Claudio Padua

Por: Cláudia Piché

 

O velho ditado “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” decididamente não se aplica ao biólogo, pesquisador e educador Claudio Padua. Ele não só falou e fez como carregou, junto, mulher, três filhos e continua – incansável – arrebanhando pupilos para embarcar no sonho de colocar o planeta nos trilhos da sustentabilidade.

Aos 30 anos de idade, ocupando o bem-sucedido posto de diretor de uma indústria do setor farmacêutico, Claudio descobriu que não tinha vocação para ficar trancado num gabinete: decidiu abandonar cargo, mordomias e bom salário para dedicar-se a algo que nem ele sabia bem o que era. “Começaram a vir, na minha mente e no coração, dúvidas sobre o rumo que minha carreira vinha tomando” – conta.

Se por insatisfação com o presente ou por convicção em uma vida mais feliz no futuro, ele admite que ainda hoje também não sabe dizer. “Quando criança, tinha uma ligação muito forte com o mundo rural, com a natureza”, lembra Claudio sobre a infância passada na fazenda do avô, o famoso governador Valladares, que depois daria nome à cidade do interior de Minas Gerais onde Claudio cresceu.

“Naquela época, a gente caçava muito, não era pecado. Essas coisas do passado começaram a vir à tona e acabei concluindo que era preciso fazer uma mudança. Internamente, entendi que tinha uma missão. Não que eu houvesse nascido predestinado, mas, naquele momento, começaram a aparecer sinais, internos e externos, dando indicações, pessoas chegando com novos conhecimentos. Fui amadurecendo a idéia da mudança. Sabia que tinha de ser algo forte, precisava parar de pensar com a cabeça e agir com o coração.”


O ano da virada

Foi assim que, em 1977 – a data mereceu até placa ainda hoje pendurada na parede de casa –, Claudio comunicou à mulher, Suzana, que estava deixando o cargo de executivo para dedicar-se a… (se pelo menos ele soubesse a quê!) Suzana, é claro, reagiu com muita apreensão. Chegou a achar que o marido enlouquecera. “Que tal um psicanalista?”, sugeriu ela. Não convenceu. Foi Claudio, na verdade, quem a fez “segurar a onda” enquanto o marido descobria o que queria ser quando crescesse!

“Suzana tinha um escritório de decoração de interiores no Rio de Janeiro. E eu não sabia o que fazer. Num primeiro momento, pensei em ser fotógrafo de natureza, mas não era um fotógrafo virtuoso” – admite. Sem querer baixar o padrão de vida, Claudio foi gastando a reserva financeira dos tempos de executivo. Até que o dinheiro acabou e começaram a faltar coisas em casa.

“Resolvi ir à Brasília, procurar a mulher de um primo meu, Maria Tereza Pádua, que, na época, era diretora de Parques Nacionais no antigo IBDF (hoje Ibama). Ela foi muito gentil, conversou com muita gente lá, mas não poderiam me empregar porque eu não tinha currículo. Como iriam justificar a minha contratação?” – conta. Claudio, então, pediu um conselho para a prima, que disse: “Vá estudar Biologia. Pelo menos aí não vão poder dizer que você não tem currículo!”

Claudio voltou ao Rio determinado: aos 32 anos, matriculou-se no curso noturno da Faculdade Gama Filho, passou a fazer alguns trabalhos na área de administração, para manter-se e, no terceiro ano, conseguiu seu primeiro emprego na área, num centro de primatas dirigido pelo pesquisador Adelmar Coimbra Filho, amigo e grande incentivador. “Coimbra me orientou a recorrer ao prestígio político da minha família; ele também tentou do lado dele e, como ainda não era formado, fui registrado como técnico de laboratório, com um salário que hoje corresponderia a uns 700 reais. Mas estava feliz da vida” – lembra Claudio.

Das terras de Tio Sam à dos Sem-Terra

A partir daí, Claudio sentiu que não tinha mais tempo a perder: traçou um plano de dez anos para sua carreira: em seis estava formado em Biologia, com mestrado nos Estados Unidos e passagem pela Inglaterra, decidido a retornar ao Brasil para realizar a pesquisa de campo do doutorado em Teodoro Sampaio, no Pontal do Paranapanema (SP).

