Peter Madden

Por Peter Madden

Novos meios inteligentes para trabalhar, viajar e viver. Muito mais do que produzir a última geração de tablets e smathphones, o desafio da inovação está em desenvolver produtos, serviços e modelos de negócios para combater questões críticas enfrentadas pela humanidade. A boa notícia é que os inovadores estão de plantão!

“A resposta para os desafios globais de sustentabilidade deve desencadear uma onda de criatividade e talento nunca antes vista desde a Revolução Industrial”, sentencia Peter Madden, diretor da organização britânica Forum for the Future, parceira de conteúdos de Ideia Sustentável. Madden tem se dedicado à sustentabilidade nos últimos 20 anos – foi diretor da organização think tank Green Aliance e de políticas da Agência Ambiental Britânica.

Especialista na projeção de cenários futuros e inovação, Madden acredita que não precisamos apenas de ideias brilhantes para transformar o atual modelo insustentável, mas também da aceleração do desenvolvimento de políticas climáticas e de espaço às soluções criativas dentro de empresas e governos.

Apesar da urgência no enfrentamento das alterações climáticas, um olhar calmo e preciso deve conduzir a busca de soluções. Madden cita a visão da ambientalista americana Donella Meadows, conhecida pelo influente livro Limites do Crescimento (Ed. Perspectiva), para defender a ideia de “antes de nos apressarmos, deveríamos utilizar o tempo para mapear e entender a dinâmica dos grandes sistemas em pontos estratégicos capazes de nos mover a um maior equilíbrio sustentável”..

Confira, a seguir, os pensamentos e propostas de Peter Maden em texto especialmente produzido para a revista Ideia Sustentável.

A proporção do desafio

Estamos entrando em uma fase de urgência de cunho extraordinário – e de oportunidades igualmente extraordinárias. Sabemos que nosso clima está mudando em grande velocidade e numa escala muito além de qualquer experiência que a humanidade atual já viveu; que água, florestas, solo – todos os elementos essenciais à vida – estão se esgotando e se degradando em ritmo cada vez mais preocupante. E sabemos também que as comprovações científicas de um colapso ambiental tornam-se mais acentuadas dia após dia. Isso indica a proporção dos desafios a enfrentar.

Não creio que isso seja motivo para desespero. Pelo contrário, deveríamos enxergar como uma oportunidade única – uma chance de efetuar mudanças positivas e duradouras. Nossa resposta para os desafios globais de sustentabilidade deve desencadear uma onda de criatividade e talento nunca antes vista desde a Revolução Industrial. É preciso desenvolver novas tecnologias no setor de energia para explorar o poder do vento, das ondas do mar e do sol; e uma produção inteligente de produtos e serviços utilizando apenas uma fração de nossa pegada de carbono e água atual.

Precisamos de novos meios inteligentes de viver e viajar, de trabalhar e nos divertir; e de empreendedores, inovadores e investidores animados com as possibilidades globais de uma nova economia de baixo carbono.

Inovação para eficiência

A boa notícia é que os inovadores estão começando a enfrentar o desafio. E é possível perceber muitas ideias novas e animadoras tomando forma. Um futuro sustentável não significa parar de produzir e vender coisas. Porém, isso requer que façamos essas coisas de outra maneira.

Nosso desafio é tornar bens e serviços mais eficientes e inteligentes, que satisfaçam os desejos do consumidor utilizando menos recursos e causando menos poluição. A ideia não é limitar as empresas. Pelo contrário, tais abordagens representam uma grande oportunidade de mercado e podem proporcionar uma nova fonte de inspiração para inovadores. Defino inovação em termos muito simples como “novas ideias que funcionam”. Inovação é a maneira como as empresas sobrevivem, se mantêm competitivas e crescem, bem como a forma de desenvolver novos produtos e serviços para satisfazer as necessidades da sociedade.

No passado, design e inovação frequentemente faziam parte do problema – contribuindo para a geração de lixo e a extração de mais recursos, o que aumentava o consumo de energia e a poluição. Às vezes, os projetistas se sentiam culpados por focarem somente a estética enquanto ignoravam a sustentabilidade – pensando em “no que as coisas pareciam” em vez de “como eram feitas ou usadas”.

Soluções sustentáveis

Precisamos resgatar o sentido real da grande inovação. Isso não significa apenas produzir um novo leitor de multimídia ou um tablet para computador, mas desenvolver novos produtos, novos serviços ou modelos de negócios que combatam questões críticas com as quais nos deparamos hoje. Como podemos circular em nossas megacidades sem uma explosão de poluição e congestionamento? Como podemos investir em cuidados ao idoso em um planeta onde as pessoas estão vivendo por muito mais tempo? Como vamos alimentar um mundo cuja população mundial será de 9 bilhões de habitantes?

