Steven Johnson

Steven Johnson, um dos maiores pensadores do ciberespaço, fala sobre como as novas ferramentas de comunicação digital influenciarão os modelos de gestão

Uma mistura de “ordem e anarquia”, assim Steven Johnson define o comportamento emergente ou bottom-up (de baixo para cima). Formado em semiótica e literatura inglesa, esse jovem autor norte-americano é considerado um dos maiores pensadores do ciberespaço da atualidade.

Em Emergência – a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares, publicado no Brasil pela Editora Zahar, Johnson analisa sistemas complexos que, em comum, possuem a capacidade de se auto-organizar, dispensando a presença de um controle centralizado.

Johnson observa que as interações nessas comunidades são colaterais, de modo que os indivíduos prestam atenção nos “seus vizinhos mais próximos” em vez de ficar “esperando por ordens superiores”. As formigas, por exemplo, agem localmente, mas a “ação coletiva produz comportamento global”, nas palavras do pesquisador.

É nesse ponto que seus estudos convergem com a discussão do desenvolvimento sustentável, cujo principal norteador é justamente a ideia de que o todo pode ser maior do que a soma das partes. Apesar de bastante discutida, e cada vez mais aceita, essa linha de pensamento sistêmico ainda encontra barreiras no que diz respeito a sua aplicação prática nas organizações. A dificuldade se deve à predominância do modelo mental tipo top-down, de cima para baixo, em que todos obedecem a hierarquias.

Segundo Johnson, o contraponto a esse sistema estaria na natureza, que não trabalha com líderes, mas sim com modelos bottom-up. O pesquisador chama atenção para o fato de que a ciência, até então focada na compreensão do mundo da emergência, já começa a modificá-lo, e cita interessantes experiências como jogos de computador que simulam ecologias vivas ou softwares que nos permitem ver os padrões do nosso próprio cérebro.
Em seu livro, lançado em 2001, Johnson indicava que a grande mudança ainda estava por vir, à medida que meios de comunicação e movimentos políticos começassem a ser delineados por forças bottom-up.

Nove anos mais tarde, já há exemplos nesse sentido, sobretudo com a popularização de redes sociais na internet. Sobre esse fenômeno, Johnson adverte que é preciso levar as experiências do mundo virtual para o real e vice-versa.

Em palestra na Conferência Internacional de Cidades Inovadoras, realizada em março, na cidade de Curitiba, o pesquisador enfatizou que as redes sociais existem desde muito antes do advento da comunicação digital. Lembrou ainda que grandes ideias surgiram de conversas informais em cafés, que nada mais eram do que redes sociais. Johnson as define como o espaço limítrofe entre o ambiente público e privado, onde é possível se conectar ao mundo físico por afinidades e compartilhar ideias.

Segundo ele, o sucesso de ferramentas como o Twitter e Facebook se justifica por terem trazido esse tipo de experiência para o mundo virtual, ampliando infinitamente a possibilidade de contatos e ideias. Além disso, destacam-se pelo fato de terem sido concebidas como plataformas abertas, fazendo com que ganhassem usos não previstos pelos programadores, criados por pessoas comuns, o que Johnson chama de “inovação pelo usuário final”.

“Em uma organização, com ou sem fins lucrativos, quando se tem uma propriedade intelectual, há sempre duas alternativas: protegê-la até que a solução seja aprimorada internamente ou lançá-la, comunicando que a ideia precisa de melhorias, pode receber complementos ou ainda novos usos. A abertura desse último modelo favorece a inovação porque as ideias não se fecham, uma vez que os usuários continuam aprimorando-as”, afirma.

O pesquisador destaca que essas experiências colaborativas já começam a influenciar a gestão nas cidades e organizações, tendência que se intensificará ainda mais a partir da inclusão de dados georreferenciais às informações compartilhadas. Assim, essas redes sociais transformam-se em instrumentos para aproximar e engajar pessoas em busca de soluções para os problemas do seu bairro, município, estado ou país. É o que já acontece, por exemplo, com o SeeClickFix.

Essas redes também irão influenciar o comportamento dos indivíduos, levando-os a fazer escolhas mais conscientes. O Foursquare é um exemplo nesse sentido, pois permite que internautas compartilhem informações sobre estabelecimentos em tempo real. Além do serviço prestado, essa plataforma, estruturada como se fosse um jogo, é também uma opção de entretenimento, fator determinante para adesão dos usuários.

À medida que qualquer pessoa com acesso à internet pode disseminar seu conteúdo na rede ou se tornar um crítico, as estruturas organizacionais e políticas também se alteram de forma significativa. O poder passa a depender da capacidade de criar conhecimento juntos e também aplicá-los de forma coletiva. Nesse cenário, o conceito que temos de liderança dever ser revisto.

Segundo Johnson, os administradores de alta escala terão evidentemente seu lugar, mesmo nas organizações de poder mais distribuído, mas não terão mais o papel de líderes. O que importa é como extrair o máximo da inteligência coletiva existente na instituição.
Em entrevista à editora Juliana Lopes, Johnson falou sobre como as experiências de emergência – tanto nos sistemas naturais, quanto nas redes sociais na internet – podem auxiliar a criar novos modelos de gestão.

INFORMAÇÃO QUE FAZ DIFERENÇA

Devemos pensar em como oferecer a informação de uma forma que faça as pessoas mudarem seu estilo de vida. O Prius (veículo da Toyoya), por exemplo, mostra em tempo real ao motorista o consumo de combustível por quilômetro rodado. Isso faz com que ele perceba como a eficiência de combustível está relacionada à forma como dirige.

