Liderança sustentável promove revolução na Amazônia brasileira

Desenvolvimento de lideranças, inovação verde e empreendedorismo socioambientalmente responsável são ingredientes da linha Ekos, da Natura, para promover o desenvolvimento sustentável na floresta amazônica

Por Cláudia Piche*
Fotos: Marcos Suguio

“Tem seis mil reais só de castanha de murumuru nessa voadeira”, conta D. Creusa, cheia de orgulho, referindo-se ao dinheiro investido no barco motorizado adquirido pela família com a renda obtida da venda dessa matéria-prima retirada da floresta amazônica às margens do Rio Moju, no Pará, por onde até poucos anos atrás a família se locomovia num pequeno barco a remo. Antes, a árvore nativa do murumuru era derrubada pelos moradores locais, assim como a andiroba e a ucuúma – esta última, apesar de ameaçada de extinção, ainda hoje pode ser comprada nas proximidades pela bagatela de sete reais para utilização do tronco até como cabo de vassoura!

Na comunidade de Jauari, no entanto, onde vivem cerca de 35 famílias – entre elas a de Creusa Pereira, 57 anos, e seus 16 filhos -, derrubar espécies nativas deixou de ser uma prática desde a fundação da Associação de Moradores e Produtores Rurais, que há sete anos mantém parceria com a Natura para o fornecimento de ativos da biodiversidade brasileira utilizados na fabricação de produtos da empresa, sobretudo os da linha Ekos – cujos fornecedores, atualmente, encontram-se em 35 comunidades no Brasil, sendo 25 delas na Amazônia.

O que se vê hoje, nessas comunidades, é uma verdadeira revolução. Na de Jauari, por exemplo, D. Ana Maria, delegada fiscal da Associação, conta que, graças à parceria com a Natura, já conseguiu comprar geladeira e vários eletrodomésticos. Mas, muito além da melhoria na renda das famílias resultante da relação comercial com a empresa, a parceria tem fortalecido a articulação comunitária dos ribeirinhos nas recentes conquistas junto ao poder público. A energia elétrica, por exemplo, só chegou no ano passado, depois de mais de 10 anos de luta. Assim como os barcos municipais que hoje transportam as crianças até as escolas.

No caso da produção do açaí – base da culinária e da economia local –, a comunidade de Jauari ainda depende dos atravessadores, já que, para essa matéria-prima, a Natura conta com o fornecimento de outras comunidades, que já supriam a demanda. “Agora estamos negociando com outras empresas, por meio do Sebrae, para venda direta desse produto”, conta Francisco José Ferreira Pereira, um jovem de apenas 23 anos que atualmente preside a Associação de Moradores e Produtores Rurais de Jauari. Para um futuro próximo, Francisco sonha em dar um novo passo na relação com a Natura, extraindo o óleo das castanhas do murumuru e da andiroba, hoje vendidas in natura para a empresa, na própria comunidade. “Queremos agregar valor ao nosso produto!”

Apostando na liderança jovem

Formar jovens líderes para a sustentabilidade tem sido a aposta da Natura para conscientizar as comunidades da Amazônia sobre o valor da floresta em pé. Para manter seu negócio, no entanto, a empresa precisa lidar com os desafios das questões inerentes às populações tradicionais. “A primeira é que, até bem pouco tempo, tratava-se de um mercado totalmente informal. Além disso, as organizações sociais envolvidas são frágeis, bem como a legislação, nem sempre adequada à realidade dessas populações. E, por fim, há um desafio técnico, já que ainda não existe conhecimento suficiente sobre a melhor forma de produzir algumas matérias-primas, como o murumuru e a andiroba, antes desprezadas por essas comunidades”, explica Mauro Costa, engenheiro agrônomo e gerente de Relacionamento e Abastecimento da Sociobiodiversidade da Natura. Para lidar com esses desafios, a empresa tem estabelecido parcerias com ONGs, institutos de pesquisa e universidades, e trabalha com equipes interdisciplinares compostas de antropólogos, sociólogos, químicos, engenheiros agrônomos e florestais e geógrafos para a aplicação de três grandes programas de capacitação.

O primeiro desenvolve conceitos de associativismo e noções sobre indicadores financeiros e formação de preços em toda a cadeia de produção. Outro trata da saúde e segurança. E um terceiro programa foca as boas práticas de sustentabilidade no trabalho. Anderson Fernando (ou Marcelo, como é conhecido) é frequentador assíduos dos cursos oferecidos pela empresa. Aos 25 anos de idade, ele tornou-se um agente local, atividade de liderança na região pela qual recebe salário da Natura. Sua missão, assim como a de Francisco Pereira e outras jovens lideranças da comunidade, é conscientizar os produtores sobre a importância da preservação e também disseminar conhecimentos sobre as boas práticas, garantindo, assim, a perenidade na entrega da matéria-prima. “A regularidade na produção é uma dificuldade que enfrentamos, porque ainda estamos estudando as safras de algumas espécies nativas”, conta o presidente da Associação. Mesmo assim, só neste ano de 2014, as jovens lideranças arrebanharam cerca de 10 novos produtores para a Associação. “Antes derrubávamos tudo para dar espaço apenas ao açaí. Agora, em parceria com a Natura, estamos entendendo o valor da nossa diversidade e convencendo os produtores sobre o quanto o bem-estar da comunidade está ligado à proteção da natureza”, diz Marcelo.

