Pensamento sustentável – Gestão no terceiro setor para quê?

Um indicador do interesse crescente pelo tema gestão é a profusão da oferta de cursos, que incluem desde os acadêmicos até os livres, baseados em ferramentas como planejamento estratégico e avaliação de resultados Em comum, move-os a crença de que o conhecimento em gestão é um instrumento a serviço das missões institucionais; uma espécie de “manual de instruções” nesses tempos em que as organizações de terceiro setor deparam com ambientes de atuação mais complexos, múltiplos atores e papéis e uma necessidade de construir a sua sustentabilidade.

Em comum, eles se apropriam de um conhecimento cujas bases encontram-se no campo da administração de empresas, exigindo, portanto, releituras críticas e adaptações compatíveis com as distintas finalidades da atividade social. Uma análise etimológica mostra que o termo “gestão”, longe de ser neutro, significa a “ação de dirigir e de gerenciar”. E é justamente essa ausência de neutralidade um ponto de controvérsia: gerenciar como e, principalmente, para quê? Opiniões se dividem entre os que acham importante que organizações sociais incorporem princípios de gestão e aqueles que consideram esta idéia nociva, na medida em que as submete a pensar, de fora para dentro, a partir uma lógica impositiva e não condizente com a sua origem e finalidade.

Os argumentos são razoáveis de parte a parte. Para os defensores, aperfeiçoar as atividades-meio é uma decisão saudável. E ninguém, de boa fé, deveria ser contrário já que processos mais eficazes conduzem potencialmente a resultados melhores, produzindo benefícios para todos, sem necessariamente descaracterizar as atividades-fim.

Os céticos pensam de modo diferente. Uma das críticas que fazem é que, por mais bem intencionadas que sejam, as práticas disponíveis acabam impondo uma racionalidade utilitarista e ofensiva, portanto, à natureza colaborativa que deveria orientar a atividade social: ao “agir como empresas”, inspirando-se em idéias de eficiência e eficácia, as organizações sociais correm o risco de turvar a identidade que molda a sua alma. Na visão cética, os cursos de gestão ensinam mais do que as organizações desejam e menos do que necessitam.

Nesse embate ideológico, mediado ou por ausência e ou por excesso de crítica, uma posição eqüidistante parece ser a alternativa mais adequada. Organizações de terceiro setor não são empresas. Nem devem se comportar como tal. Também não é razoável que, por preconceito, rejeitem idéias de gestão apenas porque nasceram em um campo de conhecimento aparentemente antagônico. A marca do século 21 é a das convergências, das pontes estendidas sobre os abismos.

Mas para que a gestão deixe de ser um corpo estranho, três são os desafios aos que querem pensá-la no terceiro setor. O primeiro diz respeito ao papel dos seus “defensores”: como não há modelo certo ou errado em si mesmo, os melhores costumam ser os que não impõem padrões absolutos, mas que se constroem a partir do conhecimento tácito de gestão existente na organização, de sua dinâmica particular dos seus ativos de competência. O segundo desafio está relacionado ás organizações sociais: como não há modelo único de gestão que valha para todas, cada uma precisa elaborar o seu, refletindo sobre as práticas disponíveis, apropriando-se delas e incorporando as que lhes pareçam mais adequadas à sua cultura. E o terceiro desafio tem a ver com a criação de um campo de conhecimento multidisciplinar que, embora não seja o da administração de empresas, pode tomar emprestado alguns de seus fundamentos, visando a organizar um novo referencial teórico, com novas premissas. Qualquer contribuição para o fortalecimento da gestão do terceiro setor significa, na ponta, soluções sociais mais completas e resultados melhores para as comunidades.

 

Ricardo Voltolini é diretor de Redação de Idéiasocial e consultor da Oficio Social, divisão da Oficio Plus especializada em gestão de terceiro setor e responsabilidade social.




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