A eficiência do consumo de combustível aumenta porque as pessoas estão tendo acesso a essas informações. Mais cedo ou mais tarde, as empresas terão de disponibilizar informações referentes ao seu negócio na internet, a partir de ferramentas que proporcionem a interação com seus públicos. E há algo que precisa ser aprendido do mundo dos jogos. A Microsoft desenvolveu um aplicativo chamado Foursquare, sistema por meio do qual as pessoas indicam quantas vezes foram a diferentes lugares como shoppings, restaurantes, entre outros. Ele funciona como um jogo no qual há uma contagem quando alguém está ganhando.

As pessoas simplesmente adoram isso e se divertem. Mesmo sabendo que não há dinheiro envolvido, querem ganhar. E se faz isso de forma divertida. Se a contagem de pontos puder medir de alguma forma a sustentabilidade, considerando, por exemplo, emissões de carbono ou qualquer outro tipo de ativo que desejar, e isso for público, então teremos uma competição de quem pode conseguir influência a partir de seu comportamento.

Isso já está acontecendo em pequenas comunidades. E ganhar uma competição dessas significa que você está fazendo um trabalho melhor para criar um planeta mais sustentável.  Enquanto que ganhar no Foursquare significa apenas que você tomou mais café do que qualquer outra pessoa (risos).

Quando penso no futuro dos relatórios de sustentabilidade, imagino um sistema como esse, envolvendo uma rede social em um tipo de jogo capaz de estimular muito mais relatos sobre como as pessoas estão agindo ou como as organizações pensam, criando documentos mais divertidos, muito diferente dos formatos atuais em PDF.

LIÇÕES DA NATUREZA

Certamente aprendemos com os sistemas naturais. A diversidade biológica pode orientar o desenvolvimento de produtos. Tomemos como exemplo algumas relações simbióticas que acontecem entre organismos, como entre algas e corais. O lixo de um se torna material para construção do outro, e o lixo do outro ajuda no crescimento do primeiro. Isso cria um feedback positivo.

Essa certamente é uma lição para nós. A forma como os ecossistemas naturais estabelecem relações sustentáveis, reciclam energia e nutrientes pode servir de base para inovações. Não se trata apenas de uma questão de ser responsável. Na verdade, esses sistemas podem ser uma resposta para o crescimento. Essa é uma mensagem importante neste momento.

OPEN INNOVATION 2.0

Em uma organização, com ou sem fins lucrativos, quando se tem uma propriedade intelectual, há sempre duas alternativas: protegê-la até que a solução seja aprimorada internamente ou lançá-la, comunicando que a ideia precisa de melhorias, pode receber complementos ou ainda novos usos, obtendo, assim, informações referentes a eventuais gaps.

Subestimamos a força desse modelo open source, que favorece a inovação porque as pessoas sentem que podem inovar também. Além disso, essas ideias não se fecham, pois as pessoas continuam aprimorando-as. Temos visto exemplos nessa linha em termos de governos que abriram seus dados, de redes sociais abrindo suas plataformas, o que tem feito muita diferença. Acho que podemos apontar para isso e dizer “vejam, isso realmente funciona”. Não é uma teoria hippie, é um negócio real.

CONSUMO CONSCIENTE

Muito do que consumimos – não importa se o carro que compramos, os programas de televisão que assistimos ou os jornais que lemos – será filtrado por essas redes sociais. Sempre trocamos informações com amigos sobre roupas, CDs, mas agora, com a construção dessas redes, essas recomendações virão via software. Isso pode ajudar as pessoas a tomar melhores decisões.

Simplesmente não temos tempo para pesquisar sobre tudo o que queremos comprar, como a máquina de lavar louça mais sustentável. Mas se você tem uma rede de pessoas que compartilham os mesmos valores que você, pode falar: “Ei, network, estou em uma loja, diga o que é melhor comprar”. Isso é fantástico! Acho que esse tipo de processo de tomada de decisão se dará cada vez mais por meio de redes sociais, e todas as decisões das pessoas serão afetadas por elas.

ESTRUTURAS SEM CENTRO

Não há dúvidas de que os sistemas emergentes podem ser extremamente inovadores e criativos e têm, naturalmente, mais capacidade para se adaptar às novas situações do que os padrões de organização mais rigidamente hierárquicos. O novo papel da alta administração seria precisamente o de motivar os grupos e os indivíduos na organização para a geração das idéias.

Os processos, a evolução e visão do futuro devem emergir de múltiplas correlações bottom-up. Os administradores de alta escala terão evidentemente seu lugar, mesmo nas organizações de poder mais distribuído, mas não terão mais o papel de líderes. O que importa é como extrair o máximo da inteligência coletiva existente na instituição.

As redes sociais como ferramentas de mobilização:

SeeClickFix
Com essa plataforma é possível identificar os problemas nas regiões de interesse e torná-los públicos por meio de relatórios inseridos pela própria ferramenta do site ou pelo celular. O objetivo do portal é chamar a atenção para os problemas locais e cobrar uma atuação mais eficiente das autoridades.

Foursquare
Em formato de jogo, este site estimula as pessoas a trocar informações sobre formas interessantes de explorar suas cidades. Os usuários que descobrem novos lugares acumulam pontos, podendo vir a receber “medalhas” ou até mesmo se tornar “prefeitos” de determinado lugar.

Kickstarter
É uma plataforma em que artistas, designers e empreendedores podem solicitar financiamento aos seus projetos. As transações são feitas por cartão de crédito e podem variar de U$S 1 a U$S 10 mil.

Facebook Causes
Essa ferramenta oferece a oportunidade de angariar fundos para projetos e ações sociais, mobilizando pessoas na rede de relacionamentos do Facebook.

Twitter
O terromoto no Haiti inaugurou um novo uso do twitter. Além de ser a primeira a disseminar informações sobre o desastre, a rede social funcionou como um importante canal para organizar os esforços de socorro e atendimento às vítimas.

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