diretor executivo do UN-Habitat.

Nos países emergentes, impera a estética caótica da falta de planejamento. Em meio ao caos, no entanto, começa a emergir uma certa consciência. “O Brasil, até o momento, esteve voltado para a conservação de grandes biomas, de ecossistemas, algo muito necessário. Mas agora estamos criando uma cultura para pensar em sustentabilidade urbana. Grandes empresas começam a oferecer sistemas mais inteligentes aos governos, a exemplo das áreas de gestão do tráfego e transporte público”, destaca Maurício Broinizi, coordenador da Secretaria Executiva do Movimento Nossa São Paulo e um dos coordenadores nacionais do Programa Cidades Sustentáveis (rede de organizações da sociedade civil cujo objetivo é sensibilizar, mobilizar e oferecer ferramentas para que as cidades brasileiras se desenvolvam de forma econômica, social e ambientalmente mais sustentável).

Uma das iniciativas do setor privado que mais tem gerado frutos nos últimos anos está relacionada aos edifícios verdes. A Leadership in Energy and Environmental Design (LEED), espécie de selo verde concedido pela organização americana Green Building Council (USGBC), serve como diretriz às empresas na falta de uma legislação específica.

“Hoje seguimos nesse sentido, mas o movimento deve caminhar também no poder público, porque a população está começando a exigir soluções. Em algum momento, os caminhos dos setores público e privado vão se cruzar e conseguiremos ter respostas mais eficientes”, avalia Fernando Resende, diretor do programa EcoCommercial Building Brasil, da Bayer. Confira, a seguir, como as empresas têm contribuído para a edificação de cidades mais sustentáveis e com melhor qualidade de vida.

Questão de planejamento

Uma massa contínua de edifícios, salpicada de arranha-céus por todos os lados. Ruas constantemente congestionadas e níveis de poluição dramáticos. Uma cidade descentralizada e sem nenhuma coerência urbana. Assim a capital brasileira dos negócios aparecia aos olhos do mundo no livro Cidades para um Pequeno Planeta (1998), de Richard Rogers (um dos arquitetos mais importantes do mundo, designer do Centro Pompidou, em Paris). Enquanto Londres remete a parques vistosos, e a Rambla de Barcelona poetiza o movimento dos cidadãos, qual seria a grande marca deixada pela capital paulista aos que a visitam?

São Paulo, assim como as demais metrópoles brasileiras, está hoje diante de uma grande possibilidade de reinvenção, em função dos grandes eventos esportivos que se aproximam. Tal qual ocorreu com Barcelona, sede dos Jogos Olímpicos de 1992, e mais recentemente Londres, em 2012. E as empresas mergulham de cabeça nessas oportunidades.

Em agosto de 2011, a General Electric (GE) anunciou a extensão do contrato de patrocínio com o Comitê Olímpico Internacional até os jogos de 2020.  Desse modo, além de patrocinadora, fornecerá produtos, soluções e serviços para as cidades. Na Olimpíada de 2008, na China, a empresa tratou a água da chuva com tecnologia de nanofiltração (NF) das membranas para reutilizá-la em vasos sanitários no Estádio Nacional, melhorou sistemas de refrigeração para condicionadores de ar e a irrigação de espaços interiores e exteriores de campos desportivos.  Na Vila Olímpica, o efluente secundário da Estação de Tratamento de Águas Residuais Quinghe também foi tratado e reutilizado em lagoas e lagos e para irrigação.

“Os atuais projetos olímpicos brasileiros poderiam alcançar características semelhantes às dos realizados em Pequim. Somente a Vila Olímpica poderia reutilizar mais de 2,7 mil m3/dia, equivalentes à necessidade diária de água de mais de 120 mil pessoas”, afirma Daniel Meniuk, líder de Novos Negócios da GE.

Em Londres, a empresa instalou motores a gás em duas centrais de energia, dentro e fora do Parque Olímpico, e também nos hospitais Guy’s e St. Thomas. Os motores para cogeração permitem aos dois hospitais produzir sua própria eletricidade, gerando uma economia anual de £1.5 milhão. A empresa também desenvolveu o novo projeto de iluminação da London’s Tower Bridge, um dos cartões postais da cidade. Na Vila Olímpica, forneceu medidores inteligentes para os moradores, com informações sobre seu uso de energia para ajudar a controlar o consumo e reduzir a pegada de carbono.

