Negócios inclusivos promovem desenvolvimento sustentável

Por Susan Chaffin

Cada vez mais as empresas estão criando modelos inovadores de negócio para enfrentar os desafios do desenvolvimento sustentável, tais como fome, pobreza, saúde materna e infantil e acesso à água potável.

O Fórum de Sustentabilidade Corporativa da Rio+20, que aconteceu em junho durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, abordou o papel do setor privado na promoção da economia verde e erradicação da pobreza.

Liderado pelo Pacto Global das Nações Unidas junto com organizações parceiras, o fórum reuniu mais de 2.700 representantes de empresas, sociedade civil e governos para facilitar o diálogo e apoiar os compromissos ambientais e metas de desenvolvimento.

O Business Call to Action (BCtA) – uma iniciativa global secretariada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), incentiva as empresas a aplicar soluções de mercado para os desafios do desenvolvimento. Os membros do BCtA, um grupo internacional de mais de 50 empresas, incluindo Coca-Cola, Natura, Vodafone, Pfizer e Citigroup, estão melhorando a vida de milhões de pessoas por meio de empreendimentos comerciais que incluem populações de baixa renda nas cadeias de valor ou criando produtos e serviços acessíveis aos mais pobres.

As empresas do BCtA, por exemplo, comprometeram-se a fornecer acesso a serviços financeiros para mais de 40 milhões de pessoas, promover uma melhor nutrição para 8 milhões de crianças e melhorar o acesso à energia para 7,1 milhões de famílias de baixa renda.

O BCtA, como participante do Fórum de Sustentabilidade Corporativa da Rio+20, co-organizou duas sessões sobre Lucros e Oportunidades na Base da Pirâmide (BoP): Desenvolvimento Sustentável por Meio de Negócios Inclusivos para a apresentação de soluções modernas de desenvolvimento. As sessões reuniram mais de 200 líderes globais e especialistas do governo e da sociedade civil para discutir o papel dessas iniciativas no apoio à agenda de desenvolvimento sustentável.

A Natura, empresa brasileira líder da indústria de cosméticos, abriu o evento apresentando sua visão na criação de uma plataforma de inovação com base em Manaus, na Amazônia. O projeto, lançado em 2011, visa promover o desenvolvimento em educação, ciência, tecnologia e empreendedorismo por meio de parcerias com ONGs e governo local. A empresa já forneceu R$ 10 milhões para as comunidades da Amazônia de onde extrai suas matérias-primas.

As empresas multinacionais desempenham seu papel no desenvolvimento sustentável por meio da incorporação de pessoas de baixa renda na cadeia de valor, como consumidores, fornecedores, produtores, distribuidores e funcionários. Além de investir no desenvolvimento de capacidades e na compra de matérias-primas localmente, também educam os consumidores de baixa renda sobre produtos sustentáveis e alavancam grandes canais de distribuição para atingir as áreas rurais e remotas.

Elas são capazes de produzir bens de baixo custo por meio de economias de escala, aumentando, desse modo, a disponibilidade de produtos a preços acessíveis. Cadeias de suprimento integradas permitem o aumento da produção local, oferecendo materiais para o crescimento da produtividade, tais como sementes e fertilizantes, ou facilitando o acesso ao financiamento. Para superar os desafios de infraestrutura nesses mercados de fronteira, muitas empresas buscam parcerias multilaterais e incorporam novas tecnologias de informação e comunicação em seus modelos de negócio.

No painel do BCtA sobre Cadeias de Suprimento Inclusivas, os executivos da PepsiCo, SAB Miller e IKEA falaram sobre as inovações na cadeia de valor. A PepsiCo, membro do BCtA desde 2008, vem desenvolvendo produtos nutricionais para os mercados da Nigéria e Índia e se comprometeu a melhorar a nutrição de 100 mil crianças na África do Sul.

A empresa vem promovendo iniciativas para melhorar o acesso à água para os agricultores, principalmente através de uma parceria com a Netafim, companhia israelense que utiliza a tecnologia de irrigação por gotejamento para aumentar a produtividade agrícola.

A empresa lançou também uma iniciativa na Etiópia para apoiar os produtores locais no plantio de um tipo de grão de bico altamente nutritivo.

Na Índia, a SAB Miller fornece formação e apoio direto aos agricultores para plantar cevada, um ingrediente-chave para a produção de cerveja.

