Satish Kumar

Por Cristina Tavelin

Duas das bases do tripé da sustentabilidade estão mais próximas do que se pode imaginar. Ecologia e Economia possuem o mesmo prefixo, eco – que, do grego oikos, significa casa. Já os sufixos vêm de logos e nomos – respectivamente, estudar e gerir. Diante dessa relação, o indiano Satish Kumar, fundador do Schumacher College, da Inglaterra, não viu problemas ao indagar, em sua visita ao renomado London School of Economics and Political Science, onde ficava o Departamento de Ecologia.

Quando descobriu que simplesmente não existia, questionou, perplexo, como uma instituição de ensino podia gerir algo que desconhecia: “As pessoas no comando da economia não sabem o que estão manejando! Economia não significa apenas dinheiro”, destacou em palestra no evento Strategy Execution Summit 2011, em São Paulo, após o qual conversou com Ideia Sustentável.

Também editor de uma das principais publicações do movimento verde na Europa – a revista Resurgence – Satish Kumar percorreu um longo caminho, literalmente, espalhando seus insights por diversos lugares nas últimas décadas. No início dos anos 60, ao ouvir a notícia sobre a prisão do matemático e filósofo Bertrand Russell quando este protestava contra o uso de armas nucleares, o jovem indiano questionou seu papel no mundo diante da crescente corrida bélica e em plena crise dos mísseis de Cuba.

Inspirado por Russel, à época com 90 anos, e pelas ideias de Mahatma Gandhi, Kumar caminhou 14 mil quilômetros pela paz – da sepultura de Gandhi (Nova Deli, Índia) à de John F. Kennedy (Washington DC, Estado Unidos). A motivação dos marcos desse percurso, explica, foi a triste “coincidência” pelo fato desses dois homens terem sido assassinados por armas.

Hoje, aos 75 anos, Kumar continua sua peregrinação pela harmonia entre pessoas e planeta e permanece à frente do Schumacher College, uma escola com olhar holístico visando educar pessoas “para a vida e não apenas para passar em exames”. A instituição de ensino – que atraiu a atenção de empresas para a formação de seus colaboradores com base na integração entre finanças, ambiente e espiritualidade – já recebeu mestres como o médico Patch Adams e o físico Fritjof Capra.

Sobre o atual panorama das empresas e sua atuação na sociedade, Kumar é enfático. “O crescimento é bom até certo nível. Os negócios precisam se libertar dessa obsessão de querer crescer cada vez mais”.  Confira, a seguir, um pouco mais sobre o pensamento do líder indiano em relação à sustentabilidade, valores e como as palavras podem gerar a mudança de paradigma necessária.

O líder e a natureza

Se tomarmos como exemplo os grandes líderes da História, percebemos uma característica em comum entre eles: sua humildade – esse é um dos “ingredientes” mais importantes na liderança, pois, no momento em que um indivíduo se torna arrogante, ele deixa de ser seguido. O verdadeiro líder é aquele capaz de falar ao coração das pessoas e inspirá-las, deixando-as independentes para agir e perceber seu próprio potencial de liderança.

Mahatma Gandhi, Nelson Mandela e Dalai Lama são os verdadeiros líderes, diferentes daqueles políticos que possuem autoridade principalmente pelo suporte militar e da lei. O poder da liderança alcançado dessa forma acaba esquecido, assim como esses líderes. Os que serão lembrados conseguem cativar por sua própria força e qualidade interior.

O verdadeiro líder também deve aprender com a natureza: ela realmente é a grande professora. Uma abelha, por exemplo, vai de flor em flor sugando o néctar e jamais machuca qualquer planta. Então, transforma o pólen em mel. Essa é a melhor referência: transformar aquilo que se retira da natureza em algo melhor. E por que a abelha vai de flor em flor? Para polinizar. O verdadeiro líder, portanto, é aquele que poliniza, o networker. Precisamos aprender com esses exemplos: a natureza é a grande mestre da liderança e da criatividade.

 

Kumar e a liderança

Me considero um servo das pessoas e do meio ambiente. Um líder não clama pela liderança. Os outros é que apontam isso; não se trata de algo autoconsciente. Quero inspirar outras pessoas, encorajá-las a olhar para a natureza não como um objeto, mas como um presente. Considero-me um pilgrim (ou peregrino; praticante do pilgrism, crença relacionada a diversas religiões e filosofias; aquele que encara a vida como uma jornada física, uma etapa a ser ultrapassada no caminho para o plano espiritual), não um líder.

