Preparando líderes para os novos tempos

Por Aileen Ionescu-Somers e Francisco Szekely

Hoje, mais do que nunca, não se trata mais de uma questão de “seria bom ter”, mas sim de “temos que ter” líderes de sustentabilidade encabeçando empresas e setores. A recente crise financeira mostrou que os sistemas de valores subjacentes ao mundo dos negócios precisavam ser revistos seriamente, assim como todo nosso sistema corporativo.

E um elemento positivo resultante disso é o incentivo, por parte de líderes de negócios, na implementação da responsabilidade corporativa como uma “norma” em empresas modernas no pós-crise. Certamente, essa é uma área para a qual as escolas de negócios podem realmente fazer a diferença. No entanto, estão fazendo, de fato? As escolas de negócios estão contribuindo para construir outro paradigma?

Antes de abordar essas questões, vale primeiro considerar a atual situação da integração estratégica da sustentabilidade nas empresas. O IMD, na Suíça – uma das principais escolas de negócios do mundo –, tem realizado grandes pesquisas empíricas sobre o tema ao longo da última década. Constatou-se que muitas empresas globais estão firmemente ancoradas aos modelos de negócio “antigos”, e que gerentes funcionais internos resistem à mudança. Isso acontece, principalmente, devido às mentalidades fixas ou de curto prazo, mas também às lacunas de conhecimento e má compreensão de como a sustentabilidade pode ser integrada de forma relevante no dia a dia das operações.

Portanto, a inovação estratégica para a sustentabilidade tem se mantido incremental: pequenos passos ­necessários para enfrentar questões- chave, ??como mitigação das mudanças climáticas, redução das ameaças aos recursos naturais ou a melhoria da equidade global ao abordar, de forma adequada, questões dos direitos humanos e combate à pobreza. Apesar de todo o alvoroço da sustentabilidade, uma inovação estratégica mais radical continua sendo da competência de poucos líderes em cada setor. A transformação completa dos modelos de negócios – que talvez seja a única maneira de se criar um sistema sustentável – pode sequer estar perto de acontecer.

Uma inibição semelhante sobre a transformação de modelos permeia as escolas de negócios. A quantidade de iniciativas para apoiar as escolas e universidades na programação de ações mais focadas indica que ainda há muito a ser feito nessa área. O Pacto Global das Nações Unidas criou os Princípios para Educação Empresarial Responsável (PRME, na sigla em inglês), cuja missão é “inspirar e incentivar globalmente a gestão responsável da educação, pesquisa e liderança”. A Academy of Business in Society (ABIS) é uma “rede de empresas globais, e as principais escolas de negócios, comprometida com a integração empresarial sustentável nos negócios e na investigação de políticas, educação executiva e gestão da educação”.

A Iniciativa de Liderança Globalmente Responsável (GRLI) – que representa empresas, escolas de negócios e centros de educação para a liderança – foi formada pela Fundação Europeia para o Desenvolvimento da Gestão (EFMD), e apoiada pelo Pacto Global. Por fim, a iniciativa 50+20, uma colaboração entre escolas de negócios que buscam novas formas e oportunidades para a gestão da educação para transformar e reinventar-se, descreve a “escola de negócios do futuro” em um livro programado para ser publicado ainda no primeiro semestre de 2013.

A jornada do IMD

Em 1993, o IMD criou a primeira iniciativa de pesquisa de gestão ambiental com foco em ações estratégicas das empresas além da conformidade. Em 2000, tornou-se uma plataforma dinâmica de pesquisa e ensino orientada por empresas. Na mesma época, tornou-se sócio-fundador da ABIS, mencionada acima. Recentemente, passou a integrar o PRME da ONU.