Felizmente, os inovadores são cada vez mais parte da solução. Eles aceitam suas responsabilidades e percebem que, longe de limitar o design, a sustentabilidade oferece uma nova série de incríveis potenciais de inovação – permitindo que olhem o mundo através de novas lentes e pensem sobre como fazemos as coisas de maneiras totalmente novas.

Isso é ainda mais óbvio na esfera das energias renováveis, na qual uma miríade de inovações têm surgido para gerar, armazenar e consumir de forma mais inteligente.  Essas inovações vêm, por exemplo, de enormes fazendas baseadas em energia solar, na região do deserto do Saara (África), passam por pequenos lampiões solares que permitem às crianças ler à noite nas vilas da Índia e ainda iluminar toda a Europa.

Uma das mais importantes ferramentas que os inovadores podem utilizar em seus projetos é a chamada avaliação do ciclo de vida. Todo produto tem um ciclo de vida. Matérias-primas são extraídas da terra, processadas, transformadas em produto que, posteriormente, será distribuído, consumido e então descartado – geralmente volta para a terra. Produtos diferentes terão diferentes impactos ambientais em diferentes estágios de seu ciclo de vida.  Por exemplo, na Europa estimamos que no ciclo de vida de um iogurte a maior parte – cerca de 80% – das emissões de gases de efeito estufa venha das vacas que produzem o leite. Enquanto que, para um xampu, 80% dessas emissões surgem quando o consumidor de fato utiliza o produto – e ocorrem devido ao aquecimento da água durante a lavagem dos cabelos.

Compreender o ciclo de vida permite que inovadores combatam impactos significantes – não os triviais – e também os orienta a pensar de maneira mais holística sobre como os produtos são feitos, usados e descartados. É importante ressaltar que essas novas ideias têm sido implementadas. Soluções com esse potencial não estão em falta. Algumas são inovações tecnológicas, outras sociais ou comportamentais. Entretanto, não precisamos apenas de ideias brilhantes, mas também acelerar seu desenvolvimento – e trazê-las para esta dimensão. Isso significa criar políticas climáticas – em empresas e governos – que permitam o surgimento dessas ideias e impeçam que os interesses pessoais e corporativos dominem a situação.

Inovação de sistemas

A instituição Forum for the Future aconselha empresas e governos ao redor do mundo sobre como inovar para a sustentabilidade. Nos últimos 15 anos, temos trabalhado com inúmeras organizações, como a Akzo Nobel – com quem criamos a pintura sustentável, um sucesso no mercado – e a Unilever, para reformulação de seu portfólio de produtos. Esses novos bens são motivantes, porque vão tornar nosso mundo um lugar melhor e fazer as empresas lucrarem.

Com o passar do tempo, no entanto, começo a perceber que desenvolver produtos específicos não é o suficiente. Se quisermos realmente combater o grande desafio global, precisamos focar, em primeiro lugar, na mudança de sistemas por completo, para então fazermos uma projeção dos problemas. Portanto, sim, carros elétricos são excelentes; mas não seria melhor se realizássemos um planejamento de vilas e cidades para tornar mais fácil nossa ida ao trabalho, por exemplo?

Para que ocorra a mudança necessária, temos de combater as causas sistêmicas e interconectadas dos grandes desafios de nossa era. Para isso, inovadores deveriam aprender com a teoria dos sistemas de Donella Meadows. Ela observou que existem “alavancas”, ou pontos dentro de um sistema complexo (como uma empresa, uma cidade, uma economia), no qual “uma pequena alteração pode causar grandes mudanças em todo o sistema”. Esse pensamento deveria ajudar a guiar nossos esforços rumo à inovação. Antes de nos apressarmos, deveríamos usar o tempo para mapear e entender a dinâmica dos grandes sistemas – como o de alimentos, energia e finanças – que atendem às nossas necessidades básicas. Deveríamos procurar fazer uma intervenção – às vezes múltiplas intervenções – em pontos estratégicos capazes de mover um sistema por inteiro rumo a um maior equilíbrio sustentável.

Nosso objetivo principal deve ser mudar os sistemas complexos que dão suporte às nossas vidas, de modo que eles estejam adequados ao século XXI. Se formos bem-sucedidos, não vamos contribuir somente com um futuro mais sustentável. Poderemos também viver, ainda no presente, de forma mais segura, agradável e próspera.

Peter Madden é diretor executivo do Forum for the Future

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