“Suzana diz que essa foi a segunda vez que a enganei. Nessa altura, ela já estava fazendo mestrado na Flórida (começou em História da Arte e terminou na Educação Ambiental) e mostrei-lhe umas fotos lindas do Pontal ao amanhecer. Ela se encantou e me seguiu, de novo. Costumo dizer que ela chorou uma semana de raiva quando chegou ao Morro do Diabo, mas chorou um mês inteiro quando saiu de lá”.

A vida dura e desconfortável do início acabou projetando Claudio como grande pesquisador do mico-leão-preto, espécie ameaçada pela construção de três barragens no Pontal do Paranapanema. Também levou Suzana a envolver jovens da região como monitores num programa extremamente bem-sucedido de educação ambiental.

Como Claudio precisava voltar aos EUA para terminar o doutorado, Suzana foi então com os filhos para Piracicaba, para onde o marido iria também depois, convidado pelo professor Paulo Kageyama a contribuir com a ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), trazendo para o Brasil uma nova área da Ciência que nascia nos EUA: a Biologia da Conservação.

“Nunca consegui realizar o sonho, na ESALQ, de criar um programa de pós-graduação em Biologia da Conservação, mas um grupo de estudantes da área de agronomia e engenharia florestal enxergou em mim alguém que pensava diferente, justamente num momento em que o mundo estava imbuído daquele espírito da ECO 92.”

Foi assim que o grupo de estudantes, o professor Kageyama, Claudio e Suzana uniram-se para fundar o pequeno, porém independente, Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), em 1992. “A minha sensação era a seguinte: da mesma forma que tive dificuldade, muita gente que queria trabalhar com conservação não sabia como fazer. O que eu fiz foi abrir portas para esses jovens entrarem na carreira.” Com a ajuda de amigos, Cláudio e Suzana foram organizando os primeiros ensinamentos do IPÊ, que se tornaram o embrião de uma escola de cursos de curta duração “para ensinar aos outros o que não ensinaram pra gente” – diz Claudio.

Nesse meio tempo, Claudio trabalhou na The Nature Conservance, em Washington (EUA), voltou para inaugurar e dirigir o escritório da grande ONG mundial no Brasil e tornou-se professor da Universidade de Brasília. Distante fisicamente do líder, mas com um senso de grupo muito apurado, o IPÊ foi seguindo seu caminho.

“Não tinha desistido da experiência frustrada da ESALQ de formar pessoas para a conservação. Mas entendi que se quisesse fazer isso, precisaria criar novos professores. Era uma mudança muito grande e os grupos acadêmicos da época não estavam preparados.” Assim, Claudio foi orientando a carreira de seus estagiários, conduzindo-os para pós-graduações nos EUA, na Inglaterra e aqui mesmo no Brasil, cujo resultado se traduziu na formação de 12 doutores e 20 mestres que hoje formam o IPÊ, uma das maiores ONGs ambientais do Brasil.

Novela com final feliz

A construção da atual sede do IPÊ, em 1996, é outra novela concebida a partir da ideia de Claudio de reproduzir o modelo de uma ONG do Paraná, que comprava áreas e construía centros de educação ao lado de parques para utilizá-los como laboratório de pesquisa. A disposição de um amigo inglês em colaborar financeiramente levou Claudio a negociar um pequeno terreno em Bauru, no interior de São Paulo, perto da Reserva de Caetetus. Mas, enquanto o dinheiro atravessava o Atlântico, o fazendeiro desistiu do negócio.

O destino – e os amigos, mais uma vez – acabaram conduzindo Suzana até uma comunidade vivencial em Nazareth Paulista, também no Estado de São Paulo, onde os moradores, convencidos da seriedade do projeto, decidiram doar metade das terras para a instalação da sede do IPÊ. “Não era ao lado da reserva, mas era de graça. Aí resolvemos mudar pra Nazareth e com o dinheiro vindo da Inglaterra construímos nosso primeiro prédio, um alojamento, no qual instalamos nossa escola de cursos de curta duração.”

Do sonho à missão

Em 2005, um outro encontro viria a colocar mais um tijolo no sonho de Claudio dos tempos da ECO 92. O IPÊ recebeu a visita do empresário Guilherme Leal, um dos donos da Natura e atual candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva. Claudio já havia sido companheiro de Leal no conselho do Funbio (Fundo Brasileiro Para a Biodiversidade), no Rio de Janeiro, e “mantinha conversas muito harmônicas com ele”.