No caso do Brasil, embora o processo de revitalização seja uma possibilidade real em diversas áreas, teme-se que não haja tempo hábil para tanto – os grandes eventos, portanto, viriam lançar luz sobre os problemas crônicos das cidades. No caso do tráfego, a situação se mostra mais complexa devido ao crescimento econômico do país, diminuição dos juros e expansão do crédito. Ampliou-se o acesso ao automóvel, mas os investimentos em transporte público não acompanharam o mesmo ritmo. “A única forma para controlar o excesso de veículos é investir em transporte público. Todas as cidades com características como as de São Paulo possuem uma malha de transporte que funcionaria bem integrando diversas possibilidades. Não teremos tempo para mudar até os eventos esportivos, que evidenciarão para o mundo a nossa falta de estrutura”, lamenta Broinizi, do Programa Cidades Sustentáveis.

Para enfatizar a importância do planejamento urbano, o programa UN Habitat, da ONU, lançou o guia Urban Planning for City Leaders, com questões-chave e soluções a serem endereçadas nos grandes centros. “Hoje, o planejamento não anda no passo do crescimento urbano. É preciso mostrar seu valor estratégico”, avalia Closs. Para ele, os países emergentes possuem cidades em crescimento acelerado, com muitas favelas, e, quando uma empresa tenta instalar um sistema de transporte, por exemplo, enfrenta problemas como a falta de espaço apropriado para novas instalações de infraestrutura. “Não há lugar para fazer metrô por falta de um planejamento básico, pois todos os lugares já estão tomados. Por isso acredito que devemos estar alinhados com o setor privado. É muito melhor trabalhar em uma cidade bem planejada. E a capacidade de geração de bens também é muito maior.”

Uma rede inteligente


“A rede de criatividade agora está dirigindo a nova economia. As trocas entre arte e tecnologia – de ideias em vez de produtos – tornam-se a seiva vital de nossa prosperidade futura”, afirma o arquiteto Richard Rogers, em Cidades para um Pequeno Planeta.

É também nessa crescente interligação entre criatividade e tecnologia que se baseia o Smart Grid – espécie de rede inteligente que propõe um fluxo direcional de energia e informação para tornar as cidades mais eficientes, com veículos elétricos, automação domiciliar e índices de medição em tempo real, entre outras ferramentas. O sistema também pressupõe uma via de mão dupla. “Hoje, o Smart Grid sai do nível exclusivo das operadoras, onde se perde 1/3 entre geração e uso da energia”, diz Andrea Traber, diretora do Grupo de Edifícios e Comunidades Sustentáveis da DNV KEMA, empresa com sede na Holanda e atuação global, especializada em consultorias técnicas e estratégicas.

Uma das comunidades desenvolvidas pela empresa, a Sonoma Mountain Village (SOMO), nos Estados Unidos, combina a ideia de design feito para pessoas e negócios com tecnologia de ponta para a sustentabilidade. A SOMO já foi premiada por internalizar profundamente aspectos socioambientais.

Já na Universidade da Califórnia (UC), também nos EUA, o microgrid permite otimizar o uso e a gestão energética entre vários edifícios, sendo que a energia não utilizada pode ser devolvida à rede. “Além disso, há vários projetos LEED no campus e os alunos ajudam a desenvolvê-los na universidade”, destaca Andrea. Entre os compromissos assumidos pela UC está o de todas as novas construções e grandes projetos de renovação atenderem a um padrão mínimo de LEED.

Em parceria com o Instituto de Conhecimento TNO, a empresa de software HUMIQ e a de serviço público Essent, a DNV desenvolveu também um laboratório vivo de Smart Grid. O PowerMatching City consiste em 25 residências familiares interligadas e equipadas com unidades de microcogeração de energia, bombas híbridas para geração de calor, painéis solares, aparelhos inteligentes e veículos elétricos. A energia adicional é produzida por um parque eólico e uma turbina a gás. O objetivo do projeto foi desenvolver um modelo de mercado para uma rede inteligente sob condições normais de operação. O mecanismo de coordenação subjacente baseia-se na PowerMatcher, uma ferramenta de software para equilibrar demanda e fornecimento de energia, dando suporte a diferentes stakeholders – otimização da residência para o prosumidor (termo criado por Alvin Toffler, escritor de A Terceira Onda, que nada mais é do que o consumidor que produz conteúdo, ou seja, o produtor+consumidor), redução de carga para a rede de distribuição e redução de instabilidade para empresas de serviços públicos.