Liderança na base

Para a prosperidade de seus negócios, a Natura sabe que é preciso investir nos valores da liderança sustentável cada vez mais cedo. Um desafio e tanto numa região dominada por cinco cadeias econômicas essencialmente predatórias: mineração, soja, gado, construção de infraestrutura e extração de madeira.

Na outra ponta, uma educação oficial formal que valoriza basicamente as práticas urbanas, incentivando, portanto, o êxodo daqueles alunos que conseguem concluir os estudos. “Num cenário como esse, é fundamental investir em capital humano e valorizar os saberes dessas populações. Quanto mais empoderadas essas pessoas se sentirem, mais visionárias elas se tornam, adquirindo autonomia e vislubrando novos mercados e possibilidades”, diz Renata Puchala, gerente de Sustentabilidade da Natura. No âmbito do Programa Amazônia – cujo objetivo é transformar a região num pólo mundial de inovação, tecnologia e sustentabilidade -, a Natura desenvolve dois grandes projetos educacionais. ARede de Apoio à Educação para a Amazônia, em parceria com o Instituto Natura e voltada para o ensino fundamental, é uma plataforma de gestão que já envolve 27 municípios do Pará para o fortalecimento de políticas públicas e a construção dos planos municipais de educação.

Já o programa de Pedagogia de Alternância do Ensino Médio Técnico propõe períodos alternados de jornadas na escola e nas Casas Familiares Rurais, onde os alunos aplicam, na prática, soluções para problemas reais da produção de suas famílias. “Nosso grande desafio é desenvolver o pensamento de médio e longo prazos. Quando as pessoas enxergam além do importante e do urgente, elas entendem também que não precisam depender apenas da Natura para melhorar sua condição de vida, já que existe um mercado real com esse apelo dos ativos naturais. O que pretendemos aqui é deixar um legado, não estabelecer uma relação de dependência”, afirma Renata.

Simbiose industrial

Foi esse potencial de mercado para ativos da biodiversidade amazônica que a Natura vislumbrou quando decidiu investir R$ 178 milhões na construção de um Ecoparque em Benevides, há 35 quilômetros de Belém do Pará, inaugurado em março deste ano. Com uma área total de 172 hectares – grande parte destinada à proteção ambiental –, a fábrica da marca (Saboaria Amazônia) ocupa cerca de 10 mil metros quadrados e foi construída a partir dos conceitos da ecoeficiência: sistema de captação de água da chuva para geotermia, com dutos de ventilação subterrânea, bem como paredes duplas para diminuição do calor reduzem cerca de 40% o consumo de energia com ar-condicionado, por exemplo. E o sistema de jardins filtrantes, o único das regiões Norte e Nordeste do país, dá conta de 100% dos resíduos industriais e domésticos da fábrica. Além disso, cerca de 90% dos colaboradores (228 contratados e 130 terceirizados) são provenientes do entorno do município de Benevides, valorizando, assim, a mão de obra local.

O Ecoparque dispõe de lotes de tamanho semelhante ao de sua fábrica para a instalação de indústrias que queiram produzir, por meio da simbiose industrial e de forma sustentável, produtos que utilizem resíduos da produção da Natura na fabricação de outros gêneros, como alimentícios e fármacos. “O objetivo é manter uma cadeia 90% integrada e com desperdício zero”, afirma José Mattos, responsável por Relações Comunitárias e Empreendedorismo do Ecoparque.

A fábrica da Natura no Ecoparque destina-se à produção de sabonetes, principalmente os da linha Ekos, totalmente produzidos a partir de óleos vegetais, portanto isentos de gordura animal. A base do sabonete – o chamado noodle – ainda é composta em sua maior parte pelo óleo de palma, infinitamente mais barato e produtivo do que os provenientes de ativos da biodiversidade brasileira. Mas a empresa acaba de anunciar que já está utilizando cerca de 5% desses óleos essenciais na base de seus sabonetes.

Isso garante não apenas uma maior explosão na fragrância, como, sobretudo, um aumento no consumo das matérias-primas produzidas na Amazônia. “Nosso modelo de negócio sustenta-se em três pilares: o conhecimento tradicional, a inovação verde e o empreendedorismo com responsabilidade socioambiental. Produzimos sabonetes dafloresta e na floresta para consumidores de todo o Brasil e exterior, unindo conhecimento, arte e técnica”, orgulha-se Daniel Campos, diretor da Unidade Global de Cuidados Pessoais da Natura.

Atualmente, a Saboaria Amazônia produz cerca de 30 mil unidades/dia, mas pretende chegar a 50 mil, em 2015. Até 2020, os compromissos do Programa Amazônia são aumentar para 10 a 12 mil famílias fornecedoras de ingredientes da floresta (atualmente são cerca de 2.700); aumentar de 10 para 30% o consumo de matérias-primas amazônicas; movimentar um bilhão de reais na região; e gerar valor local a partir de negócios sustentáveis. Para 2050, a meta é ainda mais ambiciosa: a Natura pretende gerar impacto socioambiental positivo. Para traduzir o que parte disso significa, vale recorrer ao singelo pensamento da D. Creusa, do início desta reportagem: “Antes a gente só deixava de pé o açaí. Hoje todo mundo quer plantar murumuru!”

*A jornalista Cláudia Piche viajou para o Pará a convite da Natura.




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