Ao tornar-se membro do BCtA, em 2008, a empresa comprometeu-se com a promoção da subsistência sustentável para os pequenos produtores, com a melhoria da qualidade da cevada cultivada localmente e o estabelecimento, em toda a Índia, de centros para fornecer sementes certificadas, formação e assistência técnica aos agricultores.

A iniciativa beneficia 8 mil pequenos produtores, que se tornaram parte da cadeia de fornecimento, e oferece uma fonte sustentável de grãos de alta qualidade para as operações centrais da empresa. Um representante da IKEA falou sobre sustentabilidade na cadeia de valor, especificamente a respeito do corte de árvores e da preservação das comunidades onde a corporação obtém suas matérias-primas, como madeira e algodão.

Os negócios sociais, estabelecidos com o propósito expresso de gerar impacto socioambiental positivo, introduzem no mercado produtos e serviços adaptados especificamente para atender às necessidades dos mais pobres. Enquanto as multinacionais financiam pesquisa e desenvolvimento com recursos próprios, as empresas sociais muitas vezes dependem de financiamento externo, com algum grau de subvenção econômica, como juros subsidiados ou empréstimos não reembolsáveis.

Elas são capazes de se adaptar e vender produtos e serviços para comunidades de baixa renda por meio da combinação de novas tecnologias, parcerias entre os vários públicos interessados (como empresas, governos e ONGs), produção de baixo custo e integração de empreendedores da comunidade. Os negócios sociais são responsáveis por importantes inovações no acesso à saúde, água limpa, fogões menos poluentes e equipamentos à base de energia solar. Apesar de conseguirem superar os obstáculos de design e distribuição, o desafio da escala – um componente vital para os retornos comerciais e o impacto do desenvolvimento – permanece.

O painel sobre Produtos e Serviços Inovadores teve como foco a satisfação das necessidades da base da pirâmide, quase metade da população mundial ou cerca de 3 bilhões de pessoas que vivem com menos de US$ 2,50 por dia. Os representantes da Oando Marketing PLC, Grundfos Lifelink, Vestergaard Frandsen e Econet Mobile and Technologies falaram sobre os desafios de operar empresas com orientação social.

A Grundfos Lifelink enfatizou a importância do empoderamento da comunidade para gerenciar e reparar bombas de água; a Vestergaard Frandsen explicou seu projeto Carbono por Água, no Quênia, que tem impactado a vida de muitos, especialmente das crianças, idosos e soropositivos ou portadores do HIV, fornecendo acesso à água limpa via um modelo lucrativo e único no mundo, baseado em créditos de carbono.

A Oando Marketing PLC, maior produtora de gás liquefeito de petróleo (GLP) da Nigéria, percebeu os efeitos negativos à saúde dos fogões caseiros “sujos”, alimentados por querosene, lenha e carvão, que já causaram a morte de mais de meio milhão de africanos, a maioria abaixo de 42 anos. Por meio do desenvolvimento e distribuição de seus fogões de GLP, a Oando introduziu uma alternativa saudável, segura e mais limpa.

Como parte de seu compromisso com o BCtA, em 2011, a Oando planeja disponibilizar seus fogões “mais limpos” para comunidades de baixa renda na Nigéria por meio de uma rede de mais de 38 mil microempreendedores, contribuindo, dessa forma, também para o aumento da renda. A Oando espera que, em cinco anos, 5 milhões de famílias passem a utilizar os fogões de GLP.

A EcoNet Mobile and Technologies, do Zimbábue, criou um dispositivo que utiliza energia solar para recarregar telefones celulares. Sabendo-se que a penetração do telefone móvel nos países em desenvolvimento é de 79%, o desafio consiste em fazer com que milhões de pessoas que vivem longe da rede elétrica consigam carregar seus telefones.

Com base nas trocas de experiências do Fórum de Sustentabilidade Corporativa da Rio+20, está cada vez mais claro que as empresas líderes desempenham um papel vital na promoção do desenvolvimento sustentável. As evidências indicam que os modelos inovadores de negócios não precisam abdicar dos lucros para gerar desenvolvimento.

Na verdade, os dois podem se tornar cada vez mais complementares, conforme o mercado na base da pirâmide evolua e as empresas se adaptem às cadeias de valor inclusivas ou introduzam novos produtos e serviços para atender às necessidades dos mais pobres.

Susan Chaffin é secretária executiva do Business Call to Action.




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