Terra II

Por Sérgio Rizzo

A comunidade científica desaprovou o cenário catastrófico de O Dia Depois de Amanhã (2004).

Era uma reação natural a uma superprodução hollywoodiana que, com a ampliação do debate sobre mudanças climáticas, imaginava a chegada de uma nova Era do Gelo para assustar a plateia com cenas de destruição em uma Nova York quase toda submersa. Muita ficção, pouca ciência.

Talvez tenha escapado a muitos, no entanto, que o filme de Roland Emmerich (responsável também por outros flertes com cenários apocalípticos, como Independence Day e 2012) cumpria, de maneira enviesada, uma função paradidática: apresentar o tema ao espectador desavisado, plantar a semente da desconfiança em sua consciência e instigá-lo, depois da sessão, a buscar mais informações.

O cinema ensina sempre, inclusive quando nos estimula a duvidar do que se vê na tela. Quem fez a lição de casa, em 2004, e foi atrás de informações sobre mudanças climáticas, não teve motivos para se surpreender com os efeitos do furacão Sandy sobre a Costa Leste dos EUA. Nova York teve o seu “dia depois de amanhã” – menos destruidor do que no cinema, mas muito mais apavorante porque, desta vez, o pesadelo foi real.

Depois de contabilizados os mortos e os prejuízos materiais, a retomada das atividades cotidianas deixou os novaiorquinos com a sensação – confirmada pelas autoridades – de que a cidade não estava preparada para a tragédia. A inundação das regiões litorâneas, em especial, demonstrou essa fragilidade. Espera-se que ninguém culpe o cinema por isso, muito menos a comunidade científica. Ambos emitiram seus alertas.

Se pouca gente ouviu, é outra história – e ela diz respeito muito mais aos corações do que às mentes das pessoas (parafraseando o título do célebre documentário que, em 1974, ampliou a consciência dos norte-americanos sobre a Guerra do Vietnã). Inúmeros dados – o lixo depositado nas praias, as salas vazias de escolas que permanecem com luzes e equipamentos ligados, o desperdício de água – sugerem que, embora o discurso sobre a importância da sustentabilidade venha alcançando mentes, ainda lhe falta chegar aos corações.

É aí, na sensibilização de massas, que o audiovisual tem algo a oferecer. Menos ao criar distopias alarmantes, como em O Dia Depois de Amanhã, e mais ao trazer para a arena social a ideia de fundo de que só temos um planeta para viver. Resta cuidar bem dele.

Qualquer outra opção custará caro. Não parece ocasional que um filme de prestígio internacional como Melancolia (2011) lembre que a destruição da Terra será também o fim da vida tal como a conhecemos. Se o tema foi parar no cinema, é porque sobrevoa a sociedade.

Recém-lançada em DVD no Brasil, a produção independente norte-americana A Outra Terra (2011) oferece uma curiosa variação a essa abordagem apocalíptica. Na trama, cientistas descobrem um planeta-espelho ao nosso. Batizado de Terra II, ele povoa a imaginação de todos: como seria a vida ali? A pergunta obriga a uma reflexão sobre como é a vida aqui: cuidamos bem de nós mesmos, dos outros e das futuras gerações? Filmes servem principalmente para isso: falar aos corações e lançar perguntas, em vez de oferecer respostas.

Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema e professor | www.sergiorizzo.com.br




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