Entre os depoimentos no portal do projeto está o de Geert Mannes, de 77 anos que, ao ouvir falar do PowerMatching City, rapidamente inscreveu seu nome como um potencial participante. O aposentado conta que foi bom ser capaz de fazer algo útil e contribuir para uma forma mais sustentável de vida. “Não quero me fechar para a sociedade – quero dar uma contribuição ativa.” O apartamento dele é uma das 13 casas do projeto que utilizam a tecnologia híbrida da bomba de calor. Entretanto, integrar a vanguarda tecnológica não é o mais importante para Mannes. O melhor é que o sistema realmente funciona. “Lavo roupa duas vezes por semana – uma delas no domingo, porque a eletricidade é mais barata, e o sistema me dá uma visão sobre quanta energia uso mensalmente”, diz ele. “Esse projeto demonstra como o nosso sistema de energia poderá ser em 2030. São muitas possibilidades, mas essas tecnologias precisam aumentar o conforto para serem replicadas”, acrescenta Andrea.

Aqui no Brasil, o programa Cidades do Futuro, da Cemig, visa avaliar a prestação de serviços para o consumidor final por meio da automação das redes de distribuição e modernização do sistema elétrico. O projeto começou a ser implementado em Sete Lagoas (MG), com o objetivo de medir a capacidade e os benefícios da adoção da arquitetura Smart Grid, identificar a viabilidade de expansão e validar os produtos, serviços e soluções. As ações concentram-se nas áreas de automação da medição para consumidores; automação de subestações e de redes de distribuição; telecomunicações operacionais; sistemas computacionais da operação do sistema elétrico e gerenciamento e integração de geração distribuída.

“Com medidores inteligentes ajudamos as concessionárias a fazer esse fluxo entre os dois lados. Eles têm tecnologia suficiente para esse tipo de demonstração. Não devemos olhar apenas para as concessionárias nem apenas para os clientes. Deve-se enxergar o Smart Grid de forma abrangente. Não existe uma única tecnologia para fazer tudo. Os resultados serão uma forma de o Brasil aprender mais sobre esse sistema”, avalia Andrea, da DNV.

Edificação de uma nova era

Na capital da Espanha, um exemplo de arquitetura sustentável pode ser encontrado logo de cara por quem chega à cidade de avião: o Terminal 4 do imenso aeroporto de Barajas foi vencedor do Stirling Prize e reconhecido mundialmente pela ampla utilização de luz natural. “Queríamos que as pessoas sentissem que estavam em Madri exatamente pela sensação da luz emanada, marca da cidade”, reflete Simon Smithson, sócio-diretor da Rogers Stirk Harbour+Partners, empresa situada no nublado Reino Unido.

Por outro lado, toda essa luz provoca calor, não muito bem-vindo nos verões fortes que a Europa tem enfrentado nos últimos tempos. Para amenizar a temperatura, foi necessário desenvolver um sistema de sombreamento. Ao mesmo tempo, para não desperdiçar a luz, projetores jogam-na para diversos refletores nos momentos em que a iluminação não é suficiente. Outra inovação natural foi o telhado de bambu, nada simples de ser implementado, pois os bombeiros não acreditavam no risco mínimo de incêndio, mesmo após o devido tratamento do material.

Ainda na Espanha, a Abengoa solicitou um projeto ao mesmo escritório britânico para revitalizar uma de suas unidades. A proposta teve um orçamento baixo e causou impacto direto na vida dos funcionários e no contexto da cidade. “Como se tratava de uma empresa de engenharia, tivemos de trabalhar duro porque nos exigiam explicações baseadas em números. E o processo envolvia novos sistemas. Então utilizamos diferentes tipos de venezianas, reurbanização e otimização de espaço. Compreendemos o grande sucesso deste case ao ver os filhos passeando pelo ambiente de trabalho dos pais antes de voltarem para casa”, conta Smithson. No Brasil, o arquiteto admira a integração entre paisagismo, arquitetura moderna e formas passivas de lidar com o clima das obras de Oscar Niemayer.

