Não é com a mente. É com o coração

Especial 20 anos de Ideia Sustentável: Inovação

Por Lourenço Bustani

Já se pode dizer que as palavras sustentabilidade e inovação estão saturadas. Usadas à exaustão, foram e continuam sendo um dos grandes mantras das organizações. Mas será que, no mundo ideal, elas seriam moda ou quiçá existiriam?

Essa saturação eminente é reflexo do momento de transição pelo qual estamos passando. De um lado, com cenários cada vez mais concorridos e tecnologias que aceleram as possibilidades de mudança, a inovação tornou-se a menina dos olhos das marcas que buscam se diferenciar no mercado.

De outro, tudo que temos aprendido sobre a condição humana e o ecossistema a que pertencemos vem elevando nosso grau de consciência, a ponto de nos fazer encarar a verdade nua e crua de que viver sob o atual modelo não se sustenta no longo prazo, colocando em risco a perenidade das próximas gerações. A conta simplesmente não fecha.

Até aqui, ótimo. Mas duas questões extremamente reveladoras são pouco exploradas nesse contexto: a primeira delas é a relação simbiótica entre inovação e sustentabilidade; a segunda, o porquê de estarmos tão atrasados na adaptação a essa nova realidade. Começo pela primeira.

O que seria de uma ideia inovadora hoje se, para que fosse inovadora, causasse um estrago tremendo, tornando-se insustentável amanhã? E o que seria de uma ideia com relevância contínua, que pudesse se reciclar ininterruptamente, mas que não representasse novidade atrativa alguma? O fato é que nada novo que não tenha saúde, no longo prazo, e nada perene que não seja verdadeiramente novo é inovador. A não pode existir sem B. Aqui a conta fecha.

Dessa equação nasce um nobre e não saturado significado para a inovação: fazer emergir o novo, porém sem sacrificar, ao longo do processo, a qualidade de vida das pessoas, dos seres vivos e do meio ambiente. Simples assim.

Nessa linha, dar a algo ou alguma coisa o adjetivo de “sustentável” é o mesmo que definir uma marca, empresa ou produto como sendo “honesto”. Imagine o quão estranho seria se houvesse departamentos de honestidade dentro das empresas.

Isso não acontece porque se parte do princípio (por mais utópico que ele seja) de que negócios são honestos em sua essência. A sustentabilidade, portanto, deve estar sujeita à mesma regra. Deve ser uma condição sine qua non de todo negócio, migrando da condição de adjetivo para a de célula integral do DNA de qualquer relação de mercado.

Em suma, está mais do que na hora de abandonarmos a dicotomia entre inovação e sustentabilidade, tidas hoje como forças supremas e individuais, para abraçá-las, ambas, dentro de um olhar holístico e totalizante.

Nestes sete anos de Mandalah, estivemos no centro do embate entre o velho e o novo, entre a afinidade ideológica e a prática, sempre buscando ser a dose de ousadia necessária para superar a inércia de um modus operandi datado. Participamos de projetos memoráveis, como ajudar a Nike a se posicionar no Rio de Janeiro para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, com uma estratégia que se vale do esporte como força catalisadora para integrar os povos da cidade.

Ajudamos também a GM a pensar o futuro da mobilidade urbana nas megacidades, saindo de um foco voltado única e exclusivamente ao carro e indo para o paradigma complexo da mobilidade. E a ESPM a desenvolver seu novo Plano Diretor Acadêmico, adaptando-se aos movimentos emergentes da educação ao redor do mundo.

Nessa comissão de frente, fomos testemunhas de microrrevoluções dentro e fora das organizações, rupturas positivas que libertaram profissionais para que navegassem frente ao caos com tranquilidade, intuição e fluidez. Mas, é claro, vimos também inúmeras tentativas de mudança emperrarem por diversos fatores. Aqui elenco três deles:

– Medo: Mudar dói. Dói porque o ser humano gosta daquilo que lhe é reconhecível. Nesse sentido, fazer diferente significa arriscar e desbravar um território no qual o êxito não é garantido. Isso requer sensibilidade, adaptabilidade, coragem e resiliência. Nem todos se dispõem a mudar, especialmente os que preferem manter a estabilidade e a previsibilidade das suas funções e métricas de sucesso.

