Pensamento sustentável – Tecnologia Social: ser ou não ser política social?

Entre a experiência das benzedeiras de Maranguape, a famosa multimistura alimentar que combate a desnutrição e as cisternas de placas pré-moldadas destinadas a acumular água de chuva para os períodos de seca no Nordeste há em comum o fato de representarem soluções simples, de baixo custo, fácil aplicabilidade e forte impacto para antigos problemas sociais no Brasil. E também o fato de que, ao contrário de muitas outras “boas práticas” criadas no âmbito do terceiro setor, conseguiram exceder os limites de uma pequena comunidade, transformando-se em políticas públicas de alcance nacional. A este tipo de solução, dá-se o nome de tecnologia social.

A principal diferença entre uma best practice e uma tecnologia social está justamente na escala. A multimistura era apenas uma idéia boa e barata, dessas que a sabedoria popular cria aos borbotões, até ser multiplicada pelas pastorais católicas tornando-se a base de uma política de segurança alimentar em muitos estados e municípios. Criadas há mais de 25 anos, por um indivíduo que enxergou uso social na técnica de construção de piscinas, as cisternas ganharam novo status com o Programa Fome Zero, devido, sobretudo, à sua aplicação mais abrangente por entidades de terceiro setor organizadas em torno do ASA- Articulação do Semi-Árido.

Da boa inventiva à grande escala, uma tecnologia social enfrenta basicamente três momentos. O primeiro refere-se ao desafio técnico de transformar a idéia em um conjunto padrão de procedimentos, uma fórmula ou um método, que permitam a sua reaplicação adaptável a qualquer região do país. O segundo diz respeito ao seu referendo público, quando especialistas e organizações sociais passam a recomendá-la como a melhor solução para um determinado problema social. E o terceiro ocorre com a sua apropriação coletiva: uma teia de diferentes atores sociais (públicos, privados e público-privados) forma-se para dar suporte à sua implantação, criando as condições necessárias para que a tecnologia se incorpore a uma política pública.

Alcançar este último estágio requer estabelecer relações de cooperação com as universidades, às quais cabe transformar conhecimento tácito em conhecimento explícito, e os movimentos populares, onde estão os capitais humano e social necessários para colocar em prática o novo conhecimento. O envolvimento dessas duas dimensões contribui para conferir legitimidade social à solução técnica. Mas não é suficiente. Nenhuma tecnologia social atingirá a escala de política pública se permanecer à margem do interesse dos governos. E eles não parecem tão sensíveis às boas soluções sociais desenvolvidas no circuito do terceiro setor, seja porque não estabeleceram diálogo a ponto de identificá-las, seja porque, burocráticos ou simplesmente reféns da perversa lógica política, preferem o certo medíocre ao inovador que consideram duvidoso.

Como são de baixo custo, não atendem ao interesse de pessoas influentes e grupos econômicos fortes, nascem no vácuo deixado pelo Estado inepto na prestação de serviços básicos e atingem comunidades com baixa representatividade política, as tecnologias sociais ainda não entraram para a agenda dos governos nos três níveis – embora seja justo destacar o esforço do atual governo federal no âmbito do seu Ministério da Ciência e Tecnologia. Quando isto acontecer –e se acontecer – o País poderá observar saltos de qualidade na superação de alguns de seus históricos déficits sociais.




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