Mudanças climáticas e o setor privado – desaparecendo com os abismos

Especial 20 anos de Ideia Sustentável: Emissões de GEE

 

Por Beatriz Kiss

A preocupação das organizações com as questões ambientais tem evoluído juntamente com a demanda de investidores e acionistas, que desejam saber como as empresas empregam seus recursos, assim como de clientes, que se interessam e querem entender como os produtos e serviços são concebidos.

As questões climáticas têm desempenhado papel cada vez mais importante no cenário corporativo, sendo o inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE) uma das mais importantes ferramentas de gestão nesse contexto. O abismo que antes existia entre a realidade empresarial e a questão climática vem desaparecendo rapidamente.

Para cumprir com essas novas demandas de mercado, organizações públicas e privadas precisam adaptar seus processos e modelos de gestão, visando à incorporação desse fator ao seu dia a dia. Essa adaptação deve ser vista, porém, como um ponto de transição para uma nova economia, a chamada “economia de baixo carbono”, que foca a redução das emissões de GEE, mas pode ir muito além disso – basta a empresa entender o seu valor.

A partir do momento em que as organizações internalizam as questões climáticas em seus processos de planejamento estratégico e construção de modelos de negócios, passam a entender os potenciais riscos e oportunidades envolvidos nessas questões. Trata-se de utilizar o próprio inventário como um “mapa” para identificar as suas fontes de emissão e transformar processos, aumentando a eficiência, reduzindo custos e, finalmente, para diminuir a intensidade carbônica de produtos e serviços oferecidos a seus clientes.

Entre os diferentes métodos existentes para a realização de inventários corporativos de GEE, o The Greenhouse Gas Protocol – A Corporate Accounting and Reporting Standard, ou simplesmente GHG Protocol, é atualmente o mais utilizado mundialmente pelas empresas e governos para entender, quantificar e gerenciar suas emissões.

Lançado em 1998 pelo World Resources Institute (WRI) em parceria com o World Business Council for Sustainable Development (WBSCD), o método vem sendo utilizado por organizações dos mais diversos setores, incluindo empresas, ONGs e órgãos públicos. Um dos fatores que impulsionou a larga aplicabilidade do GHG Protocol foi a compatibilidade com as normas ISO (International Organization for Standardization) e com os métodos de quantificação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU (IPCC), que garantem a aceitação internacional do protocolo.

Desde 2008, o método do GHG Protocol foi adaptado para o contexto brasileiro, a partir do lançamento do Programa Brasileiro GHG Protocol (www.fgv.br/ces/ghg), em maio do mesmo ano. Essa iniciativa, liderada pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces), em parceria com o WRI, contou também com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e do Conselho Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

Desde seu lançamento, o programa trabalhou na adaptação desse método, por meio de um processo de construção conjunta com 27 organizações fundadoras. Como resultado desse processo, em 2009 foram publicados os primeiros inventários de GEE dessas organizações e, em 2010, o guia Especificações do Programa Brasileiro GHG Protocol – Contabilização, Quantificação e Publicação de Inventários Corporativos de Emissões de Gases de Efeito Estufa. Esse guia, juntamente com a ferramenta de cálculo desenvolvida pelo próprio programa, são instrumentos de qualidade e reconhecimento internacionais, disponibilizados gratuitamente no site do Programa Brasileiro.

O objetivo do Programa Brasileiro GHG Protocol é promover e disseminar a cultura para elaboração de inventários corporativos de emissões de GEE no Brasil, sendo que, nos últimos 5 anos, foram capacitadas mais de 860 pessoas na metodologia. Além dos gestores de suas organizações-membro, a metodologia vem sendo disseminada pelo Brasil também por meio de parcerias com órgãos públicos e privados e associações setoriais, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Governo do Estado de Santa Catarina (por meio da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável).

Por se tratar de um processo multidisciplinar, a elaboração do inventário de emissões geralmente envolve diversas áreas de uma mesma empresa. Para garantir um bom entendimento e promover o tema das mudanças climáticas dentro das organizações, as capacitações compreendem um grupo heterogêneo de pessoas com formações e atuações diferentes: de gestores e engenheiros ambientais, passando por administradores, economistas e até funcionários das áreas de Marketing e Comunicação têm aprendido a importância do inventário de GEE.

Em 2013, o Programa Brasileiro completa 5 anos de atuação no Brasil, e comemora os mais de 500 inventários publicados, desde 2008, em seu Registro Público de Emissões. Essa plataforma online, pioneira no país, foi criada para facilitar o acesso à informação e disseminar o conhecimento sobre mudanças do clima, emissões de GEE e afins.

Além de disponibilizar publicamente os resultados dos inventários dos membros do Programa, o registro permite a análise dos dados por meio de gráficos interativos e reconhece as ações voluntárias de seus integrantes no que tange às emissões de GEE e transparência corporativa por meio de informações qualitativas. Atualmente, mais de uma centena de empresas dos mais diversos setores participam da iniciativa – indústrias químicas, bancos, empresas de serviços, geradores e distribuidores de energia, mineradoras, indústrias de cimento, telefonia, alimentos, educação, entre outras.

O número de membros do Programa tem aumentado a cada ano: passou de 23, em 2009, para 39, em 2010; dobrou, em 2011 (78 participantes), chegou a 93 membros, em 2012, e a 106 organizações, em 2013.

O aumento constante do número de membros que elaboram e publicam anualmente suas emissões de GEE reflete as tendências nacional e internacional relacionadas ao tema, seja por conta de exigências legais ou mesmo corporativas, tais como demanda de clientes, de investidores e de acionistas; ou por determinação das matrizes internacionais.

Exemplos reais da recente mudança na percepção da sociedade e de governos sobre as mudanças climáticas são a Resolução 64 do INEA, publicada em dezembro de 2012, que exige que empresas de diversos setores industriais localizadas no Estado do Rio de Janeiro elaborem seus inventários de emissões de GEE anualmente; e, em São Paulo, a Decisão de Diretoria publicada pela CETESB, com disposição semelhante. Quem nunca ouviu falar de inventários de emissões ou ainda não sabe como fazer, terá de se adaptar rapidamente.

Como só o que é mensurado pode ser gerido, para que as corporações encontrem caminhos coerentes e efetivos na redução de suas emissões de GEE é fundamental que o inventário seja elaborado anualmente e sirva à gestão interna da empresa. E apesar desse ser apenas o primeiro passo rumo à economia de baixo carbono, é um passo significativo e, certamente, muito importante ao longo do caminho a ser percorrido.

Beatriz Kiss é engenheira ambiental e coordenadora do Programa Brasileiro GHG Protocol – Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (GVces).




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