– Miopia: Não conseguir enxergar além do próximo trimestre é outra raiz do atraso de uma série de novas agendas. Os horizontes bimestrais, trimestrais, semestrais e anuais foram criados pelo homem a serviço de um sistema pragmático de dívidas e empréstimos, regido pelo aparato financeiro e totalmente desconectado dos ciclos naturais em que o comércio e suas relações de fato se dão. Essa dissonância, somada à cultura “curto-prazista” que ainda rege a maioria das empresas, atrapalha e muito o equilíbrio entre ação e efeito e um planejamento sustentável para o futuro. O professor Homero Santos, um dos maiores nomes da sustentabilidade no Brasil, em sua obra mais recente, explica: “Para os que temem e não ousam, resta o consolo de viver o melhor que se possa o aqui-agora, e o dinheiro faz traiçoeiramente essa proposta. É a ditadura anestesiante do deus Mercado que estabelece o império do curto-prazo.”

– Anestesia: Osho já nos alertava que a sociedade está dividida entre cabeças (chefes) e mãos (de obra). E o coração, onde foi parar? Se olharmos para tudo o que foi feito e desfeito nestas décadas pós-Revolução Industrial, a narrativa é clara: embasadas em um pensamento lógico e cartesiano, empresas se proliferaram, e o lucro, enquanto métrica suprema de prosperidade, tornou-se abundante. Mas a quais custos? O que estamos aprendendo a ver é que, no decorrer de todos esses anos, gerou-se valor sacrificando valores. Em determinado momento, parece claro, o sistema entrou em colapso.

Nesse processo de transição, é fundamental que sejamos fiéis às origens humanas. Homo sunt, e todo homem tem uma ferramenta poderosíssima, seu coração, capaz de produzir a energia mais renovável que há: o amor.

A partir do momento em que nos (re)conectamos com nosso coração, entramos em comunhão com o planeta e assim “empatizamos” com tudo e todos ao nosso redor. Essa sensibilidade, por si só, é o início de uma ressignificação de quem somos e a que viemos. Com ela, fazer um trabalho honesto, bem-pensado, construtivo, que não prejudique nada ou ninguém se torna natural. Isso nada mais é do que deixar um legado não após, mas sim durante a nossa passagem em vida.

Satish Kumar, grande ativista e fundador da Schumacher College, propõe uma nova trindade como visão para o futuro: SOIL (a terra, fonte suprema de tudo e de todos), SOUL (a alma, essência humana) e SOCIETY (a sociedade, coletivo dos indivíduos). Diz Homero Santos: “Onde essas três esferas se sobrepõem, se aloja a genuína sustentabilidade.”

Vivemos o momento mais oportuno para que empresas se insiram nesse sistema e enxerguem-se umas nas outras, como integrantes insubstituíveis de um “meio ambiente” sempre e equivocadamente referido em 3ª pessoa. Afinal, abraçar uma visão integral do mundo é, antes de tudo, fazer parte dele.

Na Mandalah, nosso papel é ser uma consultoria em inovação consciente. O adjetivo consciente é para deixar claro que, para nós, só é inovador o que é bom para o mundo. Entendemos que a sustentabilidade (palavra que poupamos no dia a dia) das estratégias cocriadas com nossos clientes se dá a partir da definição de um propósito, pessoal e logo profissional, que orienta as ações da empresa, significa o trabalho dos colaboradores e garante que o legado será deixado, mas também vivido. Fazemos isso em busca do valor compartilhado entre todos e do equilíbrio entre lucro e propósito, por meio da mais milenar de todas as metodologias, o diálogo.

Não lutamos sozinhos. Há uma nova força e consciência no ar, e aqui a luta não é violenta. Já diria Leah Wilson: “Seu coração é uma arma do tamanho do seu punho. Continue lutando. Continue amando.”

Lourenço Bustani é cofundador e CEO Global da Mandalah consultoria de inovação consciente sediada em São Paulo, com escritórios no Rio de Janeiro, Nova Iorque, Cidade do México, Berlim e Tóquio. Foi apontado pela revista norte-americana Fast Company (#48) como uma das 100 pessoas mais criativas no mundo dos negócios, em 2012.




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