Lixo: marchas e contramarchas de um debate fundamental

Especial 20 anos de Ideia Sustentável: Gestão de Resíduos

Por Maurício Waldman

Poucos temas expressam de modo tão emblemático os dilemas da civilização moderna quanto o lixo. Desdobramento direto da pulsão consumista e de concepções negadoras da natureza, o tema articula-se funcionalmente com uma série de impactos ambientais, todos sem precedentes na história da humanidade.

Sabe-se que os dinamismos do meio natural – ventos, marés, vulcanismo, entre outros – movimentam 50 bilhões de toneladas de materiais/ano. Já as atividades humanas são responsáveis pelo deslocamento de 48 bilhões de toneladas de materiais/ano, das quais cerca de 30 bilhões são transformados em lixo.

Portanto, é impossível imaginar que o planeta possa permanecer incólume com praticamente uma “natureza” adicional agindo no mesmo espaço e no mesmo tempo. É inegável que presenciamos uma “era do lixo”, na qual a geração de descartes está paulatinamente induzindo a ocupação total da Terra pelos resíduos.

Desse modo, a necessidade de não só deter o avanço do lixo como igualmente fazê-lo retroagir se impõe de forma categórica. Nesse particular, seria oportuno afiançar o “estado da arte” dos resíduos brasileiros e a performance dos agentes econômicos enquanto protagonistas na efetivação de boas políticas de gestão do lixo.

Contrariando difuso senso comum que criminaliza a priori as nações afluentes como responsáveis por excelência pelos agravos ambientais, observe-se que a situação do Brasil ensejaria vários reparos. Embora a população brasileira corresponda a pouco mais de 3% da humanidade e 3,5% do PIB mundial, o Brasil desova cerca de 5,5% dos refugos planetários. That is to say: estamos descartando bem mais do que sugeriria o perfil demográfico e econômico do país.

Sublinhe-se que a metrópole paulista é o terceiro polo gerador de rebotalhos em nível global, atrás apenas de Nova Iorque e Tóquio. Entretanto, é o 13º PIB urbano. Ou seja: a conurbação gera mais lixo que Berlim, Londres e Paris, urbes contempladas com status de riqueza urbana bem mais encorpado.

É também importante frisar que o apelo para assegurar modelos eficientes de gestão dos resíduos não deixou de repercutir no pensamento gerencial. Um marco matricial a expressar esse propósito foi o surgimento do Compromisso Empresarial para a Reciclagem (CEMPRE).

Fundada na cidade de São Paulo por 14 empresas privadas, em março de 1992, a instituição constituiu-se no principal fórum multissetorial do gênero no país. Centrada em promover o conceito de Gerenciamento Integrado do Resíduo Sólido Municipal, incentivar a reciclagem pós-consumo e difundir a educação ambiental com foco na teoria dos três “R” (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), trata-se, seguramente, de ator de primeira grandeza no esforço em redirecionar os processos de ejeção de bens descartados.

O reaproveitamento do que anteriormente era estigmatizado como resto inservível tem demonstrado incisivo vigor econômico: o setor cresce dois dígitos por ano. Evidência que não tem como ser desmentida, a reciclagem passou a integrar o cotidiano urbano em muitos pontos do país.

Atualmente, 14% dos resíduos gerados no Brasil são recuperados. E mais: sem contar os trabalhadores do parque industrial reciclador e segmentos direta ou indiretamente consorciados ao trabalho de recuperação de materiais, a literatura especializada contabiliza um milhão de catadores operando em todo território nacional, colaborando com para preservar o ambiente urbano e impedir o desperdício de valiosas matérias-primas.

Essa mudança é respaldada, no plano da economia dos materiais, por noções como sustentabilidade, ecodesign, ecoeficiência, análise do ciclo de vida dos produtos (Life Cycle Assessment) e tripé da sustentabilidade (Triple Bottom Line). Tais conceitos tornaram-se crescentemente indissociáveis do jargão do universo empresarial, notabilizando-se nos circuitos industriais de ponta como uma ferramenta vital para a implantação de uma produção ecoeficiente e gestão diferenciada dos resíduos sólidos.