Para Andrea, da DNV, o projeto Nova Luz, que pretende revitalizar a região da Luz, em São Paulo, pode ser um importante exemplo para a melhoria de edifícios. “A cidade tem uma ótima estrutura em prédios arquitetônicos, tecnologia disponível e o desejo de melhorar muito os ambientes. Com edifícios mais inteligentes, seria possível gerar ganhos significativos para a cidade. Entretanto, há desafios relacionados à regulamentação e questões sobre quais seriam as tecnologias mais corretas para esse tipo de situação e como elas funcionariam de forma integrada”, avalia.

O caso da Nova Luz relaciona-se diretamente com a revitalização dos edifícios daquela área. Mas nem todas as empresas de infraestrutura pensam em dar vida nova a antigos edifícios. Hoje, o que se vê são novos prédios construídos sem o menor cuidado com o entorno. E os mais antigos acabam sendo destruídos. “O modelo de negócios para construção está completamente errado. Privilegiam-se os edifícios, e não as cidades”, avalia Closs, do UN Habitat.

Scot Horst, vice-presidente sênior para LEED do USGBC, cita o caso do Empire State Building como exemplo de edificação já existente que adotou a certificação de maneira benéfica. “Costuma-se pensar no processo apenas para edifícios novos, mas há construções mais antigas que impressionam. Gosto desses exemplos especialmente porque neles conseguimos perceber melhor o alcance da sustentabilidade”, destaca.

Certamente, esse novo olhar para o antigo não tira o prestígio das construções que estão por vir. A Torre de Xangai, por exemplo, um arranha-céu erguido na China com previsão de inauguração para 2014, tem um design “retorcido” para facilitar a coleta de água da chuva, além de turbinas eólicas para geração de energia. “A maioria dos grandes edifícios e torres ao redor do mundo está usando LEED porque existe a percepção de que isso atrai a atenção internacional, já que a certificação é reconhecida em todo lugar, conectando-os com algo que não se pensava de outra forma. Por meio do processo de obter crédito por crédito para a certificação, começa-se a perceber a conexão entre diversas ações e formas de integrá-las”, diz Horst.

Do ponto de vista do marketing, a atitude também pode render bons frutos. “Em Nova Iorque, especialmente, edifícios antigos vêm sendo substituídos visando economizar recursos. Há um retorno no investimento que se faz em edifícios verdes. Mas essa atitude de mudança também diz ao mercado algo sobre a organização e seu comprometimento”, avalia Tim Cole, diretor de Iniciativas Ambientais e Desenvolvimento de Produto da Forbo Flooring, fabricante líder em revestimento de pisos e presidente do Comitê Executivo do USGBC. Além disso, para os grandes projetos, a concessão de financiamento diante de uma atitude socioambiental é uma tendência no desenvolvimento de construções verdes. “O próximo driver na transformação do mercado virá das instituições financeiras. Com edifícios certificados, provavelmente os bancos oferecerão dinheiro a taxas mais baixas do que às construções convencionais, porque sabem que o impacto ambiental será muito menor”, destaca Cole.

Em relação a pequenos projetos, mesmo que não se consiga obter uma certificação, as mudanças certamente também trazem benefícios e transmitem uma imagem positiva. “Hoje, há muitos escritórios e restaurantes pequenos utilizando o padrão LEED em seus projetos, porque há um valor de marketing agregado. Foi o que fiz na minha casa, por exemplo, já que meu interesse não estava na documentação, mas nos benefícios trazidos pelo processo”, avalia Horst.

A emergência do futuro

 

São muitas as questões que envolvem o desenvolvimento das cidades. E uma particularidade relacionada ao momento atual é que elas precisam ser endereçadas todas ao mesmo tempo agora. Nesse sentido, a participação do setor privado é essencial, já que o poder público, em muitos países – entre eles o Brasil -, tem de focar problemas mais básicos, como educação, saúde e saneamento. “Nos governos, há um passivo muito grande nessas áreas, e isso consome muito mais energia do que pensar nos investimentos socioambientais.

Ao mesmo tempo, o setor público tem a percepção de que precisa tratar de diversas áreas ao mesmo tempo. É possível, mesmo naquelas não diretamente relacionadas à sustentabilidade: basta agir de uma forma diferente. Pode-se pensar o replanejamento de uma favela, por exemplo, a partir de uma ótica sustentável, colocar o tema em todas as políticas públicas sem que isso signifique custos maiores”, avalia Broinizi, do Programa Cidades Sustentáveis.