Leal, ao final do dia, encantado com o trabalho, perguntou como poderia ajudar. Claudio disse que tinha um sonho antigo, mas ainda não estava preparado para descrevê-lo. Cuidou, portanto, de se preparar: procurou a Ashoka (instituição que trabalha com empreendedores sociais), onde Suzana era bolsista, que o encaminhou à consultoria McKinsey que, por sua vez, topou fazer um business plan para “a pós, que não consegui implantar dentro da ESALQ.”

“Nessa altura, já tínhamos 10 doutores e as forças superiores se juntaram, trazendo o Guilherme Leal com os recursos, o grupo também estava no momento certo, com o desejo cada vez mais vivo de realizar o sonho de 92.” A versão modernizada do sonho – agora não mais apenas de Claudio, mas de Suzana e todos os seus pesquisadores, foi batizada de ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, primeiro mestrado profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável homologado pelo Conselho Nacional de Educação, em dezembro de 2006.

Se lá no início da virada Claudio não sabia qual era sua missão, com a nova escola ele começou a descobrir. “Sem dúvida, a ESCAS é parte poderosa da minha missão porque me dá a chance de lançar as sementes do sonho pelo Brasil afora. E a educação é parte fundamental desse processo. Cheguei ao ponto de não só construir uma nova história como, agora, espalhar. E isso dá um prazer, um sabor, uma força enorme no meu coração” – emociona-se.

Esse sonho, diga-se de passagem, está sendo realizado junto com a iniciativa privada. “As escolas de pós-graduação e mesmo as de graduação são locais onde as novas idéias deveriam nascer, mas o mundo acadêmico acaba sendo muito conservador, leva tempo demais para reagir aos fatos” – argumenta Claudio sobre a ausência de governos no seu projeto.

Para ele, a iniciativa privada, até poucos anos atrás, salvo exceções, não tinha uma visão de missão maior do que ganhar dinheiro, gerar lucro e fazer negócios. Hoje o quadro mudou radicalmente, fruto de uma nova geração de empresários cuja mentalidade avançada tem levado ao nascimento de novas empresas.

A boa notícia – diz Claudio – é que não são apenas multinacionais, mas sim empresas brasileiras, que ultrapassaram os muros da fábrica e aceitaram, de boa vontade, desempenhar um papel maior na sociedade. “A ESCAS está entre a escola pública e a privada: não tem a burocracia da pública, mas precisa trabalhar com alguma coisa dela, como a missão. E tem de ter a rapidez e a agilidade da escola privada. Estamos juntando o melhor dos dois mundos e fazendo uma escola “dois e meio” (entre governo e iniciativa privada), uma combinação muito prazerosa que nos leva muito rápido ao nosso destino.”

Educação para a sustentabilidade

Segundo Suzana Padua, educar para qualquer coisa é complicado. “O processo educativo deveria conter tudo, uma educação para a vida.” Sabe-se, no entanto, que essa não é a realidade. Quando se fala, portanto, em educar para a sustentabilidade, Claudio segue algumas premissas. Primeiro, acredita que o trabalho deve ser feito com os dois pés no chão.

“Os alunos têm de viver as necessidades e demandas do mundo real”. Segundo: o campus é parte importante, mas precisa estar onde o estudante está. Daí o incentivo para que os alunos explorem várias possibilidades de aprendizagem, dentro e fora da sala de aula. “Com o mundo informatizado, isso é uma maravilha!

Se você levar seu notebook, todo o seu conhecimento teórico e a capacidade de pesquisa vão junto, inclusive a orientação de seus mentores e professores que podem estar on-line.” Em terceiro lugar, Claudio prega o fim dos “departamentos”. “As coisas não podem ser estanques. Para se chegar à sustentabilidade, as dimensões econômica, social e ambiental precisam andar juntas. Levamos os alunos a realmente olhar para o triple bottom line, como definiu o inglês John Elkington.”

Claudio admite que o trabalho da ESCAS ainda é pequeno diante do tamanho da mudança que precisa ser feita. “Você vai jogando sementes, vai correndo. Tem de atuar em todas as áreas: na educação ambiental das crianças, na formação de um novo tipo de profissional, que é o que estamos tentando fazer. Mas é preciso que empresas, governos, e ONGs demandem esses profissionais, façam a sua parte. Se todos não estiverem de mãos dadas, unidos nessa quebra de paradigma rumo à nova economia do século 21, é possível que o nosso esforço vá por água abaixo” – afirma.