Como tal, agradeço. Não sou um turista – turistas querem benefícios para si mesmos e reclamam; já os pilgrims apreciam e celebram. Você pode se juntar aos que reclamam ou ser um celebrador.

O líder inspirador

O primeiro passo é dar o exemplo. “Seja a mudança que você deseja ver no mundo”, como disse Ghandi. Dê o exemplo de humildade, tenha uma relação próxima com o planeta, com a natureza. Quando você tem esse insight e faz o que diz, pratica um discurso, então possui integridade e força. Dessa forma,  suas palavras ganham sentido, não vêm apenas da sua cabeça e do coração, mas de sua experiência.

As palavras de Nelson Mandela têm mais força do que as de um acadêmico ou de um pensador. Assim, os líderes empresariais devem implementar sua visão, seus valores e sentimentos na sua própria vida e, posteriormente, em sua empresa. Somente dessa forma serão capazes de levar uma mensagem aos outros.

As empresas ainda falam mais do que praticam. Primeiro seja a mudança, depois a comunique. Quando o discurso é coerente com as ações, a comunicação tem verdade, autenticidade e poder – essa última característica nasce da integração entre atitude e verbo.

 

Os pecados da liderança

No momento, as empresas exploram a natureza e as pessoas para se tornarem cada vez maiores. Não cresçam muito: essa é minha mensagem para os negócios. Não avancem no tamanho, mas na qualidade, assim se conquista a satisfação. Hoje, pensamos em lucro, número de funcionários, aspectos quantitativos. Essa ânsia de querer sempre mais, de se tornar cada vez maior, aonde isso leva? Quão grande você fica se nunca se considera grande o bastante? Bill Gates (fundador da Microsoft) não é grande o bastante, assim como Rupert Murdoch (presidente de um dos um dos maiores conglomerados de mídia do mundo, a News Corporation)? E o que aconteceu com Murdoch? Perdeu o contato com a própria corporação. Na Inglaterra, cometem-se crimes dentro das empresas dele sem que ele saiba.

Esse é o resultado: quando você cresce demais, perde-se o contato. Se uma empresa é bem-sucedida ela gera lucros visíveis e serve à comunidade. Cresça em qualidade. Aprimore seus relacionamentos.

Liberdade criativa

Os gestores precisam libertar seus negócios do controle exagerado e permitir aos membros do staff o uso da própria imaginação, criatividade e iniciativa. Devemos confiar nas pessoas ou acabamos minando sua criatividade. E, para criar e manter uma empresa de sucesso, não basta contar com a criatividade de apenas um indivíduo, precisa-se de um time. Quando há muito controle, perde-se o benefício da imaginação, da energia e intuição. Perca um pouco desse controle, deixe seu ego de lado. É uma contradição pretender-se inovador e desejar-se controlador. A inovação requer liberdade.

As empresas e a educação de stakeholders

Primeiramente, acredito no papel da mídia nesse engajamento – ela deve criar um tipo de consciência entre as pessoas de como viver bem. E também há o papel do sistema educacional: as escolas e universidades deveriam nos educar para tomarmos conta de nós mesmos. No momento, as instituições estão ensinando as pessoas a trabalhar duro, a ganhar mais dinheiro, ir em busca de cada vez mais sucesso. Estudamos para passar em provas, arranjar trabalho. A mídia e o sistema de ensino deveriam estar lado a lado para estimular os cidadãos a adotarem uma nova postura em relação aos negócios, no sentido de “quero trabalhar em sua empresa, mas sem ficar sobrecarregado; preciso de tempo para mim mesmo, para minha família, para minha criatividade”.

Dinheiro e trabalho representam apenas uma parte da vida, não o todo. É uma questão de mudança mental, de consciência. As organizações nasceram para servir à comunidade e o meio ambiente – e não o contrário. E, quando se age de forma justa, o efeito é recíproco: pessoas e ambiente também ‘tomam conta’ da companhia e a recompensam, gerando lucro.  Mas isso não é o que acontece hoje. Atualmente, as empresas vêem a natureza como uma fonte para o seu benefício e as pessoas como um mercado para os bens que produzem. Mas natureza e comunidade possuem um valor intrínseco, por isso há necessidade de uma transformação fundamental de paradigma. As empresas vão continuar obtendo lucro, mas de uma forma diferente.

