Líderes com valores: como pensam e agem, e em quê acreditam

RICARDO VOLTOLINI

Todos temos um ano de turning point na vida profissional. Considero que o meu tenha se dado em 2008. Foi a partir desse ano que iniciei um processo de reinvenção de propósitos que culminaria, três anos depois, na elaboração do livro Conversas com Líderes Sustentáveis (Editora Senac-SP/2011) e, logo em seguida, no lançamento da Plataforma Liderança Sustentável. Explico melhor.

O insigth ocorreu após a realização de um ensaio jornalístico denominado Quem são os Mandelas da sustentabilidade?, para a revista Ideia Sustentável (2005-2015), que criei para ler o que não lia em nenhum lugar. Àquela época, eu andava incomodado – quase à beira de uma crise existencial – com o fato de que nossos projetos de consultoria invariavelmente não conseguiam ultrapassar a etapa 1. Começava a desconfiar da qualidade de nossa abordagem e até mesmo da eficiência de nossa metodologia, quando ocorreu-me fazer uma pesquisa com executivos de sustentabilidade para tentar compreender as razões pelas quais o conceito avançava mais rapidamente em algumas empresas, migrando da epiderme das ações pontuais para a corrente sanguínea das estratégias de negócio.

Entrevistei 25 líderes empresariais para a matéria da revista. Informalmente, falei com outros 45 executivos, reunindo, ao final de quatro meses de trabalho, dados preciosos que possibilitaram identificar cinco pontos comuns nas empresas em que o conceito da sustentabilidade havia se incorporado à gestão do negócio: (1) a prevalência de uma visão de oportunidade e não de risco; (2) a inserção do conceito na cultura e nos valores da organização; (3) a preocupação de envolver e educar as partes interessadas; (4) a capacidade de comunicar bem o valor da sustentabilidade aos diversos públicos; e (5) a presença de um líder sentado na cadeira de presidente que acredita apaixonadamente no valor do tema para o negócio e se incumbe, ele próprio, de ser o seu principal porta-voz, influenciando e formando outros líderes na organização.

Desse conjunto de cinco variáveis, uma análise mais detida nos levou a concluir que as quatro primeiras eram consequência da presença de uma liderança sensível, atenta e interessada. Foi justamente para investigar como pensam, agem e tomam decisões os líderes “sustentáveis” que escrevi Conversas com Líderes Sustentáveis, depois Escolas de Líderes Sustentáveis (Editora Campus Elsevier, 2014) e uma série de outros cinco livros, um por ano, que, a depender da minha vontade, não deve acabar nos próximos 10 anos.

Na última década, entrevistei 150 executivos brasileiros, elaborei 170 perfis de liderança e produzi 120 vídeo-depoimentos (todos eles publicados em www.ideiasustentavel.com.br), compondo uma das maiores plataformas de gestão de conhecimento em sustentabilidade empresarial do mundo—a Plataforma Liderança Sustentável.

O que tem me movido, nesse processo, é a curiosidade intelectual por delinear o perfil do líder que, acredito, fará a transição do business as usual para um modelo de pensar e fazer negócios com ética, transparência, integridade, geração de valor compartilhado, respeito à diversidade, atenção ao outro e cuidado com o meio ambiente. Não tenho a pretensão de achar que cheguei ao meu destino. Nem que já tenha registrado um quadro preciso e imutável das competências que definem este tipo de liderança. No máximo, caminhei o suficiente para entender que, a despeito de estilos e temperamentos distintos, há seis características comuns entre esses líderes disruptivos. (1) Eles têm crença firmes e praticamna gestão dos negócios, os valores que compõem o conceito de sustentabilidade: (a) ética a serviço de decisões melhores, que jamais prejudiquem as pessoas e o planeta; (b) transparência na relação com todas as partes interessadas; (c) respeito à diversidade em todas as suas formas (gênero, etnia, idade, religião, deficiência, orientação sexual); (d) respeito ao outro (colegas, fornecedores, clientes e comunidades); e cuidado com o meio ambiente, por meio da redução/eliminação/compensação de todo tipo de desperdício de recursos naturais.

(2) Eles têm coragem para tomar decisões mais sustentáveis, que, às vezes, desafiam noções convencionais de custo-benefício e retorno sobre investimento; coerência entre o que dizem e fazemno dia a dia das atividades profissionais; paixão para fazer melhor o que fazem, tendo em vista sempre a geração de valor compartilhado para os stakeholders; e resiliência para enfrentar eventuais obstáculos às mudanças decorrentes da adoção de práticas exigidas por um modelo mais sustentável de atuação.

(3) Eles têm a capacidade de escutar todos os pontos de vista e necessidades, estabelecer relações horizontais, conversar com diferentes atores, muitas vezes críticos ao negócio, e criar sinergias envolvendo pessoas e mobilizando recursos (financeiros, parcerias, alianças, lideranças de comunidade) em torno de práticas de negócios mais sustentáveis.

(4) Eles têm visão estratégica, de oportunidade e de inovação. Possuem a capacidade de olhar os desafios de sustentabilidade a partir da ótica de oportunidade, identificando os grandes temas com base nos principais impactos sociais e ambientais (e os seus consequentes benefícios para o negócio), colocando-os no coração da estratégia e inovando para entregar valor ao cliente na forma de melhores processos, produtos, serviços e modelos de negócio.

(5) Eles compreendem e praticam, no cotidiano do negócio, a visão sistêmica (o todo é mais do que a somatória das partes) e a lógica de interdependência (tudo e todos estamos interligados) entre as dimensões econômica e social/ambiental; e também a noção de geração de valor compartilhado para todas as partes interessadas.

(6) Eles educam outros líderes e contribuem para o fortalecimento da cultura de sustentabilidade na empresa.

Ricardo Voltolini é consultor, escritor, palestrante e CEO de Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade; idealizador da Plataforma Liderança Sustentável e autor, entre outros, de Conversas com Líderes Sustentáveis(Senac-SP), Escolas de Líderes Sustentáveis (Elsevier) e Sustentabilidade como Fonte de Inovação (Ideia Sustentável). Já fez mais de 1000 palestras, seminários e workshops. Já atendeu, como consultor, mais de 200 empresas.




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