Ainda assim, Claudio mantém-se otimista. E recorre ao pensamento de um líder do Partido Verde alemão, que costumava dizer que, em momentos de crise séria, não há espaço para o pessimismo. “Estou fazendo e tentando que os outros façam a mesma coisa. Vejo bons sinais, mas ainda fracos” – diz, referindo-se a situações frustrantes como o encontro de Copenhagen, em dezembro de 2009, onde, segundo ele, os interesses nacionais sobrepuseram-se aos do planeta.

“Não há mais tempo para isso!” Diante desse cenário, não há como negar que a educação seja a base da mudança. “Sou um defensor da educação, mas ela, sozinha, não faz a mudança. É preciso que todos os setores trabalhem integrados na construção desse novo paradigma.”

São tantas emoções…

De todos os momentos que marcaram a improvável trajetória de um ex-executivo do mundo corporativo, o que mais emociona Claudio Padua ainda é a lembrança da entrada de Suzana – sua esposa e hoje presidente do IPÊ – no processo. “É uma alegria muito grande ver que quem num primeiro momento te olhou como um louco, num segundo agarrou essa loucura e ajudou a torná-la realidade.

A energia da Suzana é fantástica e, sem ela, não teria acontecido.” Ter arrebanhado jovens seguidores, que hoje constituem a base do IPÊ, é outro motivo de grande orgulho. “Não dá pra expressar a beleza de as pessoas aderirem ao seu sonho e ajudarem a torná-lo realidade.”

Momentos marcantes na carreira de Claudio – e Suzana, claro! – não faltam. O casal já perdeu a conta de quantos foram os prêmios, nacionais e internacionais conquistados nos últimos anos – incluindo o Whitley Gold Award, espécie de Oscar da conservação do meio ambiente internacional, em 2008, e, no Brasil, o Prêmio Empreendedor Social 2009, da Fundação Schwab, em parceria com o jornal Folha de São Paulo.

Nenhuma sensação, no entanto – confessa Claudio – se compara à do evento da assinatura de compra do terreno para a construção da ESCAS. Naquele dia – conta – vendedor, corretor de imóveis, funcionária do cartório e pesquisadores do IPÊ vindos do Brasil inteiro para uma confraternização de fim de ano estavam presentes à assinatura.

Ao final, Suzana propôs que todos dessem as mãos e pensassem em todas as pessoas que os haviam ajudado a chegar àquele momento. Todos se abraçaram e Claudio começou a chorar. “O vendedor, a moça do cartório, o corretor, todos começaram a chorar junto, compulsivamente”. Um choro de felicidade, segundo ele, pois todos tomaram consciência de que estavam fazendo história.

Claudio Padua conhece, como poucos, a dor e a delícia de fazer a História.

ESCAS – uma escola para formar líderes

A ESCAS (Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade) é resultado de uma parceria entre o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e a empresa Natura. Oferece programa de mestrado profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável. Trata-se de um curso stricto-sensu, aprovado e reconhecido pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), e que fornece ao aluno o diploma de Mestre.

Por enquanto, o curso realiza-se em caráter provisório num sítio no Bairro Moinho, em Nazareth Paulista, no interior de São Paulo. O Campus definitivo está sendo construído em uma área à beira da Represa Atibainha, também em Nazareth.
O conteúdo segue a abordagem do ser/saber/fazer, capacitando os profissionais para a prática transformadora da liderança, por meio da integração entre método científico e gestão do conhecimento adquirido.

O corpo docente da ESCAS é formado por pesquisadores-doutores do IPÊ e colaboradores externos, de comprovada experiência em suas áreas de atuação. A duração mínima do curso é de 18 meses e a máxima de 24 meses (dois anos), com carga horária de 660 horas. No primeiro ano, o curso exige dedicação exclusiva, portanto os alunos devem morar no Campus da Universidade para que possam cumprir o currículo obrigatório. O programa oferece facilidades de alojamento e alimentação.

Com a construção do novo Campus, a oferta de vagas no curso de mestrado deve passar de 10 para 50. E outras 10 serão oferecidas para o programa de doutorado, em fase de elaboração. Claudio Padua é o reitor da ESCAS.




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