Novo capitalismo em prática

Por Maria Cecília Prates Rodrigues*

No “velho capitalismo” as empresas são guiadas pela busca do lucro máximo, e é dessa maneira que elas contribuem para o bem-estar maior da sociedade, como ponderava Milton Friedman nos anos sessenta.  Porém, esse modelo está se mostrando insustentável: se, por um lado, é movido a consumo e modernização tecnológica, por outro lado, convive e reproduz pobreza, desemprego e destruição dos recursos naturais do planeta. A crise financeira nos EUA, evidenciada a partir de 2008, só fez reforçar esse tipo de percepção. Daí, o questionamento: o capitalismo, baseado na propriedade privada dos meios de produção com fins lucrativos, ainda é viável?

Ultimamente tenho visto surgir vários argumentos e teorias em defesa de um “novo capitalismo”, que deveria passar a ter uma face mais humana e comprometida com a preservação ambiental. A idéia é que o capitalismo ainda pode ser viável, se reformulado em suas estratégias. A seguir, alguns exemplos de proposta, todos bem recentes.

Em artigo na HBR de janeiro de 2011, Michael Porter, conhecido estrategista e professor na Harvard University, não quis se limitar a falar em filantropia estratégica ou responsabilidade social corporativa ou sustentabilidade, como vinha fazendo desde 2002. Foi direto à questão sobre como “consertar” o capitalismo mediante a geração do “valor compartilhado” nas empresas. Ele defende que as necessidades sociais e ambientais devem ser levadas em consideração lado a lado com os interesses econômicos da empresa, e não mais a reboque. É a partir dessa interação que passarão a ser delimitadas as oportunidades de negócio e os critérios de competitividade. Com isso, a lógica do “velho capitalismo” se inverte, no sentido de que agora as empresas vão precisar estar atentas para o que é bom para o bem-estar maior da sociedade, pois isso poderá ser bom também para elas.

Nessa mesma linha, em outro artigo na HBR de mar.2011, Dominic Barton, presidente mundial da McKinsey, apresentou a tese de que o capitalismo está em crise e, para salvá-lo, as empresas devem abandonar o enfoque do “capitalismo trimestral” em favor do “capitalismo de longo prazo”. Na gestão “trimestral”, o relevante é o desempenho em bolsa das empresas e, por conta disso, os investimentos sociais e ambientais acabam sendo descartados ou postergados, uma vez que tendem a afetar negativamente os resultados de curto prazo. Porém, esse modelo não está se mostrando sustentável, e é preciso mudar.   Ao adotar o modelo de gestão baseado no longo prazo, a empresa irá conseguir, por um lado, se liberar dos interesses “curto-prazistas” dos seus acionistas e, por outro lado, incorporar e servir efetivamente aos interesses dos seus stakeholders, consolidar relacionamentos e maximizar o valor gerado no longo prazo.

Também em artigo no jornal Valor de janeiro de 2011, André Lara Resende, conhecido economista brasileiro, defendeu a ideia de que o capitalismo de mercado deve passar a conviver com padrões de consumo menos extravagantes e mais igualitários. Segundo ele, essa é a chave para permanecer dentro dos limites ecológicos do planeta e frear o crescendo consumista,  sem comprometer o bem-estar geral e o dinamismo da atividade produtiva. O pressuposto é o de que, a partir de um patamar mínimo de consumo que atenda às necessidades básicas das pessoas, o fator determinante de bem-estar torna-se a distribuição do consumo, e não o seu nível.

Bastam essas três propostas para evidenciar o tamanho do desafio que está dado. Como conciliar dinamismo empresarial com bem-estar social e capacidade do planeta? Vale lembrar que atualmente a humanidade já utiliza o equivalente a 1,5 planeta  para sustentar o estilo de vida vigente, segundo o relatório Planeta Vivo (2010) da rede mundial WWF.

Há quem critique essas propostas por seu caráter teórico e quase utópico, além de não elucidar os caminhos a serem seguidos. Não compartilho dessas críticas, uma vez que essas propostas cumprem o importante papel de apontar, de modo consistente, para a necessidade e a direção da mudança. Aliás, não é outra a função da teoria senão iluminar a prática. Conscientes da premência da mudança,  vejo que organizações-líderes do movimento empresarial no Brasil, como o Instituto Ethos e o CEBDS , já estão começando a se articular nesse sentido.

Em fevereiro de 2011, o Instituto Ethos promoveu um grande evento em SP para o lançamento de sua “plataforma por uma economia inclusiva, verde e responsável”. Na ocasião anunciou que estava mudando o seu  patamar de atuação, pois  já havia cumprido plenamente o objetivo da primeira etapa de sua existência, que era o de estimular a atuação responsável das empresas. Agora, para a segunda fase, quer assumir o papel de “mobilizador nacional em torno de um projeto de desenvolvimento sustentável para o país”, com uma agenda ampla de estímulo à  regulamentação das boas práticas,  mudanças de valores e hábitos, precificação real e revisão tributária, incentivo à inovação e processos produtivos sustentáveis, produção e disseminação de métricas de sustentabilidade. Fundado em 1998, o Ethos tem atualmente 1.410 empresas-associadas.

Também o CEBDS realizou um evento em março no RJ, para lançar o documento Visão 2050, elaborado pelo WBCSD   e, mais do que isto, para tornar pública a sua intenção de atuar como instituição coordenadora na construção da agenda brasileira de sustentabilidade, envolvendo empresas, governos, ONGs e academia.  Como exemplo dos temas e tarefas dessa agenda, estão: redefinição do conceito de progresso;  mudanças de comportamento; acesso a serviços básicos; precificação segundo valores reais; disseminação de tecnologias em geral; ganhos de produtividade; mobilidade inteligente e construções inteligentes.  Criado em 1997, o CEBDS conta atualmente com um quadro de associados constituído por apenas 53 grandes empresas brasileiras, sendo a grande maioria delas membros também do Instituto Ethos.

Evidentemente que essas iniciativas do Ethos e do CEBDS devem ser vistas como os passos iniciais para o “novo capitalismo” ou desenvolvimento sustentável no país. Dada a urgência da mudança, esses passos iniciais assumem extrema importância sob pena de inviabilizar toda a trajetória. Questiono se, tendo em vista a convergência e complexidade das agendas e o grande número de empresas em comum, não seria mais efetivo somar forças e partir para uma atuação integrada Ethos-CEBDS. Pois, em última instância, a agenda de sustentabilidade para o Brasil deve ser única e os compromissos, aí assumidos, bastante articulados entre si.

*Maria Cecília Prates Rodrigues é Doutora em administração pela FGV/Ebape. Autora dos livros “Ação social das empresas privadas: como avaliar resultados? Editora FGV, 2005; “Projetos sociais corporativos – como avaliar e tornar essa estratégia eficaz” Editora Atlas, 2010.  Site: www.estrategiasocial.com.br




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