A habilidade para encontrar e replicar soluções em cidades médias e naquelas em desenvolvimento varia muito. Entretanto, não se leva mais de cinco minutos de conversa para tráfego e segurança entrarem na discussão. “O tráfego sempre é uma questão latente. Precisamos de meios integrados de transporte. Se temos congestionamento todos os dias, o espaço urbano não pode se desenvolver. E fazer com que se desenvolva é importante porque 600 grandes cidades estão contribuindo para mais de 50% da nossa atividade global. Precisamos investir em soluções, não há outra maneira”, avalia Roland Busch, CEO do setor de Infraestrutura e Cidades da Siemens.

Aparentemente, o investimento em transporte é uma das questões mais urgentes, não importa de qual metrópole se fale. Além de melhorar a qualidade de vida da população, traz prosperidade ao entorno das novas estruturas. “Não há cidade com dez milhões de habitantes cuja solução tenha sido apropriada sem uma grande linha de metrô ligada ao subúrbio e a outras alternativas de transporte. O sistema deve ser integrado e muito fácil de pagar e usar. Dessa forma, reduzem-se as emissões de CO2 com a menor quantidade de carros, os cidadãos ficam mais felizes e tem-se uma distribuição melhor das pessoas e dos bens”, considera Busch.

Empresas automotivas estão olhando com atenção para as possibilidades de atuação integrada, tanto entre sistemas quanto entre os próprios veículos. A Ford, por exemplo, apresentou, para o período de 2017-2025,  um plano de direção semiautônoma que prevê aumentar a infraestrutura de comunicação dos veículos entre si. “Uma das alternativas para evitar o trânsito está nesses automóveis conectados, uma rede global de transporte que utiliza a comunicação entre veículos, a infraestrutura de transporte e dispositivos móveis pessoais”, destaca Adriane Rocha, gerente de Comunicação Institucional da Ford. Exemplo dessa conexão está no MyFord Mobile, um aplicativo para ser usado com o Focus Electric e os novos modelos híbridos elétricos plug-in. Além de localizar as estações de recarga, permite o controle remoto do veículo para programar e monitorar sua recarga e acessar outros dados utilizando um smartphone ou outra interface ligada à internet.

Para avaliar novas oportunidades de atuação – que serão muitas nos próximos anos – a Siemens realizou o estudo Green City Index. Além disso, inaugurou, em Londres, o edifício The Crystal, sede do Siemens Global Center of Competence Cities. Voltado à pesquisa em sustentabilidade para centros urbanos, o local abriga uma exposição interativa sobre o tema, com dados sobre urbanização, demografia, mudanças climáticas e desafios para as cidades no futuro. Segundo Busch, “existe dinheiro suficiente, mas precisamos encontrar a forma correta de aplicá-lo na infraestrutura certa. Blackouts, por exemplo, custam milhões às cidades, por isso investimos em soluções.”

Entre as cidades de destaque no Green City Index está Berlim, capital da Alemanha. Governantes locais perceberam que os edifícios públicos não otimizavam recursos e, como essas construções são responsáveis por 40% dos gastos com energia, estabeleceram uma estratégia de mudança. “Entregaram 123 edifícios do governo em nossas mãos e disseram: mandem seus engenheiros para lá e descubram o que se pode fazer para reduzir o consumo de energia’”, recorda o executivo da Siemens.

O resultado foi satisfatório para a cidade e para os cofres públicos – 5 bilhões de euros a menos por ano com gastos em energia. Com a quantia economizada, o governo paga o serviço da empresa e utiliza o restante de acordo com as necessidades. Essa forma de financiamento já funciona em alguns países, mas ainda não tem espaço no Brasil. “Isso dá certo quando os engenheiros sabem exatamente o que fazer. A razão de não realizarmos isso no Brasil é que não vemos muitos projetos. Uma vez que o mercado exista, investimos nele, treinamos pessoas e engenheiros”, pondera Busch.

