Sustentabilidade precisa estar incorporada à gestão de pessoas

Área de recursos humanos é fundamental para que empresas internalizem e incorporem valores relacionados à sustentabilidade

Por Maura Campanili, da Envolverde, especial para a Plataforma Liderança Sustentável

Quando Andrea Mota foi contratada pela Coca-Cola, no início dos anos 2000, para trabalhar no departamento de Marketing, propôs uma ação que envolvia a produção de garrafas pet coloridas, que manteve mesmo tendo sido alertada pela área ambiental que o produto, com isso, deixava de ser reciclável. A campanha foi um sucesso, mas, segundo Mota, que hoje é a Head de Sustentabilidade da empresa, dificilmente aconteceria atualmente.

“A Coca-Cola tem uma ideia consistente há anos da importância da sustentabilidade ambiental para o negócio, mas se deparou com o desafio de fazer com que isso se tornasse um projeto de empresa. Como evitar que uma gerente de Marketing maluca proponha uma garrafa pet colorida?”, pergunta. A resposta encontrada pela gigante da área de alimentação foi o envolvimento da área de recursos humanos, tema do Líder 2030 Talks – RH e Sustentabilidade, realizado no último dia 29 de junho, em São Paulo, organizado pela Plataforma Liderança Sustentável. No evento, foram apresentados dez casos relacionados a esse salto que as empresas têm sido obrigadas a encarar para dar conta da real internalização da sustentabilidade.

Segundo os representantes das áreas de recursos humanos e sustentabilidade que mostraram os cases, sem um trabalho consistente voltado para seu público interno, dificilmente uma organização conseguirá atingir a parte que lhe cabe com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), sobretudo no que diz respeito a questões como emprego digno, crescimento econômico, inovação, consumo e produção sustáveis. Na prática, isso significa garantir sua sobrevivência em uma realidade de consumidores mais exigentes e recursos naturais cada vez mais escassos.

No caso da Coca-Cola, essa nova postura incluiu muito treinamento, implantação de critérios para inovação, vivências e incentivo ao trabalho voluntário. “As ações levaram ao engajamento da equipe, mas era difícil dar continuidade. Em 2015, o CEO no Brasil concluiu que a empresa precisa de homens de negócios que saibam sobre sustentabilidade e fez uma proposta ousada, que é incluir o tema na preparação dos líderes. Isso vem sendo implementado e tem sido desafiador”, diz Mota.

Embora pareça uma questão evidente, na prática, ainda é um tema novo nas corporações. “A área de recursos humanos normalmente é executora de ações ligadas à sustentabilidade e não promotora delas. Mas o RH ajuda a construir essa nova cultura, pois é o responsável pela educação corporativa, que gera atitude”, avalia Ricardo Voltolini, diretor presidente da consultoria Ideia Sustentável, idealizadora da Plataforma Liderança Sustentável.

Segundo Voltolini, para que haja protagonismo na área de RH, precisa ser um trabalho contínuo, que envolva ações programadas, instância interna de governança sobre o tema, com comitês de departamentos, e também inclusão nos condicionamentos de promoção e remuneração. Embora isso venha ocorrendo, o processo de seleção dos cases apresentados no evento mostrou que não é tão simples. De oitenta casos levantados, apenas 50 poderiam se enquadrar no envolvimento da área de RH com o tema, entre os quais 10 foram convidados a participar. Em comum, as experiências relatadas mostram a necessidade da sustentabilidade fazer parte do cerne da empresa e das questões que envolvem a carreira do funcionário, quando não, se estendendo para sua vida pessoal.

Recursos naturais

Fazer com que os funcionários percebam que a sustentabilidade está no centro dos negócios parece ser uma tarefa mais fácil para empresas que lidam diretamente com a necessidade de recursos naturais, como é o caso da água para a Coca-Cola ou a Ambev. No caso desta última, Renato Biava, Head de Gente da empresa, que tem mais de 30 mil funcionários, conta que as iniciativas de sustentabilidade, como redução do consumo de água, reciclagem e voluntariado, foram conectadas em um único guarda-chuva, cujo tema é a busca de um mundo melhor, e incorporadas na comunicação interna, para que chegassem a todos os colaboradores. Esse posicionamento sobre o tema é apresentado ao funcionário já na sua integração à empresa. Uma pesquisa interna realizada neste ano, mostrou que 96% dos funcionários viram a preocupação com o tema na sua rotina.

Na Novelis, líder mundial em laminados e reciclagem de alumínio, a internalização da economia circular, que envolve os princípios de redução, reutilização e reciclagem, segundo Glaucia Teixeira, VP de RH, levou 94% dos colaboradores a declararem, em pesquisa interna, terem orgulho da empresa. Mais uma vez, essa incorporação de valores foi facilitada com a nomeação de um novo CEO global, que trouxe o desafio de uma transformação da cultura da empresa a partir de experiências fortes que levassem a crenças, ações e resultados.

