Sustentabilidade e a cadeia de fornecedores

Há 15 anos, durante um curso de MBA, o executivo de uma empresa do segmento varejista discorreu, com requintes de crueldade, sobre o modo como, segundo suas próprias palavras, “buscava a máxima eficácia na negociação com fornecedores”. Como julgava estar entre pares, afrouxou o superego e relatou o que normalmente só se fala a portas fechadas.

Em respeito ao leitor, economizarei os detalhes. Mas o procedimento do qual ele se orgulhava consistia basicamente em criar situações psicológicas que minassem a auto-estima do fornecedor, destruíssem os seus nervos e o pressionassem a chegar no preço imposto pela empresa, reduzindo drasticamente a sua margem de lucro. O sentimento que brotava das palavras do jovem executivo, cioso do seu papel, era, sobretudo, de satisfação por derrotar um inimigo. O que ele tirava do fornecedor, usando o poder da empresa, retornava-lhe na forma de bônus.

Nada mais fora de moda do que uma história como essa. Os tempos –felizmente -são outros. E embora não seja possível afirmar que práticas desse tipo tenham deixado de ocorrer –afinal, a moral egoísta, oficiosa e interesseira continuar a existir entre quatro paredes e a pregar que em nome da competitividade pode-se tudo — certamente ela já não encontra mais terreno tão fértil.

Com a ascensão do conceito de sustentabilidade na gestão das empresas os fornecedores ascenderam à posição de stakeholders. Já não são mais elementos sobressalentes no negócio. Como parte interessada, passaram a integrar, de fato, a cadeia de valor da empresa, sendo responsáveis não apenas pela adição de valor ao produto ou serviço, mas também pela disseminação dos valores nos quais acredita a empresa. Jogo de palavras à parte, a grande novidade na relação menos vertical entre empresas e fornecedores, é que as primeiras começam a usar o seu poder de influência e persuasão para desenvolver os segundos, partilhar com eles seus princípios e valores, educá-los para e comprometê-los com as suas práticas social e ambientalmente responsáveis.

Na origem dessa nova modalidade, digamos ético-produtiva, destacam-se dois tipos de crença corporativa, ambas muito afinadas com imperativos éticos do início deste século. A primeira diz respeito ao fato de que as empresas enxergam para si um papel indutivo na formação de um ciclo virtuoso — logo a ideia da sustentabilidade constitui uma equação que não se completa se os parceiros deixam de adotar comportamento e atitudes sustentáveis. A segunda crença refere-se à noção de corresponsabilidade que permeia o modo de ser e de estabelecer conexões das empresas mais responsáveis: elas sabem que tudo o que acontece em sua cadeia de valor ou no ciclo de vida do seu produto, ainda que por obra de algum fornecedor, tende a ser percebido pela sociedade também como sua responsabilidade, gerando impacto imediato para a sua reputação, imagem e ambiente de negócio. Uma grave agressão ao meio ambiente, o desrespeito ofensivo a uma lei, uma afronta ao direito de uma minoria ou um deslize de natureza ética cometidos por um parceiro comercial, podem ser vistos publicamente como incapacidade de selecionar bons fornecedores, fragilidade ética ou mesmo omissão indesculpável, pela qual certamente será cobrada.

São muitos os casos recentes de empresas que ignoraram os riscos de práticas insustentáveis em sua cadeia de fornecedores. E se deram muito mal. Não quero chatear o leitor lembrando as mazelas já fartamente denunciadas pela mídia. Mas são os tombos que nos ensinam a ficar de pé.

Tanto a preocupação em induzir a construção de redes de valor em torno de práticas de sustentabilidade quanto a de prevenir riscos reputacionais explica o atual interesse pelo desenvolvimento de fornecedores mais engajados. São louváveis as iniciativas de empresas que incluem em seus códigos de conduta o estímulo a que os fornecedores assumam atitude pró-ativa em relação à sustentabilidade, ao consumo consciente, ao comércio justo, ao meio ambiente e ao trabalho infantil. São bem vindos os chamados “pactos” empresariais pelos quais corporações e fornecedores se comprometem a evitar práticas como a exploração sexual de crianças, o trabalho escravo, a corrupção e todas as formas de preconceito e discriminação. São especialmente recomendáveis as ações de organizações que promovem e desenvolvem fornecedores de baixa renda e os organizam em cooperativas produtivas.

São, sobretudo, imprescindíveis as iniciativas de companhias que estabelecem relações comerciais transparentes, baseadas na parceria do tipo ganha-ganha, com respeito às condições definidas em acordo e a prevalência dos interesses corporativos das partes envolvidas sobre os eventuais interesses particulares menores

As redes de valor de fornecedores reafirmam a tese de que, em tempos de sustentabilidade, as empresas, além de fazer, devem ensinar que os seus públicos de interesse também façam mais em benefício do negócio, das comunidades, da sociedade e do planeta.

Ricardo Voltolini é escritor, palestrante e diretor de Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade (www.ideiasustentavel.com.br), autor de cinco livros, entre os quais Conversas com Líderes Sustentáveis (SENAC-SP/2011) e Sustentabilidade como fonte de inovação (Ideia Sustentável/2016) e idealizador da Plataforma Liderança Sustentável.




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