Se, por um lado, o Green City Index revelou cases como o de Berlim e forneceu a base para a construção do The Crystal, por outro deixou a desejar em relação aos dados divulgados sobre a América Latina. “Para avaliar São Paulo, a revista inglesa The Economist, contratada pela empresa, baseou-se em informações da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. O transporte público foi considerado acima da média em termos de qualidade e sustentabilidade! Como estamos em uma rede latino-americana, comparamos dados com outras cidades da América Latina e percebemos as falhas. Talvez, na Europa, o índice funcione melhor devido à abundância de informações”, aponta Broinizi, do Programa Cidades Sustentáveis.

O Programa coloca como base fundamental um banco de boas práticas, mostrando o que há de mais avançado em diversos centros urbanos – desde questões básicas de saneamento até tecnologias mais sofisticadas para economia de energia e mobilidade. A Sabesp, por exemplo, foi conhecer a experiência de Tóquio sobre controle de perda de água e voltou com o compromisso de democratizar a tecnologia de sensores de vazamento – algo simples e eficaz.

Para Broinizi, precisa-se combinar o conhecimento tecnológico com experiências bem-sucedidas, como no caso mencionado. “Não podemos ter um raciocínio ‘etapista’, de primeiro resolver as questões básicas e depois as mais sofisticadas. As inovações e os recursos tecnológicos precisam estar alinhados com o enfrentamento de problemas urgentes para, inclusive, serem utilizados com essa finalidade”, propõe.

No caso dos carros elétricos, por exemplo, a falta de estrutura continua sendo um entrave para sua entrada no país. “A Ford já possui esse tipo de veículo, mas a viabilidade desses produtos no mercado brasileiro depende de uma rede de abastecimento e infraestrutura complementar que suportem a comercialização”, pontua a gerente de Comunicação Institucional da empresa.

O poder das comunidades

Mais do que um lugar para abrigar prédios, a cidade deveria ser um espaço de excelência para o convívio das pessoas. Saber a opinião delas, portanto, pode oferecer um bom termômetro do caminho a ser seguido. “Fale com as pessoas, não há risco nenhum nisso. Toma algum tempo, mas causa um impacto enorme. Descobrimos que algumas cidades na China cobram pouco ou nada de quem consome pouca energia. Quando se consome mais, o preço sobe. Então existe um modelo de mercado”, reflete Busch, da Siemens. Comunidades e negócios, juntos, muitas vezes encontram soluções que podem ser replicadas em grande escala. “Os pequenos negócios estão começando a atuar nessas questões, aproximando-se da sociedade civil e criando coalizões que chegam até o setor público e clamam por mudança. Muitas das melhores coisas que têm acontecido em Nova Iorque foram desenvolvidas em nível local”, destaca Thomas Wright, diretor executivo da Regional Plan Association, uma das mais antigas organizações independentes dos EUA.

Por outro lado, os próprios cidadãos estão trazendo o avanço de projetos mais sustentáveis. Em Estocolmo, na Suécia – considerada a cidade mais verde no mundo –, há um programa de economia de energia que teve início na educação das pessoas dentro das comunidades sobre o porquê determinadas ações estavam sendo tomadas. Agora, já é uma demanda dos cidadãos para o governo.

As grandes empresas, notando esse progresso, podem refletir e descobrir como levar as melhores práticas para a sua gestão, ao mesmo tempo em que investem na aproximação com as comunidades. “Precisamos entender o que é o processo de tomada de decisão com a presença comunitária. Há um relacionamento se desenvolvendo”, avalia Wright.

As novas tecnologias também fazem com que os cidadãos tragam o mundo para o próprio bairro e, mais ainda, para a própria casa.  A recarga de veículos elétricos é um serviço que está se tornando cada vez mais popular nos Estados Unidos, hoje disponível em lugares como supermercados, igrejas, hospitais, lanchonetes e lojas.

Até 2013, a Ford tem planos de triplicar a sua capacidade de produção de veículos elétricos equipados com baterias que permitem recarga rápida em estações públicas. “Existe uma tomada padrão para esses automóveis nos EUA, que pode ser facilmente instalada em qualquer residência. Se houver disponibilidade de uma tomada com 240V, a bateria pode ser totalmente carregada em 4 horas”, destaca Adriane, da Ford.

Se as empresas estiverem atentas a essas duas palavras – planejamento e tecnologia – certamente irão colher bons frutos junto aos governos e cidadãos para o desenvolvimento de cidades mais sustentáveis.

A jornalista Cristina Tavelin viajou para Londres a convite da Siemens.



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