Em meio à atual crise financeira global, o IMD colocou a liderança em sustentabilidade em outro patamar dentro da escola de negócios – criando um Centro Global para a Liderança em Sustentabilidade (CSL), com uma cadeira dedicada, e integrando-a à plataforma de ensino de empresas e parceiros globais. O objetivo é reunir, sob um mesmo foco, atividades de pesquisa e aprendizagem que estão sendo realizadas pela instituição e seus parceiros de ensino, e abordar de forma holística as três maneiras com que as escolas de negócios podem contribuir para preparar líderes para a sustentabilidade: a liderança, a pesquisa e prática relevante e a integração de programas para executivos.

Liderança

Atualmente, não existe uma definição global do que realmente signifiquem a responsabilidade corporativa e a liderança responsável. Por exemplo, a diferença de interpretação da “responsabilidade social das empresas” entre Estados Unidos e Europa é um grande desafio que precisa ser remediado. O CSL trabalha uma grade de liderança que vai harmonizar o conceito da responsabilidade empresarial.

Para tal, o Centro assume uma abordagem pragmática com base na relevância econômica dos negócios de indicadores sociais e ambientais e do desdobramento de oportunidades de negócios relacionados. Cegas pelo pensamento de curto prazo, muitas empresas não estão tratando adequadamente importantes indicadores de sustentabilidade. Para alterar o quadro, as discussões da sustentabilidade empresarial precisam se tornar estratégicas e focar em garantir que soluções baseadas no mercado façam uma verdadeira diferença. Os desafios são: dar mais prioridade à sustentabilidade na agenda da liderança corporativa, adotar modelos de negócios sustentáveis ??e programar isso de forma eficiente.

A plataforma de ensino CSL realiza uma mesa-redonda de liderança sobre temas-chave, como os desafios da sustentabilidade que afetam os recursos naturais e soluções inovadoras relacionadas, ou sobre a identificação de oportunidades de inovação estratégicas ??referentes às questões climáticas e energéticas. As mesas-redondas permitem acompanhar a dinâmica da liderança nessas áreas, espalhar o conhecimento entre os gestores e relacionar essa dinâmica ao conteúdo dos programas de liderança de alto nível do IMD.

Com membros corporativos dinâmicos e de peso, como Nestlé, Unilever, ABB, Bombardier, Novartis e Hoffmann-La Roche, a plataforma de ensino CSL mantém-se atualizada nessa área tão acelerada de interesses acadêmico, público e empresarial. Ao monitorar e documentar como as empresas superam as barreiras à integração estratégica da sustentabilidade,  pode-se utilizar material relevante e de ponta nos programas e gerar casos de ensino fundamentados na prática dos negócios.

O mantra corporativo do IMD é Real World, Real Learning (algo como Mundo Real, Aprendizagem Real). Sendo assim, a pesquisa do CSL foca em ajudar empresas a superarem suas barreiras, tentando estabelecer “normas” em torno da liderança responsável nas organizações, tornando-as mais “pés no chão” em um contexto em que são orientadas por partes interessadas.

“Integrar” a sustentabilidade nas organizações significa torná-la não apenas algo a ser adicionado, alojado em um Departamento de Sustentabilidade, povoado por gestores do tema desenvolvendo estratégias irrelevantes à vida dos colaboradores.

Na verdade, o comportamento social e ambientalmente responsável deve estar integrado aos sistemas de negócios como parte da atividade cotidiana da empresa.

Em sua contribuição à integração, a meta do IMD é fazer com que a liderança responsável se torne parte da grade. Assim, há somente um programa maior dedicado à liderança em sustentabilidade: o One Planet Leaders Program (OPL) – ou Programa de Líderes de Um Único Planeta, uma parceria inusitada entre a escola de negócios e a ONG de conservação WWF.

Conclusão

Focar questões de sustentabilidade de longo prazo nas empresas será uma tarefa árdua se a abordagem permanecer ancorada na gestão de risco em vez de buscar oportunidades. É preciso uma nova geração de líderes empresariais que tragam novas maneiras de pensar sobre um modelo sustentável do capitalismo. Sem a contribuição das escolas de negócios, isso não irá acontecer.

Aileen Ionescu-Somers e Francisco Szekely são diretores do Centro Global para Liderança Sustentável (CSL) do IMD Business School, na Suíça.




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