No coração do Marajó

Por Sérgio Rizzo

A Mesorregião do Marajó, no Pará, reúne cerca de 500 mil habitantes em 16 municípios e pouco mais de 100 mil quilômetros quadrados – território maior do que o de oito estados brasileiros. Seu conjunto de 48 ecossistemas se notabiliza pela diversidade biológica, mas a população enfrenta, em pleno século 21, dificuldades cotidianas que sublinham sua aterradora exclusão social, como a falta de acesso a saneamento básico, saúde e educação.

O parágrafo acima resume, com a frieza de números e palavras, um cenário humano que encontra expressão mais colorida e concreta no documentário Expedição Viva Marajó. Dirigido por Regina Jehá, com música de Egberto Gismonti, o filme se estrutura, como afirmam seus produtores, “a partir da voz do marajoara” e com o objetivo de “contribuir para o debate sobre o que entendemos por áreas protegidas, sustentabilidade, desenvolvimento e cidadania”.

Além da importância que representa para nos aproximar do dia a dia nas aproximadamente 2.500 ilhas e ilhotas que constituem o arquipélago do Marajó, o documentário tem uma trajetória que ilustra o notável aumento da produção e da circulação de obras audiovisuais preocupadas em trazer temas de sustentabilidade para a pauta social nas últimas duas décadas.

Em primeiro lugar, simplesmente porque foi feito. Graças à “revolução digital”, que miniaturizou equipamentos e facilitou o seu uso em situações nas quais a aparelhagem convencional de cinema encontra severas limitações, inúmeros realizadores espalhados pelo planeta – profissionais ou não – passaram a registrar o mundo que os cerca com a preocupação de refletir a respeito dele.

Concebido em parceria com o Instituto Peabiru, que pilota o projeto Viva Marajó, o documentário levou Jehá e sua equipe a rincões onde antes o cinema (e também a televisão) só aparecia em circunstâncias muito especiais, e com orçamentos obrigatoriamente generosos para dar contas de necessidades técnicas e logísticas.

Outro aspecto da “revolução digital” que vem multiplicando o alcance da produção audiovisual sobre sustentabilidade, nos últimos 20 anos, tem a ver com a circulação das obras. Expedição Viva Marajó foi lançado, como reza a cartilha tradicional do mercado, em salas de cinema, onde pouca gente o conheceu. Mas um programa itinerante de exibição, possibilitado pelo acesso a equipamentos mais leves e baratos do que os exigidos pela projeção em película, o levou ao próprio arquipélago – e a estimados 4 mil espectadores marajoaras.

Recém-lançado em DVD no Brasil, depois de participar de diversos festivais no exterior, o filme pode agora continuar a expansão de seu público no universo digital – e supõe-se, como o grosso da produção sobre sustentabilidade, que ele em breve esteja ao alcance do seu rato (para usar a palavra com que os portugueses, acertadamente, chamam o mouse do computador) em algum sítio da internet.

A disseminação de temas sobre sustentabilidade, ensina a produção audiovisual recente, passa por uma câmera na mão e conceitos (que muitas vezes conduzem a denúncias) na cabeça.

Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema e professor | www.sergiorizzo.com.br.




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