Estamos falando de sustentabilidade?

Especial 20 anos de Ideia Sustentável: Riscos e Oportunidades das Mudanças Climáticas

Por David Canassa

Algum investidor compraria uma empresa sem capacidade de fluxo de caixa consistente no longo prazo?

Uma boa análise de valuation – ou avaliação – implica calcular essa capacidade, pois ela é influenciada por diversos fatores, entre os quais se incluem: a análise de passivos de todos os tipos, os diferentes riscos e a identificação das oportunidades e perspectivas futuras.

Nesse contexto, um bom analista busca compreender não somente a situação de mercado do momento, mas o contexto regulatório e as tendências futuras em relação a como e onde se produz, o nível tecnológico dos concorrentes em relação a seus produtos ou serviços e o futuro dessa demanda, principalmente em relação a seus produtos substitutos.

Bem, então quais seriam bons parâmetros de comparação para essa análise?

Uma referência interessante em relação a tendências futuras é o documento da Oxfan amplamente discutido na Rio+20, chamado Um espaço seguro e justo para a humanidade – podemos viver dentro de um “donut”? Nele, a autora, Kate Raworth, coloca várias questões ambientais e sociais que comprometem a existência humana no planeta. Consequentemente, tais impactos significam modificações no mercado, pois influenciam políticas, leis e costumes dos consumidores.

Uma empresa que tenha (ou que dependa de fornecedores que tenham) envolvimento estreito com qualquer uma das questões colocadas nesse estudo deveria fazer uma boa análise de riscos e oportunidades, pois cedo ou tarde seu mercado será afetado por tais parâmetros e, necessariamente, também seu fluxo de caixa futuro. Esse estudo indica dois grandes blocos de questões: as ambientais (mudanças climáticas, stress hídrico, mudança no uso da terra) e as sociais (igualdade de gênero, renda, liberdade de expressão).

Se esse tipo de análise parece exagerada, podemos sugerir outro viés. O Brasil adotou as normas internacionais contábeis do IFRS (International Financial Reporting Standards), que estabelece que a contabilidade das empresas deve indicar o valor de sua obrigação futura para a recuperação dos impactos gerados ao meio ambiente.

Trata-se das Obrigações Legais no Encerramento de Operações (ou ARO, na sigla em inglês, Asset Retirement Obligation). Esse valor não é um passivo, mas sim a contabilização necessária a valor justo para a recuperação ou compensação da área autorizada a ser impactada pelo empreendimento, no tempo de sua vida útil. Sendo assim, não seria interessante para a empresa estudar continuamente como é possível reduzir o valor dessa recuperação futura por meio de técnicas mais adequadas de gestão da produção e gestão ambiental?

Outro fator que influencia o valuation das empresas é seu valor percebido de marca. Esse valor é afetado direta e rapidamente em seu viés negativo quando a empresa tem problemas socioambientais, seja no nível local ou mais amplo. Dessa forma, a gestão do que hoje é chamado de licença social para operar, a qual envolve o relacionamento da empresa com a comunidade em seus diversos níveis, é uma premissa para se sair de uma postura de mitigação de riscos para outra de geração de valor por meio da construção de ganhos mútuos.

Em sustentabilidade, todas essas questões estão englobadas no processo de materialidade ou identificação de temas críticos a serem enfrentados. Ou seja, são os itens que, se corretamente identificados e endereçados, permitem à empresa ter longevidade, com resultados consistentes, desde que o gerenciamento do dia a dia das operações atue nos resultados presentes, de olho no valor futuro.

Agora, se os mais céticos em relação a esse processo não conseguem identificar a relação entre as áreas de sustentabilidade com a geração de valor para a empresa, não deveriam, no mínimo, gerir suas empresas com os mesmos parâmetros utilizados para seu valuation?

Para refletir.

David Canassa é gerente geral de Sustentabilidade da Votorantim.




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