Darian Heyman

Por Cristina Tavelin

O eterno retorno

Os resquícios da revolução industrial continuam a ditar a cultura no que diz respeito ao aproveitamento de recursos naturais. E as consequências de padrões de produção e consumo desenfreados assombram o desenvolvimento das sociedades.

Convencidos de que a mudança de espírito neste século XXI necessita de uma boa dose de pragmatismo, o arquiteto William McDonough e o químico Michael Braungart desenvolveram o conceito do Cradle to Cradle – ou “do berço ao berço”. No livro de título homônimo, os autores argumentam que o conflito entre indústria e meio ambiente não representa uma consequência do comércio em si, mas de um design puramente oportunista.

Para um projeto ecologicamente inteligente, pregam que produtos e processos sejam pensados de forma sustentável, de tal modo que, chegada a hora do descarte chegar, eles integrem novos processos nas mais diversas cadeias – com qualidade igual ou superior à sua origem. Atualmente, a empresa de certificação de design sustentável Cradle to Cradle ajuda as organizações a implantarem esse tipo de conceito.

Em conversa com Ideia Sustentáve, Darian Heyman, representante da empresa, explicou os principais pontos do conceito e os desafios para integrá-lo na estratégia das empresas.

Ideia Sustentável: Na sua opinião, quais os maiores desafios para as empresas trabalharem processos mais inovadores, como o biomimetismo – baseado na observação da natureza para a construção de novas soluções?

Darian Heyman: O grande desafio é pensar maior. O conceito do Cradle to Cradle vai além de uma abordagem mais eficiente, que polui menos e gera menos resíduos – isso não é o bastante. Precisamos ser mais ousados em nossas metas, pensar maior e chegar ao “resíduo zero”. Ou seja, temos de não gerar resíduos e estarmos 100% baseados em energia renovável.

Uma vez que as pessoas começam a pensar maior, coisas incríveis se tornam possíveis. Vemos surgir empresas como a Comet Skateboarders, na qual realmente  produzem-se skates melhores por um custo mais baixo justamente por usar madeira de reflorestamento e componentes naturais – a empresa excluiu qualquer substância tóxica de seu processo e descobriu até melhores tipos de cola para os seus produtos, além de materiais mais duráveis e biodegradáveis.

IS: Como as empresas podem criar um ambiente favorável à criatividade dos colaboradores? Abrir espaço para mais diálogo seria uma solução?

DH: Essa questão do diálogo é muito importante. Estamos saindo de um modelo antigo de poder – de cima para baixo –, no estilo de um broadcast de televisão ou de rádio. E as redes sociais representam, agora, a revolução nesse poder – que passa a emanar da base para o topo. Isso significa que não importa quão esperto você seja – se um especialista em algum assunto -, as pessoas unidas serão ainda mais espertas e fortes.

Então, do ponto de vista dos negócios, para encorajar a inovação precisa-se dar a todos uma voz. E, em vez de simplesmente direcioná-la a uma comunidade ou a uma pessoa específica, um diretor – por exemplo – deve estimular todos da organização a buscar soluções, procurar melhores formas de fazer algo.

IS: Hoje, a inovação está completamente relacionada à sustentabilidade? Se uma empresa quer ser inovadora, precisa ter o conceito internalizado em sua estratégia?

DH: Acredito que a sustentabilidade seja uma parte da inovação. Há outros tipos específicos de inovação, como a ambiental, a cultural, a tecnológica. Então, a sustentabilidade integra a ideia de se criar um ambiente mais empreendedor – e o mundo do empreendedorismo significa, literalmente, “fazer com as próprias mãos”, ter iniciativa e criar a mudança.

Procurar soluções e as melhores maneiras de pôr em prática algo tem a ver com a sustentabilidade, mas deve-se pensar no todo e olhar para a intersecção entre sustentabilidade e cultura corporativa, sustentabilidade e inovação social. Não é mais suficiente maximizar o lucro financeiro; precisamos maximizar o retorno para o planeta e para as pessoas na mesma medida.

IS: Temos discutido bastante sobre a questão da liderança. Como os CEOs, atualmente, devem agir para criar modelos de negócio diferentes e mudar aqueles que são insustentáveis? Quais valores e características devem ter?

DH: Eles devem abraçar a mudança, encorajar e promover uma cultura de inovação. Entretanto, esse estímulo não deve ser reservado apenas a algumas pessoas, mas à organização como um todo. Esses gestores também devem entender que a mudança é inevitável, especialmente considerando a sociedade e a economia atual, onde a informação é abundante com as mídias sociais.

Essa transformação está acontecendo mais rápido do que antigamente e sua velocidade aumenta a cada dia. Então, os líderes devem aceitá-la e tomar a dianteira. Porém, todos devemos ser líderes; o papel não cabe apenas a alguns.




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