Mas, embora seja fundamental que a intenção venha de cima, sem o envolvimento real das equipes, os resultados serão sempre pontuais. Por isso, no caso da Novelis, Teixeira diz que o objetivo é que os colaboradores se portem como donos do negócio e das ações. E foi a partir de uma processo que envolveu mais de 400 funcionários que a questão de sustentabilidade apareceu como central na cultura da empresa e a frase “Juntos criamos um mundo sustentável” foi escolhida como lema.

RH como estratégia para sustentabilidade do negócio

Segundo Antonio Joaquim de Oliveira, presidente da Duratex, em 2015 a empresa resolveu incorporar a sustentabilidade não como centro de custo, mas como estratégia de negócio e, para isso, tem procurado fazer uma mudança no que se chama de mindset da organização, ou seja na atitude mental de todos os colaboradores. “Não é possível fazer isso sem a área de recursos humanos, que tem o papel de disseminação e engajamento”, avalia.

Para tanto, a empresa criou uma estratégia de sustentabilidade a partir do RH, que envolveu rodas de conversa com os colaboradores para falar sobre temas como mudanças climáticas, água, lixo, e passar uma visão sistêmica e de interdependência com o ambiente. “Esse processo foi realizado em cada unidade da companhia e durou seis meses, envolvendo 6 mil dos 11 mil colaboradores. A partir de 2017, trabalhamos na Estratégia 2025 para a empresa, com elaboração colaborativa, a partir de um jogo lúdico, que também percorreu todas as unidades, formando 400 líderes. A ideia foi que pensassem em questões como: qual a minha função nesta companhia? O que posso fazer de diferente?”, disse Luciana Alvarez. Segundo ela, a ação resultou em várias mudanças de processos na organização.

Para Claudia Politanski, VP de RH do Itaú-Unibanco, a gestão de talentos nunca foi tão desafiadora. “A área de RH tem que se reinventar. Colaboradores, hoje, buscam maior autonomia, têm espírito empreendedor. É preciso adaptar a cultura da empresa para que isso ocorra. Por isso, adotamos modelos mais colaborativos, com aferição de resultados coletivos, mas valorizando as qualidades individuais das pessoas. A adoção de um dress code sem amarras é um reflexo disso: ‘vou como sou’”, explica.

Politanski explica que o banco quer ser líder em sustentabilidade e satisfação do cliente e, para tanto, valoriza questões como manter um ambiente inclusivo e diverso. “Acompanhamos o funcionário desde o processo seletivo até o dia em que sai da empresa. O foco é tornar a experiência de consumo diferente, com formas diversas de medir resultados. Não valorizamos somente, por exemplo, o volume de vendas, mas a qualidade da venda. No final, queremos que a satisfação do cliente garanta a sustentabilidade do negócio”, diz.

Esse foco no cliente e no negócio também pode ser visto no posicionamento da Nespresso, segundo Marcia Bertolini, diretora de RH. “Desde 2014, estabelecemos nosso compromisso, chamado de “xícara positiva”, nossa bíblia da sustentabilidade focada em quatro áreas: qualidade do grão, a partir de uma colheita sustentável; redução da nossa pegada de carbono, a partir de questões como máquinas e transporte; reciclagem do alumínio, material escolhido por preservar a qualidade do café e por ser infinitamente reciclável; e o cuidado com nossos colaboradores, por meio de comunicação e treinamento para os diferentes públicos internos”, conta. Segundo a diretora, os funcionários das lojas, por serem multiplicadores, são os que recebem maior treinamento. O engajamento, porém, é coletivo, com metas e incentivos. “Conseguimos dobrar a taxa de reciclagem no último ano”.

Com o objetivo de ser a empresa de comunicação mais sustentável do Brasil, a Algar Telecom também tem o RH como pilar, segundo a Head de Sustentabilidade da empresa, Cristiana Heluy. “Além de uma estrutura de comitê, formado por pessoas de várias áreas e unidades, que já realizou cerca de 300 ações – algumas delas transformadoras -, o engajamento é realizado por meio de treinamentos customizados por área”, diz. Na empresa, a remuneração semestral dos líderes tem objetivos ligados à sustentabilidade ambiental. Hoje, são 13 indicadores nessa área, como, por exemplo, o abastecimento de 90% da frota com etanol. Também se procura dar visibilidade às iniciativas positivas, como premiar as regionais mais sustentáveis. Em 2017, 13 regionais receberam o selo de excelência na área.

 

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