A formação dos líderes

Nosso sistema educacional está promovendo insustentabilidade e consumismo porque possui uma base materialista – “passe nos exames, arrume um emprego, ganhe mais dinheiro, consuma mais”. Investir nesse modelo não vai resolver o problema, pois, do jeito que está hoje, significa tornar-se parte dele. Tanto em escolas de negócios quanto em universidades, como Oxford, Harvard ou USP, precisamos criar um novo tipo de educação – voltada para a vida e não apenas para o trabalho – para aprendermos a usar a criatividade, a imaginação, a usar nosso cérebro e nossa nossa consciência para cuidar das pessoas e do planeta. O propósito da educação deve mudar.

Reconexão com o planeta

Nenhuma residência nas grandes cidades deveria ser construída sem árvores, sem água. Se você segue esse princípio, natureza e cultura andam lado a lado. Elas não são inimigas. Então por que, em São Paulo, por exemplo, mantemos a natureza do lado de fora? Precisamos integrar esses dois elementos. Na Inglaterra, temos um bom número de pequenas vilas e há um movimento chamado Garden City que estimula a construção de todas as casas com um jardim.

Em segundo lugar, não devemos pensar que viver na cidade é melhor. Não se deve encorajar as pessoas a deixarem as áreas rurais. Nenhuma cidade deveria ter mais de 2 ou 3 milhões de habitantes. São Paulo é muito grande, assim como o Rio de Janeiro. Em metrópoles desse tamanho perde-se muito tempo viajando de um lado para o outro. E, quando se ultrapassa uma determinada dimensão, perde-se o sentido de pertencimento, não há comunicação. Você não pode, por exemplo, visitar um amigo porque leva muito tempo, o tráfego é congestionado; torna-se algo pouco viável.

Cada bairro deveria proporcionar uma vida completa, integrando hospitais, lojas, escolas, atendendo a todas as necessidades de seus moradores. Uma cidade deveria ser um conjunto de vizinhanças, de pequenos centros dentro do todo: cada bairro sustentável por si só. Atualmente, as pessoas viajam longas distâncias para trabalhar, por exemplo. Está totalmente errado. A resposta está na reorganização das cidades.

Mudanças climáticas e seu enfrentamento

No âmbito das mudanças climáticas, não precisamos de muita inovação no sentido tecnológico. A tecnologia tem um espaço em nossas vidas, mas não pode resolver o problema do aquecimento global. Devemos aprender a viver do sol, do vento, das fontes naturais e reduzir nosso desperdício. Podemos criar um estilo de vida mais harmonioso para mitigar ou combater o aquecimento global.

A inovação necessária não é tecnológica, e sim de sabedoria e mais consciência, de um estilo de vida transformador. Precisamos inovar para novas possibilidades, mas ainda não as percebemos: ficamos na dependência da tecnologia para resolver nossos problemas, esperamos que empresas como GE ou General Motors dêem um jeito na situação. Não queremos mudar nosso estilo de vida dispendioso. Precisamos encarar a responsabilidade e sermos mais puros, simples e harmoniosos.

O tempo e a economia

Tanto em países industrializados – como Estados Unidos, Inglaterra e França – quanto nos países em desenvolvimento, as pessoas não têm tempo para si mesmas. Mas essa questão não depende do estado econômico de um país, e sim de uma espécie de consciência. Na Índia, por exemplo, os indivíduos possuem esse tempo. Fazem ioga, meditação e frequentam templos – não querem posses, dinheiro ou trabalhar em excesso. Nas fazendas, fora das temporadas de plantação e colheita, há bastante tempo para ser usufruído.

Há muitas celebrações acontecendo o tempo todo na Índia. As comunidades indígenas também representam outro bom exemplo – produzem grandes pinturas e um excelente trabalho artístico O tempo está em nossa consciência e precisamos requerê-lo para nós mesmos, para nossa criatividade. Tendo o desejo, é possível arranjá-lo.

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2) Réplicas com Arjen Hoekstra: 10 desafios para uma gestão hídrica sustentável




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