Tendo por meta a minimização dos impactos, otimização do uso dos insumos e diminuição da geração de rejeitos, essas metodologias têm cumprido função exemplar no periciamento do uso de matérias primas, contribuindo para ampliar a vida útil dos materiais e diminuindo a geração de lixo.

Enquanto estratégia de gerenciamento dos circuitos produtivos, tais conceituações embasam, junto ao mundo corporativo, o inter-relacionamento das esferas do social, econômico e ambiental com os princípios gerais da sustentabilidade, que são o seu cerne, todos com notória impactação positiva no tocante a um gerenciamento ótimo dos rejeitos.

Suscitando mudanças comportamentais no quadro funcional e no plano de vida pessoal dos participantes, iniciativas calcadas na transformação de atitudes projetam, simultaneamente, a força do elemento motivacional como matriz das políticas de sustentabilidade corporativa. Entretanto, face às incompletudes do monitoramento do lixo, os avanços apontados também sinalizam que ainda há muito a ser feito, razão pela qual alinharíamos três considerações essenciais.

A primeira estaria endereçada aos modelos teóricos que comumente transitam na esfera das ideias. Uma ponderação axial diria respeito à recidiva tendência em trabalhar as variáveis ambientais de forma isolada e desarticulada entre si, dando azos a leituras esquemáticas, simplistas e lineares, abrindo brecha para que estratagemas, como as da maquiagem verde (greenwashing), ganhem ânimo e difusão.

Em contraposição a essa tendência, é necessário enfatizar que o lixo sustenta articulação concreta com ampla coleção de apensos, interpondo problemáticas que solicitam visão de conjunto. Isso implica priorizar metodologias interdisciplinares e transtemáticas, como aquelas voltadas para cartografar os engates objetivos que atam conceitualmente o debate dos resíduos sólidos aos recursos hídricos e à matriz energética, assim como referendar a filiação do lixo à materialidade social, isto é, substantivando um processo e não meramente um resultado.

No plano institucional, é fato que nem sempre as respostas do poder público têm evidenciado proficiência necessária para minimizar as interfaces mais dramáticas da ejeção dos rejeitos. Planilhas oficiais informam que apenas 2,5% dos municípios brasileiros mantêm parceria com associações e cooperativas de catadores. Mesmo nas ações de planejamento, o Estado não tem cumprido o que seria sua função obrigatória. Em 2012, ao final do prazo estabelecido para a confecção dos planos de gestão de resíduos, menos de 10% das municipalidades cumpriram sua “lição de casa”.

A própria reciclagem, embora embalando uma escalada de êxitos, tem muito chão pela frente. Nações como Alemanha, Bélgica, Suécia, Irlanda, Países Baixos e EUA reciclam, respectivamente, 48%, 35%, 35%, 32%, 32% e 31%. Esses números, confrontados com o índice nacional, de 14%, falam por si o quanto a parceria das administrações com os catadores e os empresários deve avançar na senda de uma gestão sustentável do lixo.

O que terminamos de elencar são as dificuldades, não o estado de espírito. Disse certa vez o ambientalista Paul Hawken: “Não se deixem dissuadir por pessoas que não sabem o que não é possível. Façam o que precisa ser feito, e verifiquem se era impossível exclusivamente depois que tiverem terminado”. É exatamente essa a prédica que move os que investem na sustentabilidade. É esse o clamor de uma gestão de excelência do lixo.

Maurício Waldman é doutor em Geografia pela USP e pós-doutor em Geociências pela UNICAMP. Atuou como coordenador de Meio Ambiente em São Bernardo do Campo e chefe da Coleta Seletiva de Lixo da capital paulista. Pesquisador da área de resíduos sólidos, é autor de Lixo: Cenários e Deságios (Cortez Editora, 2010), obra finalista do Prêmio Nacional Jabuti de 2011 no quesito melhor livro de Ciências Naturais.




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